A outra faceta do Erasmus+

Ainda nem chegaram à universidade, mas já todos ouviram falar do Erasmus. Passar um semestre a estudar no estrangeiro. Viagens, festas, conhecer novos países e novas caras. Contudo, o Erasmus é muito mais do que as pessoas pensam, mas, pela falta de informação e de acesso, torna-se complicado descobrir projetos Erasmus+ alternativos.

O Erasmus vai muito além da universidade, havendo participantes dos 13 aos 30 anos. Falo então do Erasmus “Juventude em Ação”, que se trata de atividades ligadas à aprendizagem não formal e informal. São intercâmbios de jovens de vários países que se encontram, vivem e trabalham em conjunto em projetos de curta duração. A avaliação desta educação encontra vários limites, sendo que é complicado medir quantitativamente as ditas soft skills, como a capacidade de ligação interpessoal, gestão e trabalho em equipa, multiculturalidade, gestão de conflitos, planeamento, comunicação, entre outros, sendo o maior destaque deste tipo de educação o facto dos próprios participantes construírem o seu conhecimento. Em suma, a educação não formal serve de complemento à formal.

Estes projetos duram de 5 a 21 dias e são financiados pela União Europeia, cobrindo a viagem, alimentação e a estadia. Passando à inscrição, regra geral, não se aceitam candidaturas individuais, isto é, devem ser feitas a partir de uma organização. As candidaturas consistem em inquéritos online, em inglês, onde são colocadas questões relacionadas com o tema do programa, bem como o porquê do teu interesse e se já tens alguma experiência no campo. Esse mesmo tema vai mudando de Erasmus para Erasmus, podendo escolheres aquele que mais te interessa.

Em 2018, participei no Erasmus No Hate Bootcamp, direcionado para a educação de Direitos Humanos e para ações contra o discurso de ódio. O programa durou 2 semanas: a primeira em Bruxelas, Bélgica, de 17 a 24 de julho; a segunda em Tbilisi, Geórgia, de 1 a 7 de outubro. Começou com jogos de comunicação, de equipa e de confiança, e logo seguiu com vários exercícios e várias etapas de trabalho, desta vez já mais direcionados para o tema, onde tivemos também a oportunidade de visitar o Parlamento Europeu e os escritórios da campanha No Hate. No final, este projeto trouxe imensas iniciativas por parte dos participantes, que tiveram como objetivo a consciencialização sobre os tópicos debatidos, desde podcasts a flashmobs.

Além da experiência enriquecedora que foi, tive a oportunidade de conhecer inúmeras caras oriundas de todo o lado. Para mim, falar acerca de tolerância e de multiculturalismo dentro de uma sala não tem tanto significado nem impacto quanto ouvir da boca das próprias pessoas as suas histórias. Ouvir a história de um refugiado da Síria pessoalmente, presenciar a discriminação que os muçulmanos sentem enquanto andei com eles pelas ruas trouxe-me estes problemas para perto de casa e deixou-me desarmada.

Estas duas semanas fizeram-me relembrar que a tolerância e o amor ainda não são conceitos universalmente compreendidos. Claro que sabemos que há casos de xenofobia, de machismo, de homofobia e de todos os males existentes no mundo, mas são raros e estão bem longe daqui, pensamos nós. Ter estado num sítio onde usar uma mera t-shirt com a bandeira Gay Pride é uma grande afirmação política, que pode dar lugar a conflitos, ter estado num sítio onde é aceitável as pessoas circularem com uma suástica fez me relembrar porque lutamos pela igualdade e pela paz.

Todavia, não se preocupem, porque também vão passar momentos divertidos. Se forem tão empenhados como eu, aprendem logo que não é preciso apanhar dois autocarros e perder 2 horas de viagem para ir dar ao meio de nenhures, porque, com certeza, não estão no caminho certo; aprendem que não devem, em circunstância alguma, entrar num parque depois das 19h00m, mesmo que esteja de portões abertos, porque está fechado e o segurança vai tirar-vos os cartões de identificação e chamar a polícia; aprendem a dizer “Tenho uma infeção urinária.” em georgiano logo no dia de chegada; e aprendem a não ser preguiçosos e a preferir subir 13 andares de um prédio, sob pena de ficarem presos no elevador, às escuras, durante 5 minutos. O que fiz nesses ditos 5 minutos? Ri para não chorar, literalmente.

No entanto, qual seria a piada se tudo corresse bem? Como podem ver, cheguei sã e salva a casa e com uma história incrível para contar, talvez a minha melhor experiência, até agora. Tão boa, que vou numa segunda aventura em maio, desta vez com destino a Estrasburgo, e não poderia estar mais entusiasmada.

 

 

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Escrito por: Júlia Varela

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