A Estante – “Um Diário Russo” e “Na Patagónia”, duas grandes obras de jornalismo literário

Este ano letivo, o ISCSP introduziu no seu programa do 3° ano de Ciências da Comunicação a cadeira de Jornalismo Literário, que está a ser dada pela primeira vez em Portugal, sob o ensino da professora Isabel Soares.

O jornalismo literário é um género híbrido entre o jornalismo e a literatura que se distingue do jornalismo convencional em vários aspetos, como o seu tom de narrativa, a sua escrita na primeira pessoa, a sua vasta adjetivação, a imersão do jornalista no tema em estudo e a sua subjetividade.

O género surgiu durante os finais do século XIX e um dos seus primeiros grandes percursores foi Jack London que, em 1902, se aventurou pelo East End londrino, com o objetivo de descrever o que lá se passava, desde situações de miséria extrema a casos de prostituição infantil e ao mistério do famoso Jack the Ripper. Disfarçando-se como um dos habitantes daquela zona de Londres, London viveu várias experiências como um verdadeiro east ender, relatando-as na sua obra “The People of the Abyss” (O Povo do Abismo), publicada em 1903.

Atualmente, o Jornalismo Literário continua a ter bastante expressão pela mão de vários autores como, por exemplo, John Simpson, repórter de guerra da BBC, Gabriel Thompson, que explora as condições de trabalho dos imigrantes ilegais nos EUA, e Ted Conover, que tirou o curso de guarda prisional para poder retratar o ambiente da prisão norte americana de Sing Sing. Em Portugal, este estilo é maioritariamente desenvolvido por jornalistas como Pedro Coelho e Miguel Sousa Tavares.

No entanto, o jornalismo literário tem sido aplicado, ao longo do tempo, em obras de vários autores, alguns deles bastante prestigiados. Neste artigo, irei recomendar dois livros de viagem que se inserem nesta forma diferente de fazer jornalismo.

“Um diário Russo” – John Steinbeck

Capa do livro “Um Diário Russo” de John Steinbeck


Laureado com o Prémio Nobel da literatura no ano de 1962, John Steinbeck é maioritariamente conhecido pelos seus trabalhos de ficção como “As Vinhas da Ira” e “O Inverno do nosso Descontentamento”. Porém, também se dedicou ao Jornalismo Literário. “Um Diário Russo” é uma das suas maiores obras neste campo. Publicado em pleno pós-guerra, no ano de 1948, o livro relata a viagem feita, no ano anterior, por Steinbeck e pelo fotógrafo Robert Capa, à União Soviética. Os principais objetivos com a obra foram desmistificar algumas ideias pré-concebidas, por vários cidadãos norte-americanos, em relação ao país e observar, descrever e relatar as vivências daquele povo.

As zonas visitadas por ambos foram Moscovo, Kiev, Estalinigrado (atual Volgogrado) e a Geógria, cada uma com as suas particularidades. Moscovo com a sua atmosfera grave, séria e impregnada de propaganda, Kiev com uma imensa autenticidade e com locais à volta muito marcados por uma vasta ruralidade e simplicidade, Estalinigrado com um visível rasto de destruição, depois de ter sido bombardeada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, e a Geórgia, com o seu clima semi-tropical e aura paradisíaca. Ao longo da obra, o autor vai apresentando os seus pontos de vista e sentimentos face às experiências descritas, como se nos convidasse a vivê-las também.

Para além de nos proporcionar uma leitura imensamente agradável, “Um Diário Russo” tem um riquíssimo conteúdo histórico, contém muitas provocações bem humoradas de Steinbeck à peça “A Questão Russa”, de Konstantin Simonov, que visou ser uma crítica política aos Estados Unidos da Guerra Fria, e incorpora diversas fotografias tiradas por Capa, que dão corpo material ao ambiente descrito.

“Onde quer que estivéssemos na Rússia, em Moscovo, na Ucrânia, em Estalinegrado, o nome mágico da Geórgia estava sempre a vir à baila. Pessoas que nunca tinham lá estado, e possivelmente nunca lá iriam, falavam da Geórgia com uma espécie de nostalgia e grande admiração. Falavam dos georgianos com super homens, grandes bebedores, grandes dançarinos, grandes músicos, grandes trabalhadores e amantes. E falavam do país do Cáucaso e da Costa do Mar Negro como uma espécie de segundo céu. Começámos mesmo a convencer-nos de que os russos alimentam a esperança de que, se levarem vidas muito boas e virtuosas, irão para a Geórgia e não para o céu, quando morrerem.”

– Excerto de “Um Diário Russo”

Fotografia de Robert Capa presente em “Um Diário Russo” que retrata uma criança ucraniana numa das duas aldeias de Chevchenko visitadas por ele e por Steinbeck

“Na Patagónia”Bruce Chatwin

Capa do livro “Na Patagónia” de Bruce Chatwin

Escrito pelo aventureiro Bruce Chatwin, este livro fala-nos não só de uma viagem à Patagónia, como também de um pouco da história desta região sul americana.

Durante a sua infância, o autor tinha um fascínio enorme por um suposto pedaço de pele de “brontossauro” descoberto por Charley Milward, um primo seu, capitão de um navio que se afundou à entrada do Estreito de Magalhães, que se encontrava exposto na sala de jantar da sua avó. Sendo um apaixonado por geografia e vindo a descobrir mais tarde que o pedaço de “brontossauro” pertencia afinal a uma preguiça gigante oriunda da Patagónia, Chatwin não descansou até viajar para esta área do globo.

Em Novembro de 1974, voou para Lima, no Peru, e um mês mais tarde chegou à Patagónia. Percorreu uma longa distância, desde La Plata, no centro norte da Argentina, até Ushuaia, a cidade mais a sul do mundo, passando por locais como Bahía Blanca, Puerto Madryn, a aldeia de Gaimán, Trevelín, Las Pampas, Río Pico, o lago Kami, Punta Arenas e Puerto Natales.

Ao longo da sua viagem, Chatwin conheceu diversas personagens singulares, desde o fazendeiro Sonny Uruhart, o Príncipe Philippe da Auracânia e Patagónia, o nervoso pianista Anselmo, as famílias Powell e Davies, Milton Evans – filho do fundador de Trevelín -, o velho Anton Hahn, o padre Manuel Palacios, o lituano Casimir Slapelič, um cozinheiro com um cancro em estado terminal e o jovem Paco Ruiz, que tratava o carro como se fosse a sua mulher.

À medida que a obra avança, temos também alguns vislumbres de aventuras passadas na região (prévias à estadia de Chatwin), nomeadamente vividas pelo já referido Charley Milward e por criminosos como Butch Cassidy, Sundace Kid e Simón Radowitzky.

“Um decrépito camião vermelho da marca Mercedes entrou no acampamento às oito da manhã e o motorista parou para tomar café. Dirigia-se para Lago Posadas com um carregamento de tijolos e levou-me com ele. Paco Ruiz tinha dezoito anos. Era um belo rapaz com uma magnífica dentadura branca e inocentes olhos castanhos. A barba e a boina ajudavam-na a cultivar o estilo Che Guevara. Começava a criar barriga de cerveja e destetava andar a pé”

– Excerto de “Na Patagónia”

A obra conquistou os prémios Hawthornden e E.M. Forster.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do Desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Beatriz Gouveia Santos

Editado por: Joana Horta Lopes

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