Exercício semiológico – o significado por detrás dos nomes das personagens de La Casa de Papel

O último lote de episódios da série estreará no proximo dia 3 de dezembro.

Fonte: TecMundo

La Casa de Papel está a chegar ao fim. A série chegou aos ecrãs no ano de 2017 e, desde então, tem tido um enorme sucesso internacional. Criada por Álex Pina e em termos muito resumidos, retrata a história de dois assaltos feitos por um grupo de indivíduos marginais, primeiro à Casa da Moeda espanhola e depois ao Banco de Espanha.

Uma das características mais curiosas da trama é o facto de todos os assaltantes se identificarem por nomes de cidades. As suas personagens têm nomes reais como “Silene Oliveira” (Tóquio), “Andrés de Fonollosa” (Berlim) ou “Aníbal Cortés” (Rio), no entanto, estes raramente são referidos ao longo da ação. Na narrativa da série, a decisão de nomear os fora-da-lei com nomes de cidades ocorreu depois de El Professor (Álvaro Morte), coordenador do assalto, para aqueles que estão mais a leste, indicar que nenhum envolvido deveria revelar a sua verdadeira identidade. Saindo da ficção, em entrevista à Lifestyle Magazine, Álex Pina revelou que sempre quis dar nomes únicos aos protagonistas e que a ideia das cidades surgiu depois de alguém aparecer com uma t-shirt que dizia “Tóquio”.

Porém, as razões para as escolhas específicas dos nomes permanecem um mistério. Neste artigo, procuro desvendar o significado oculto por detrás de cada um deles.

Estocolmo

Fontes: Pinterest, Viagem e Turismo


O nome “Estocolmo” (Esther Acebo) só é atribuído a esta personagem depois da segunda temporada, quando passa a integrar o bando de ladrões. Até lá, é conhecida como Mónica Gatzambide, uma das pessoas que foram feitas reféns durante o assalto à Casa da Moeda.

Começo por desvendar este nome de código porque é aquele que parece mais óbvio e facilmente interpretável. Provém, certamente, do síndrome de Estocolmo, uma condição psicológica na qual as vítimas de sequestro ou abuso desenvolvem sentimentos de empatia ou até mesmo de amor para com os seus agressores.
Durante o assalto à Casa da Moeda, Berlim (Pedro Alonso) ordena a Denver (Jaime Lorente) que mate Mónica. Este, todavia, não o faz, dando-lhe um tiro na perna para simular o assassinato e escondendo-a num dos cofres do edifício.

Os dois acabam por se apaixonar um pelo outro e, mais tarde, casam. Mónica desenvolveu síndrome do Estocolmo.

Berlim (Berlín)

Fontes: F5 Folha UOL, Vou na Janela


Berlim é o membro do grupo que assume o controlo durante o assalto à Casa da Moeda. É um personagem arrogante, com pouca empatia pelos outros, que procura sempre a eficácia – tal como os alemães são percecionados, talvez injustamente.

No centro da Europa, a cidade foi a capital da Prússia, do Império Alemão e do Terceiro Reich e hoje em dia é um dos maiores e mais influentes centros urbanos da Europa. Transpondo estas características para um ser humano, entendemos o porquê do irmão de El Professor ser codificado com esta alcunha. Todo o segundo assalto gira em torno de um sonho de Berlim. Já o primeiro é por ele liderado e só tem sucesso devido ao seu sacrifício (com a própria vida).

Tóquio

Fontes: Blog da Piuka, Europosters.pt


Tóquio (Úrsula Corberó) é a narradora da série e uma das protagonistas. É uma mulher vistosa, impulsiva, caótica e, por vezes, inconsequente.

A capital japonesa, por sua vez, é extremamente ilumindada por néons, ao que podemos associar a “luz” pessoal da personagem, e igualmente caótica – o cérebro de Tóquio, a assaltante, pode ser comparado ao caos de Tóquio, a cidade.

Quanto a questões estereotípicas, não me parece haver relação entre a personagem e o povo japonês, já que este é visto como altamente disciplinado (mas também pode tratar-se de uma antítese intencional!).

Lisboa

Fontes: Purebreak, Collegiate


Lisboa (Itziar Ituño) só adquire o seu nickname na Parte 3 da série, pois nas duas primeiras é apenas a inspetora Raquel Murillo, a autoridade responsável por tentar desmantelar todo o assalto à Casa da Moeda. Contudo, tal como Estocolmo, passa a integrar o bando de assaltantes depois de se apaixonar – neste caso por El Professor. Associo esta rivalidade inicial que depois se tornou cooperação, à história das relações entre Portugal e Espanha.

Historicamente, Portugal e Espanha tiveram várias desavenças e estados de conflito, o mais culminante relacionado com a Restauração da Independência – cujo feriado se celebra no próximo dia 1 de dezembro – em 1640, ano no qual Portugal se libertou de 60 anos de domínio espanhol. Porém, na era contemporânea, têm trabalhado em colaboração, assinando o Tratado de Amizade e Cooperação em 1977 e renovando-o em outubro deste ano. Entraram, também, simultaneamente na União Europeia (então CEE), no ano de 1986.

O mesmo aconteceu com Lisboa e a equipa de El Professor.

Rio

Fontes: R7 Entretenimento, Tripadvisor


Penso que, se a atribuição do nome “Rio” a esta personagem tiver algum significado mais profundo, isso relacionar-se-á apenas com a sua personalidade.

