A classe política será sempre aquilo que fizermos dela

No artigo desta semana, até porque caminhamos a passos largos para as legislativas de 30 de janeiro, achei pertinente falar um pouco sobre a cada vez maior descrença da nossa população relativamente à classe política. Esta descrença é bastante negativa para a democracia, e em concreto para uma democracia que se quer tão sólida quanto possível, e manifesta-se, de entre muitas formas, através, por exemplo, da degradação do nível de exigência e/ou da capacidade de escrutínio por parte da sociedade civil perante os principais atores políticos.

Cada vez que nos aproximamos de umas eleições, e neste caso recorro novamente ao caso das legislativas, o tema da abstenção é sempre levantado de forma estratégica por parte dos principais intervenientes. A questão é abordada quase como que obedecendo a uma certa etiqueta, onde se revelam altamente preocupados com o escalar deste fenómeno. No entanto, esse é um discurso que já nada diz a grande parte da população uma vez que, findadas as eleições, todo esse país a que se tentou apelar durante o período de campanha, acaba totalmente esquecido nos quatros anos subsequentes.

Todo este esquecimento a que parte do país tem estado a ser condenado, e falo muito concretamente de regiões como o interior ou o Alentejo, afasta as pessoas da política. Tal facto tem vindo a contribuir não apenas para o aumento da abstenção em urna (isto é, o simples ato de, de forma voluntária, escolher não votar), mas também para algo bem mais grave do que isso: a falta de espírito crítico e de escrutínio para com os nossos governantes. Este alheamento da política por parte da população é visível nas situações mais rotineiras do nosso dia a dia… Quem de nós nunca entrou num café e ouviu alguém referir-se à elite política como sendo “tudo farinha do mesmo saco”, aludindo assim ao facto de cada um estar na política para servir exclusivamente os seus próprios interesses? Claramente que este sentimento de frustração das pessoas para com a política corrói tudo aquilo que esta deveria ser: um debate positivo de ideias, gerador de consensos, onde a população se veria representada por pessoas democraticamente escolhidas por estas, tendo, como fim último, a melhoria do bem estar/ nível de vida da população enquanto um todo, através da produção de legislação (regulação) ou da definição de políticas públicas, por exemplo.

Por um lado, o descrédito na política e em toda a sua classe, é facilmente comprovado quando comparamos os cada vez maiores níveis de abstenção, com principal destaque para as últimas eleições autárquicas (aumento da abstenção em 1.3%). Parecem-me ser estas o melhor exemplo, não só por serem as mais recentes, mas também por serem aquelas onde previsivelmente a abstenção deveria ser menor, por via de se tratar de uma política de proximidade. Isto é, ao contrário do que acontece numas eleições legislativas, onde muitas das vezes a pessoa não sabe sequer em quem está a votar (apenas vota no partido ou no cabeça de lista com que mais se identifica), nas eleições autárquicas, por norma e com principal foco nas áreas menos populosas do território, há um conhecimento mais aprofundado, até a nível pessoal, não só dos candidatos e das restantes pessoas que compõem as suas listas, mas também das ideias e convicções dos mesmos.

É neste sentido que entramos no subtema que pretendo abordar no meu texto: a exigência e a capacidade de escrutínio. É no âmbito local que o cidadão possui maior capacidade de influência e de intervenção no processo de elaboração das políticas públicas, quanto mais não seja por “exigir” ao presidente da sua junta, entre muitas outras coisas, que este trate de arranjar as estradas visivelmente esburacadas da sua rua, ou que trate do ineficiente processo de recolha de lixo que degrada a via pública e favorece o aparecimento de pragas. 

É minha convicção pessoal que, regra geral, um país será tanto melhor, quanto mais exigente e informada for a sua sociedade civil. Acredito que é necessária a existência cumulativa destes dois fatores uma vez que não basta somente a sociedade civil estar a par dos factos, é também necessário que esta, perante os mesmos, tenha a capacidade de os interpretar e decida tomar uma posição (nas urnas, na pressão civicamente exercida sobre os governantes, etc.).

Portugal padece de uma condição que, per si, fomenta desde logo uma certa postura apática perante aqueles que, à partida, pelas mais diversas razões, possuem mais poder, e neste caso falo concretamente da já referida classe política. Na famosa matriz de Hofstede, de entre os seis indicadores analisados, aquele que nos interessa e mais diretamente se prende com esta questão é, claro está, o indicador “power distance”- distância ao poder. No caso de Portugal, este indicador é bastante elevado, cerca de 63 pontos em 100, algo que no contexto europeu é considerado bastante acima da média. De forma sucinta, o que este indicador nos demonstra é que quanto maior for o seu valor, mais a população de um determinado país aceita as diferenças/ desigualdades entre o membro mais poderoso e o membro menos poderoso de uma determinada instituição. Quer isto dizer que Portugal é tendencialmente um país onde as desigualdades, no que toca à distribuição do poder, são, regra geral, bem aceites. Portanto, e a partir deste ponto é uma extrapolação que me permito fazer, não temos um sentido crítico apurado, na medida em que somos algo inertes quando, por exemplo, vemos algum decisor público abusar do poder que por “nós” lhe foi atribuído.

A hierarquia reveste-se de extrema importância em qualquer país democrático, longe de mim querer insinuar o contrário, o que me parece mais preocupante não é a distância de poder entre o topo e as bases (não deixa de ser um problema) mas sim a falta de escrutínio e de exigência que as bases têm para com o topo da pirâmide. A classe política será sempre aquilo que fizermos dela: ou exigimos desta tanto quanto exigimos daqueles que mais nos são próximos e de quem mais gostamos, ou nos desligamos da mesma e deixamos que esta se torne inevitavelmente em algo banal.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Jorge Sousa

Editado por: Rita Tavares

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