Pelo sim, pelo não

“Do you guys remember that moment when you were about 11 years old and your parents sat you down with this strange sharp object and taught you how to scrape it all over your body?”. É assim que Laura Briggs inicia o seu TEDx. E é assim que eu inicio o artigo de hoje.

A minha história, no entanto, é bem diferente. Foi ainda na escola primária – o ano não sei exatamente qual – que me comecei a sentir constrangida com os meus pelos. Não só com os das pernas como com os púbicos também. Quando ainda não os tinha e via outras mulheres invejava-as porque, no fundo, era um sinal de maturidade, de “ser adulta”. Quando finalmente me cresceram, e vieram mais cedo do que o comum, era gozada e as meninas da minha escola falavam de mim. Olhando para trás, foi, provavelmente, a primeira vez que me senti mal no meu próprio corpo. Foi também aqui que a minha mãe me introduziu não à gillette, mas sim ao creme depilatório. Para mim foi equivalente à descoberta do fogo.

Desde então, a depilação tem vindo a fazer parte da minha vida, quer seja com o creme depilatório, com lâmina, com cera quente ou com laser. Ainda assim, durante muitos anos eu não gostava de usar calções ou saia sem ter collants que me escondessem as pernas – porque a minha mãe não me deixava fazer a depilação nas coxas – , não gostava que me tocassem nas pernas com medo que pudessem sentir os pelos a crescer, nem gostava de apanhar o cabelo, pois poderiam ver as minhas patilhas. E, confesso, ainda hoje tenho grandes complexos com pelos, especialmente com os que mencionei por último, todavia a verdade é que sou naturalmente peluda.

Sair de casa sem a depilação minimamente feita – o que para mim significa buço, pernas e axilas – , estava fora de questão. Nem nunca imaginei que pudesse haver uma alternativa. Nem eu, nem as restantes mulheres do mundo, pois, de acordo com Briggs, a mulher americana passa, em média, 2 meses da sua vida a depilar-se, já para não falar nos custos e no sofrimento. Eu sou só mais uma que já se rendeu à depilação a laser, na esperança desesperada de me ver livre para sempre desta “vergonha”. Porém, sinto-me hipócrita e uma fraude, sendo que sou a primeira a dizer que as mulheres não têm, nem se devem depilar por ninguém. Então, comecemos por falar do porquê nos depilarmos.

A lâmina de mulher apareceu em 1915 com a Gillette. Com o tempo, a publicidade começou cada vez mais a pressionar a mulher a fazer a depilação, com o argumento de que ter pelo estava fora de moda e que para usar vestidos, saias e blusas sem mangas era necessário ter pernas e axilas lisas e macias, usando mesmo a expressão “smoothing”, em vez de “shaving” para passar uma ideia de feminidade. Até as famosas Pinups contribuíram para a generalização desta prática, por serem o epítome de beleza, passando-se a associar a ausência de pelo como algo atraente e desejável aos olhos do homem. Nem mesmo durante os racionamentos da Guerra, onde, devido à necessidade de nylon e de seda para criar paraquedas e uniformes e à consequente ausência de collants, as mulheres se viram livres desta norma, sendo que surgiu mesmo maquilhagem destinada às pernas. Todos estes anúncios estavam a alertar a mulher para um “problema” que nem elas sabiam que tinham.

 

 

 

 

A ideia geral que se tem acerca de não fazer a depilação é de algo sujo, que traz mau odor, no entanto, temos vários estudos que comprovam o contrário. Além disso, se é assim tão mais higiénico, porque é que os homens não o fazem também? Na verdade, a depilação serve também como uma forma de manipulação, uma forma de dividir a população em “masculino” e “feminino”, a mesma manipulação que impede os homens de dançar Ballet e as mulheres de jogar futebol. Esta binariedade tem consequências para quem sai da norma.

Embora outrora o estigma fosse perpetuado pela publicidade, pelo constrangimento social e pela sexualização do corpo feminino, hoje é reforçado através da indústria pornográfica e dos media, mas grande parte da culpa também é nossa. Então o que quer isto dizer?

Não, não temos de largar todos, hoje e agora, as esteticistas, as clínicas do pelo e as gillettes. Temos sim de perceber porque não o fazemos e livrarmo-nos deste hábito opressivo que perdura há mais de 100 anos. Porque a remoção do pelo não é necessária, nem normal.

Como falar é fácil, sintam-se à vontade para ver as sugestões de contas de Instagram a seguir que possam servir como inspiração na galeria que se segue abaixo.

 

 

 

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Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Escrito por: Júlia Varela

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