A personagem Rio (Miguel Herrán) é um hacker, o que não me parece associar-se, de maneira nenhuma, à cidade do Rio de Janeiro, ao Brasil ou aos brasileiros.
Mas se a ocupação deste assaltante nada tem a ver com a Cidade Maravilhosa, a sua personalidade terá.

Rio é um jovem sorridente, espirituoso, desajeitado e com sentido de humor, características inerentes ao estereótipo do brasileiro comum. Além disso, é revelado que gosta de dançar, e o Rio de Janeiro é conhecido também pelo amor à dança, mais precisamente ao samba.

Helsínquia (Helsinki) e Oslo

Fontes: Pinterest, Viator, Europass Teacher Academy


Helsínquia (Darko Peric) e Oslo (Roberto García) são dois primos originários da Sérvia. Logo o facto de serem familiares, pode ser um dos motivos para terem nomes de capitais de países fronteiriços – a Noruega e a Finlândia.

No início da trama, são retratados como pessoas de poucas palavras, o que considero ir ao encontro do estereótipo que os povos estrangeiros têm, muitas vezes, dos finlandeses e dos noruegueses – ao contrário dos mediterrânicos, os escandinavos são vistos como indivíduos distantes e introvertidos.

Em termos de aspeto físico Oslo e Helsínquia também se identificam, de alguma forma, com as duas cidades que lhes dão nome. Representados como homens durões e intimidantes, lembram a arquitetura das capitais escandinavas, sombria e imponente. Porém, ao longo das temporadas, vamo-nos apercebendo de que o seu interior não é tão rude como o seu exterior. O próprio Helsínquia é descrito como um “ursinho fofinho” por Nairobi (Alba Flores), que se virá a apaixonar por ele.

Moscovo (Moscú)

Fontes: Jardim dos Livros, Archtrends Portobello


Moscovo (Paco Tous) é o pai de Denver e associo logo a relação pai-filho entre os dois que é demonstrada ao longo da série com o nome de código que lhe é atribuído.

Apesar de haver outros pais na série, Moscovo é aquele que assume mais este papel.
Moscovo, a cidade, é a capital da Rússia, país no qual eclodiu, em 1917, a Revolução Bolchevique, inspirada pelos ideais marxistas. De 1922 a 1991 foi a capital da União Soviética, estado que, durante a Guerra Fria, tinha um poder incondicional sobre a metade socialista do mundo, quase que assumindo o papel de figura paternal – os restantes países de orientação socialista seguiam o seu exemplo e, de um modo geral, obedeciam-lhe.

Para além disto, a ideologia base da Revolução Bolchevique tinha como bandeira a libertação das classes operárias, classe esta da qual a personagem é originária – foi mineiro durante muitos anos.

Palermo

Fontes: Exame, Arteeblog


Se “La Casa de Papel” fosse uma série portuguesa, eu não hesitaria em dizer que o nickname “Palermo” (Rodrigo de la Serna) se relaciona com a palavra “palerma”.

O personagem surgiu, pela primeira vez, na terceira parte da trama e é retratado como alguém egoísta, machista, prepotente e cruel. Várias das suas intervenções podem provocar nos espetadores a vontade de lhe chamar “palerma”. Mas a palavra não existe em Castelhano.

Palermo é a capital da Sicília, região autónoma italiana. Contudo, ao contrário de Berlim, não é a capital do seu país.

No assalto ao Banco de Espanha, Palermo vem ocupar o lugar de Berlim, por quem esteve vários anos apaixonado, mas é apenas um substituto. Procura comportar-se como Berlim, mas é apenas um seguidor. Procura realizar o sonho de Berlim, mas o sonho não é seu.

No fundo, Palermo, o indivíduo, é como uma capital de região autónoma, que ambiciona ser uma capital nacional.

Manila

Fontes: Ojogo, Melhores Destinos


Manila (Belén Cuesta) aparece pela primeira vez na terceira parte de La Casa de Papel mas só é revelado que está do lado de El Professor na quarta. É uma infiltrada, que se confunde com os reféns no assalto ao Banco de Espanha.

Já Manila, a cidade, é a capital das Filipinas. As Filipinas pertenceram ao Império Espanhol de 1565 a 1898, sendo uma província espanhola localizada no sudeste asiático (hoje em dia o tagalog, língua oficial, importa muitos aspetos do castelhano). À sua volta existem várias regiões pertencentes a outros países – tal como Manila pertence ao grupo de assaltantes, mas tem à sua volta um grupo de reféns, que não partilham os seus interesses e objetivos.

Descodifiquei, segundo a minha interpretação, os nomes de dez dos assaltantes, mas faltam mais quatro – Nairobi, Denver, Bogotá (Hovik Keuchkerian) e Marselha (Luka Peros). Infelizmente, não consegui encontrar nenhum significado com sentido para estes nomes.

Fontes: Twitter, Market Research Telecast


Naioribi, capital do Quénia, batiza uma mulher valente e determinada, que tem um histórico de falsificações e tráfico de droga. Denver, capital do estado norte americano do Colorado, é a inspiração para o nome do filho de Moscovo, um jovem temperamental mas brincalhão com um riso contagiante. Bogotá, capital colombiana, é o nickname de um homem de meia idade que fica responsável pela fundição do outro do banco de Espanha. Já Marselha, cidade do sul de França, nomeia um homem calado que ajuda os assaltantes fora do local de assalto. Temos ainda Cincinatti, filho de dois anos de Estocolmo e Denver, homónimo de uma cidade no Ohio.

Ficarão sujeitos à imaginação do leitor os motivos por detrás destas escolhas!

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Beatriz Gouveia Santos

Editado por: Joana Horta Lopes

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