Shein: Expansão de um dos maiores rostos da “Fast-Fashion”

O modelo “fast-fashion”, criado de forma a atender às demandas das vidas aceleradas características das sociedades modernas, e que promove a rapidez da compra e uso da moda, alcançou a dominação global. Com foco nas redes sociais e com um público-alvo jovem, a marca chinesa Shein construiu um nicho no panorama ocidental, ameaçando grandes grupos de “fast-fashion” como a Zara ou H&M sem sequer ter lojas físicas.

Sobre a Marca

Fundada em 2008, a Shein é conhecida por vender online produtos baratos com designs ousados, que renova a uma velocidade vertiginosa, o que lhe permite acompanhar as tendências. Esta vantagem para os consumidores é criticada devido às suas graves consequências, inclusivamente a nível ambiental, e no que toca às condições de trabalho precárias dos seus trabalhadores.

A empresa opera num modelo de negócios sob demanda , em que as peças são lançadas em pequenos lotes, só passando à produção massiva caso obtenham sucesso e se tornem virais. 

As suas estratégias de publicidade centram-se nos media, incluindo parcerias pagas com influenciadores e celebridades, destacando-se os TikTokers da Geração Z, que contribuem para a popularidade e o crescimento da Shein.

A Expansão

Muito embora a sua curta vida, a Shein tem denotado um crescimento massivo nos últimos anos, sendo atualmente uma das mais reconhecidas empresas têxteis do mundo em termos de quota de mercado.

Foi em 2020 que as vendas da Shein apresentaram um maior crescimento, chegando aos US$ 10 bilhões. No ano passado, a Shein ultrapassou a Amazon, tornando-se o aplicativo de compras com mais downloads nos EUA. De acordo com um relatório da Earnest Research, a empresa também se tornou a maior loja de “fast fashion” dos EUA em junho de 2021, superando empresas como H&M, Zara e Forever 21.

Segundo dados do Euromonitor, a Shein passou de uma quota de 0,4% em 2020 para uma quota de 0,7% do mercado da moda da Europa Ocidental em 2021 (igual à da Levi’s) – um crescimento de 75% num ano. A empresa gerou US$ 20,5 bilhões em receita em 2021, segundo a Reuters, sendo a empresa do Top 10 da Europa Ocidental que cresceu ao ritmo mais rápido nesse ano, com uma diferença significativa relativamente às restantes.

Fonte: earnestresearch.com

Atualmente, esta controversa empresa de “fast fashion” foi avaliada em 92 mil milhões de euros, um valor que excede o valor combinado da bolsa de valores da Inditex espanhola, a empresa-mãe da Zara (cerca de 62,8 mil milhões), e da H&M sueca (cerca de 21 mil milhões) (Wall Street Journal).

Fonte: Euromonitor International, Apparel and Footwear Edition 2022

O problema do “Fast Fashion

No entanto, o rápido crescimento da empresa não foi isento de controvérsias. Na última década, a discussão dos problemas do modelo de negócios “fast fashion” tornou-se mais recorrente, muito na sequência das questões ambientais e do consumismo, mas também devido a questões de foro social. Muitas empresas associadas a esta modalidade envolveram-se em polémicas relacionadas com trabalho análogo à escravidão e a pouca ou nenhuma política ambiental, o que provocou danos nos seus negócios. Segundo dados do Business of Fashion, em 2019 o crescimento do grupo Inditex (donos da Zara), foi o menor em cinco anos, e a gigante sueca H&M também apresenta um decréscimo constante desde 2019, segundo dados do Euromonitor. Desde o início da pandemia, o setor de “fast-fashion” na sua generalidade sofreu um decréscimo de 7% (de 44 para 41 bilhões de dólares).

Mesmo assim, desde 2018, a marca Shein conseguiu aumentar as suas receitas em 700%. É impossível não considerar os problemas ambientais e sociais subjacentes ao crescimento desta marca que é já apelidada de “ultrafast-fashion”, com atualizações diárias do site com mais de mil novos modelos. Segundo o Edited, a Shein terá colocado à venda mais de 300 mil novos modelos, do início do ano até hoje, em comparação com 6.849 da Zara e 4.414, do H&M Group.

Impacto ambiental

A velocidade conseguida pela marca é priorizada, frequentemente, em detrimento da qualidade e durabilidade dessas peças, cuja vida útil é tendencialmente inferior, decorrente do uso de materiais de pior qualidade e, muitas vezes, de tecidos sintéticos, que libertam microplásticos durante a lavagem. Os seus modelos que seguem tendências pouco duradouras contribuem para o problema do desperdício e do lixo têxtil, já que são rapidamente consideradas datadas e descartadas, contribuindo para o aumento de lixeiras têxteis.

MARTIN BERNETTI / AFP / Getty Images

Impacto social

A transparência quase inexistente da marca, conduz ao desconhecimento relativamente ao funcionamento da sua cadeia produtiva, combatido por especulações e investigações de jornais e agências noticiosas como a Reuters.

Em novembro de 2021 foi publicado um relatório com alguns factos chocantes acerca da cultura de trabalho nas fábricas chinesas da Shein, que relatava que, em seis locais em Guangzhou, vários funcionários trabalhavam 75 horas por semana (ONG Public Eye). No estudo, os trabalhadores entrevistados realizavam três turnos por dia tendo, muitas vezes, apenas um dia de folga por mês. Estas condições violam as leis trabalhistas locais da China, que estabelecem oito horas como limite máximo de trabalho diário, ou seja, 40 horas de trabalho semanal.

Fotografia de @PANOSPICTURES/PUBLICEYE

O modelo “pago por peça”, ou “taxa de pagamento por peça” adotado pela Shein significa que o pagamento dos trabalhadores é baseado no número de peças de vestuário que estes completam, recebendo como taxa de pagamento a quantia específica associada às peças por eles fabricadas.

Embora este sistema encoraje muitos fabricantes a trabalhar longas horas (de forma a obter maior lucro), a rejeição de peças classificadas com problemas de qualidade e a instabilidade da disponibilidade de trabalho, põem em risco o pagamento adequado destes trabalhadores.

Em fevereiro de 2022, a Shein divulgou o seu primeiro Relatório de Sustentabilidade e Impacto Social de 2021 , de forma a responder a reclamações de transparência . Este revelou que 83% de 700 fornecedores tinham pelo menos um risco relevante, 12% tinham violações graves que ameaçavam o encerramento e quase um terço não estava preparado para um incêndio. A mão de obra menor de idade foi encontrada em menos de 1% dos cerca de 700 fornecedores onde as auditorias foram realizadas.

Além do impacto ambiental e da exploração fabril associadas ao “fast-fashion”, a Shein foi também acusada de roubar designs de outras marcas.

Por todas estas razões, o crescimento vertiginoso desta marca não é considerado uma boa notícia, já que promove a produção e o consumo exacerbado, o que contaria todas as preocupações ambientais, sociais e éticas que têm vindo a assumir cada vez maior relevância no panorama atual.  

Escrito por: Ana Rita Conceição

Editado por: Rita Tavares

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