Kendrick Lamar, Damn., Deus e demónios pessoais: A eterna luta do Homem contra o seu pensamento

Há pessoas que perspetivam o mundo de forma diferente. Que o pintam da forma mais simples possível, que, abstendo de todos os problemas e dramas rotineiros, o conseguem ver como deve ser visto. No caso da pessoa em questão, é mais do que isso. Kendrick consegue, na sua genialidade sonora surreal, fazer um retrato do mundo tão igual àquilo que, subconscientemente, pensamos dele.

Muito daquilo que é retratado pelos media, especialmente nos dias que correm, é altamente selecionado. Opiniões, estas que toda a gente se acha intitulada de ter, com ou sem argumentos, e matérias são, cada vez mais, um método de propaganda e difusão de ideologias políticas, onde a tal ideia de pastor que comanda o rebanho de ovelhas é cada vez mais a analogia perfeitamente para descrever o comportamento das pequenas elites em relação às enormes multidões.

Contudo, há, desde sempre, vozes que fazem luz em ambientes mais obscuros. A situação de pré-guerra que se sente, com a M.O.A.B. a atingir a Síria, com a união da Rússia e a China contra a Coreia do Norte, é mais que apropriado a existência de um álbum como este último que Kendrick Lamar lançou. A emergência e o estado de pânico crescente dão uma outra dimensão à arte que transparece nesta obra, pela sua honestidade em descrever o que nos passa pela mente no dia-a-dia, desde as lutas pessoais, essas que todos têm mas ninguém fala, os questionamentos a entidades divinas e, sobretudo, a revolta contra comportamentos políticos sem fundamento, onde minorias, sejam elas raciais, étnicas ou sexuais, são atacadas.

O anterior álbum de Kendrick, o To Pimp a Butterfly, surgiu numa altura em que os comportamentos das autoridades perante a comunidade negra despoletavam revolta nos Estados Unidos (o quão sarcástico este “unidos” se vai tornando) da América, acentuada com a nomeação de Trump para presidente. Num álbum carregado de soul, jazz, funk e blues, Lamar passa uma mensagem positiva, numa tentativa de ir “contra a corrente” em relação ao panorama que se ia criando na altura, com especial destaque para singles absolutamente brilhantes como i e Alright, onde, no caso da primeira, o beat e o foco na importância no amor que temos de ter a nós próprio, é inevitável sentir uma necessidade de sorrir, e, no caso da segunda, o refrão (“We gon’ be alright!”) é tão poderoso que serviu de hino em vários protestos que surgiram desde então.

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Neste álbum, intitulado de Damn., Kendrick Lamar Duckworth mostra um crescimento como artista e pessoa que não tem precedentes. Quando pensávamos que o céu era o limite, ele faz questão de lançar um projeto que não cabe, pela sua complexidade que, quando acostumamos o ouvido, se torna simples, no espaço musical característico dos dias de hoje, mas encaixa, de forma incompreensivelmente perfeita, nos tempos conturbados do presente. Indo ao “miolo” da questão, Kendrick “só” está a fazer o que sempre fez: passar para o papel o que por aquela mente divaga. Desde os tempos de Overly Dedicated e Section 80, onde se intitulava de Kdot, antes da explosão proporcionada por g.o.o.d. kid, m.a.a.d. city, álbum que pôs a questionar se não estaríamos perante um “salvador” do hip-hop, da mesma forma que foi Tupac. Kung Fu Kenny limitou-se a retratar imagens que lhe passavam pela mente, de uma forma progressivamente mais complexa.

No que concerne a componente artística de Damn., podemos contar com uma produção exemplar, como a que tem sido hábito nos álbuns lançados por Kdot, onde constam contribuições como James Blake, Rihanna, Steve Lacy, Mike WiLL Made-It, BADBADNOTGOOD, the Alchemist, DJ Dahi, Sounwave e de Danny Keyz, agora mais conhecido como Bekon. A nível das participações vocais, vemos Rihanna e os U2 a constarem das mesmas.

A faixa Blood tem, na sua complexa mensagem, o esquema temático que nos vai acompanhar neste projeto.

“Is it wickedness?
Is it weakness?
You decide
Are we gonna live or die?”

