Novo recorde no valor das habitações e o que podemos aprender com isso

INE publica inquérito à avaliação bancária na habitação e valor fixa-se em 1,272 euros por metro quadrado. Aumento é de 11,2% em relação à mesma época de 2020.

Vista de Lisboa (Getty Images)

Foi divulgado na última terça feira, dia 28, o inquérito realizado pelo Instituto Nacional de Estatística referente ao mês de novembro que concluiu que o valor mediano de avaliação bancária realizado no âmbito de pedidos de crédito para a aquisição de habitação em Portugal foi de 1.272 euros por metro quadrado, 11.2% a mais se comparado com a mesma época no ano anterior. A região mais impactada é a capital, Lisboa.

O mercado imobiliário de Portugal é agora o que os analistas consideram um dos mais “dinâmicos” da Europa. Contudo, devemos fazer um balanço e começar a análise em meados de 2008 com a crise da dívida pública europeia. Com medidas a serem tomadas com o intuito de salvar a economia nacional, o país viu-se obrigado a desregulamentar algumas das suas políticas para atrair o investimento de capital estrangeiro. Foram implementadas condições como a introdução de um programa de vistos gold, com o objetivo de oferecer autorizações de residência em troca de aquisições imobiliárias no valor igual ou superior a 500.000 euros; e foi ainda facilitado um estilo de residência não habitual separado que deu aos cidadãos estrangeiros que passaram metade do ano em Portugal uma isenção fiscal de 10 anos sobre os rendimentos obtidos noutros locais. Foram comprados 10.000 vistos gold no total, em troca de um investimento médio de 5 mil milhões de euros que, consequentemente, ajudou o país a escapar dos piores efeitos da crise financeira que assolou parte da Europa.

O turismo e a imagem do país também se encontra em constante expansão e crescimento internacional, o que atrai os olhos de criadores e especuladores do mercado financeiro que querem investir em solo português. Deste ponto de vista podemos apontar a criação de empregos como fator positivo, mas não podemos esquecer que, ao transformar o alojamento da capital em bens geradores de riqueza, o esquema tem sido “desastroso” para muitas pessoas que viram os preços das habitações subirem drasticamente e a rede de segurança dos inquilinos cada vez menos segura, gerando em alguns casos o que chamamos de gentrificação.

À medida que o interesse proveniente do estrangeiro começou a crescer, a procura ultrapassou a oferta, empurrando os preços para cima e empurrando as pessoas para fora. Lisboa teve um número elevado de casas vagas até cerca de 2010. Os dados indicam que pelo menos um terço dos edifícios no centro histórico encontravam-se vazios e muitos estavam em estado de degradação, criando assim uma oportunidade de ouro para os investidores que renovaram os prédios antigos, provando o potencial do mercado de aluguéis por estadias curtas. Com tudo agilizado num curto período de tempo, converteram-se assim um terço das casas do centro histórico em espaços utilizados para arrendamentos estilo Airbnb, remodelando assim muitos dos aspectos económicos e socioculturais dos moradores locais.

Atualmente, o mercado imobiliário de luxo de Portugal não está apenas a desafiar a pandemia, está também a prosperar. Segundo o banco de dados português Confidencial Imobiliário, o investimento estrangeiro representou 40% do investimento imobiliário de Lisboa em 2020, enquanto o relatório de riqueza da Knight Frank 2021 coloca Lisboa entre as poucas cidades do mundo onde o segmento de luxo quase não foi tocado pela incerteza da Covid, com os preços a subirem 4%. Em contrapartida, a média de preço no arrendamento de uma casa para uma família em Lisboa oscila entre os 700-900 euros mensais, a depender do distrito, podendo chegar a 950 euros na cidade, o que contrasta profunda e negativamente se comparado ao salário mínimo nacional, fixado em 665 euros mensais.

Muitas são as pessoas afetadas diariamente pela constante especulação imobiliária, esta que, por sua vez, se renova em preços cada vez mais altos e inacessíveis, criando um cenário incerto em que poucos são os cidadãos que conseguem viver com amplo conforto e sem preocupações. Um fator que contribui para a compreensão dessas inequalidades é a incapacidade do ordenado mínimo acompanhar o aumento constante nos preços. Ou seja, enquanto os investimentos internacionais são feitos e a qualidade de vida do português e do imigrante que aqui vivem é modificada por influências exteriores, o Estado não é capaz de atualizar os salários com a mesma agilidade e rapidez que o setor imobiliário internacional se (re)inventa. E se o setor financeiro investe, ele certamente cobrará.

Sabe mais sobre o assunto no artigo do jornal The Guardian (ING). Clica aqui.

Escrito por: Evelyn Santos

Editado por: Rita Tavares

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