É percetível uma dualidade, desde já. Numa perspetiva, wickedness remete-nos ao mal e ao pecado, ao orgulho e à exuberância, temática essa que estará presente em vários singles deste álbum (vêm à cabeça DNA, de que vou falar a seguir, e Humble, single de lançamento do álbum, ao pensamento). Na outra, weakness mostra-nos um lado mais fraco e vulnerável, até melancólico, de Kendrick, que está presente em músicas como Love e Feel.

É aqui que este álbum se torna especial. Na conjugação da wickedness com a weakness. Nos motivos, fraquezas, que levam a comportamentos negativos e vice-versa. Aliás, todo o álbum é uma ode à fragilidade da mente humana e de como a escondemos com comportamentos excessivos, desnecessários e, na maior parte das vezes, nocivos aos outros.

“Hello, ma’am, can I be of any assistance? It seems to me that you have lost something. I would like to help you find it.” She replied: “Oh yes, you have lost something. You’ve lost your life.”

O diálogo presente nesta faixa é um representativo da violência cega, explicito quando temos a informação que a mulher é cega, e desnecessária, diria relacionada ao mesmo tipo de violência por parte das autoridades, algo que está muito presente na mente de Kendrick.

Importante, muito importante até, mencionar que a outro é um excerto em que os jornalistas de FOX News criticam e transformam a mensagem principal de Alright numa mensagem de esperança para uma mensagem centralizada no ódio.

De seguida, vem DNA, um hino à wickedness. Um single que grita orgulho, raiva e luxúria. Numa das melhores produções deste álbum, é o ponto de partida perfeito. Um começo voraz que demonstra, aos mais conhecedores, que daí vem um álbum diferente do que foi TPAB (entenda-se To Pimp a Butterfly). Impossível não ficar entusiasmado com a progressão do beat, algo que já nos tinha sido teased como algo característico deste álbum com a faixa lançada antes do álbum, The Heart Part IV. Impressionante é, da mesma forma, aliás como sempre tem sido em Kendrick, a mencionar para aqueles que menos conhecem o artista, a forma como ele navega pelas trocas de ritmo presentes, com um flow estonteante.

“I got, I got, I got, I got
Loyalty, got royalty inside my DNA”

O inicio mostra uma afeição à lealdade, tendo sido mencionado por Kendrick, em várias entrevistas, a importância que o mesmo dava àqueles que estavam lá “desde o dia um”, reforçando a essencialidade de manter esses por perto. A referência à realeza está relacionada a raça negra. Em i, a música termina com Lamar a falar com o público, onde tenta mudar a perspetiva da palavra “nigger”, ao mostrar que esta está relacionada à realeza, mais concretamente, da Etiópia e não à escravidão.

“I got loyalty, got royalty inside my DNA
This is why I say that hip hop has done more damage to young African Americans than racism in recent years
I got loyalty, got royalty inside my DNA
I live a better life, I’m rollin’ several dice, fuck your life
I got loyalty, got royalty inside my DNA
I live a better, fuck your life
5, 4, 3, 2, 1
This is my heritage, all I’m inheritin’
Money and power, the makin’ of marriages”

Está à disposição, de novo, a genialidade de Kung Fu Kenny. Onde ele responde com raiva e orgulho (wickedness), palavras que vou repetir algumas vezes, aos comentários de Geraldo Rivera, da FOX News, representado aqui como weakness, por se mostrar ignorante. A mudança de beat vem depois desta parte, onde, quase como uma explosão, Kendrick “parte para cima” de um beat muito mais agressivo.

O tema FOX News termina com Yah, que começa com o tão aclamado Kid Capri a abrir as hostes a Kdot. É uma faixa com um beat mais calmo, onde reflete sobre a importância e mediatismo que tem, onde, mais uma vez, a família é colocada acima de tudo o resto.

“Interviews wanna know my thoughts and opinions
Fox News wanna use my name for percentage
My latest muse is my niece, she worth livin’
See me on the TV and scream: “That’s Uncle Kendrick!”
Yeah, that’s the business
Somebody tell Geraldo this nigga got some ambition”

A referência é feita, como disse antes, à situação em que Geraldo, de forma a ganhar buzz, algo que é próprio dessa estação televisiva, critica Kendrick Lamar. Quase que como a puxar ao lado sensível dos responsáveis por este tipo de mediatismo, coloca a sua sobrinha no patamar de sua musa, pondo o pedestal, mais uma vez, na sua família, e demonstra uma preocupação evidente em que o tipo de imagem que passam do tio na televisão, não seja semelhante à passada por Geraldo Rivera.

Element, single que foi teased por LeBron James, conhecido fã de Kendrick, tendo sido essencial no lançamento do projeto untitled, unmastered, no Instagram, é mais uma demonstração da paz de espírito em que Kdot se encontra no momento e, mais uma vez, começa com Kid Capri a servir de wingman. Esta faixa é, muito sucintamente, uma viagem que liga os sacrifícios e problemas da sua família e culpabiliza-os da sua posição no topo do mundo do hip-hop.

“Bitch, all my grandmas dead
So ain’t nobody prayin’ for me, I’m on your head, ayy”

Ah, a importância das avós. Falo por mim, como é óbvio, quando digo que me revi totalmente neste excerto. A fé que as avós passam é algo insubstituível e, aqui, Kendrick Lamar mostra-se consciente de que ninguém mais zelava pelo seu bem como a sua avó, sentindo-se mais só sem esse depósito de fé.

“They won’t take me out my element
Nah, take me out my element”

Ninguém o vai tirar do topo. Kdot está, agora, puramente focado na sua arte, tendo conseguido ultrapassar tudo aquilo que o desviava do objetivo.

O desconforto mental de Kendrick torna-se evidente com Feel, onde o tom melancólico do beat encaixa perfeitamente com a voz de fundo, que funciona como um guia sereno e desconfortante, simultaneamente. É uma luta dos sentimentos negativos, maior parte deles devido à fama. É um desabafo acerca do quão sozinho se sente, do quão sufocante é dominar a indústria do rap que está mais “doente” que nunca, e, sobretudo, mostra que, apesar de todo o sucesso e aclamação que tem tido recentemente, sente-se afetado mentalmente, provavelmente, mais do que alguma vez esteve.

A colaboração de maior peso é mesmo Rihanna, no single Loyalty, que junta duas das vozes mais reconhecidas dentro dos seus respetivos géneros musicais e junta numa ode à lealdade. Aliás, mais uma vez, Kendrick dedica espaço musical a esse sentimento. Trata-se de uma música que visa atingir os ouvintes de rádio, pela sua vibe agradável.

Pride e Humble, estas duas faixas mostram o quão detalhado e genial foi o trabalho de produção deste álbum. É assustador o quão bem Kendrick consegue conjugar dois sentimentos contrários e, dentro da sua mente, passar para som a confusão e dilemas associados aos mesmos. Para começar, Pride (orgulho) tem um beat melancólico, fraco e arrastado (a fazer lembrar weakness), quando a mensagem passada no single é de orgulho (wickedness). Estará, certamente, a existir, de novo, uma associação destes dois, onde o orgulho leva a desgastamento e momentos de fraqueza. Em Humble (humildade), o contrário acontece. Precisamente o contrário. Beat estrondoso, mais um de Mike Will Made-it, com um refrão onde, em vez de ser o mesmo a refletir acerca da sua humildade, com algum orgulho até, pede aos seus pares que tenham humildade e que se “sentem”. Um dos melhores do álbum, música exorbitante que fica no ouvido durante horas e horas e, surpreendentemente, nunca cansa. Momento altíssimo do álbum.

“(Hol’ up, bitch) sit down
(Hol’ up lil’ bitch, hol’ up lil’ bitch) be humble”

Com Lust, vem trazer ao pensamento a inevitável presença da lúxuria no ser humano. Desde as classes mais baixas até, obviamente, às mais altas, todos nós temos uma sede incessável pelo que não precisamos. Num beat volátil, Kendrick desfila por todos os sentimentos relacionados e as consequências da procura desse objeto de luxuria, com uma vibe e tensão sexual, especialmente, percetiveis. De forma muito adequada, em enquadramento com o single anterior, falo do próximo, Love. É feito o mesmo jogo feito em Pride Humble, não de forma tão contraditória, mas ainda notável. Lamar faz as questões que têm de ser feitas para saber se o seu relacionamento tem o que é preciso: Amor. Estas perguntas são todas relacionadas com alvos de luxuria, como riqueza, fama, etc., fazendo aqui a contraposição ao single anterior.

Cansativa, incessante, explosiva, direta. Numa variação de beat flow, a faixa XXX é, a par de Humble DNA, um dos pontos mais memoráveis. Foi absolutamente inesperado que esta junção de Kendrick e U2 fosse resultar tão bem. Mas é aí que entra a progressão desta faixa, ao permitir o encaixe da banda convidada num dos momentos mais soulful incluídos dentro da música.

Fear, que faixa brilhante esta. Um dos melhores beats que me lembro de ouvir, que já tinha sido teased ao fazer parte do single The Heart Part IV, Kendrick diambula acerca dos seus medos tendo um timbre de voz cada vez mais pesado. Isto está ligado aos vários tipos de medo que foi sentido ao longo da sua vida, começando pelos sete anos, no primeiro verso, onde retrata o que é viver numa casa consumida por violência doméstica; no segundo verso, com uma idade de dezassete anos, fala do medo de morrer como adolescente e, por fim, no terceiro verso, a fase que passava quando lançou o TPAB, em que tinha pouca confiança em sí e medo de perder tudo o que tinha criado. Não podia deixar passar a parte em que a voz de Kendrick está a passar em reverse, quase a tentar passar a ideia de ser “língua demoniaca”. Se nos dermos ao trabalho de ouvir a música em reverse, percebemos que o mesmo repete a parte introdutória da música. Só mais um pormenor genial. Tinha mesmo de o anotar.

A faixa mais neutra, por não conseguir ver a dualidade que está no álbum inteiro, é God. Talvez o ponto menos memorável, é, apenas e somente, um desabafo do quão bem se sente ao saber tudo o que conquistou.

“This what God feel like, huh, yeah
Laughin’ to the bank like, “A-ha!”, huh, yeah
Flex on swole like, “A-ha!”, huh, yeah
You feel some type of way, then a-ha
Huh, yeah (a-ha-ha, a-ha-ha)”

Uma faixa vangloriosa, onde aproveita para lembrar os seus pares que se acham “Deus”, que não são eles que estão no “comando”.

O projeto termina com Duckworth, apelido legal de Kendrick, onde é contada a história de como Anthony “Top Dawg” Tiffith, dono da Top Dawg Entertainment, a label a que Kdot pertence, conheceu o pai de Kendrick e de como assinou um jovem Kendrick Lamar, que contava apenas com 15 anos de idade. O fim do ciclo que marca este projeto, termina com um rewind, onde se ouve, em reverse, uma breve passagem por todo o álbum que termina com o mesmo a dizer que morre numa troca de tiros, seguido da frase que marca o inicio do projeto “So i was taking a walk the other day.

Não me foi possível colocar por palavras todos os detalhes do álbum. Acredito, até, que seria quase como escrever um livro. É assustador. A sério que é. A quantidade de detalhe colocada neste álbum é, no minimo, surreal. É uma imensidão de pensamentos e de significados que nos invade, quase como sendo sufocante. Consegue representar num álbum todos os detalhes que nos fazem sentir condenados (damned), ao conjugar de todas as formas possíveis, e com a ajuda de uma produção excecional,  tudo aquilo que lhe passa na mente.

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Esta obra ultrapassa tudo o que o próprio fez. Marca, até, uma página nova no género do rap, sendo um ponto de exclamação no que toca à conversa de quem é o melhor rapper da atualidade. Marca, sobretudo, uma posição em relação ao estigma que existe acerca do rap. Não é apenas beats barulhentos com mensagens extravagantes. É muito mais.

Resta agradecer a Kendrick Lamar. A humanização do ser humano é algo muito importante, principalmente nos dias que correm, onde estamos constantemente ligados a redes “fora de nós”. É importante ter alguém que debata os problemas e conflitos que todos nós sentimos e que os ponha em perspetiva com a sociedade que todos nós vemos. Nós somos humanos. Kendrick Lamar também. Um ser humano genial, mas também.

Escrito por: Ricardo Marquês

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