O ensino tem futuro?

Desde o início do século, em Portugal, o número que estudantes inscritos em cursos superiores de educação, tanto em estabelecimentos públicos como em privados, caiu cerca de 70%. Este é um indicador importante para melhor compreender como é que se encontra o sistema de ensino em Portugal, ajudando, também, a compreender o contexto que leva à falta de docentes que se verificam ao longo de sucessivos anos letivos.

Ano após ano, no início do ano letivo, as notícias relacionadas com a falta de professores em vários estabelecimentos de ensino tornam-se frequentes e muitos são os debates sobre os problemas da educação. Segundo o Registo de Alunos Inscritos e Diplomados do Ensino Superior, publicado pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, o número de estudantes inscritos em cursos superiores caiu em 70% nos últimos 20 anos, passando de 51.224 em 2001/2002 para 13.781 verificados no último ano letivo.

Desde o ano letivo 2017/2018 que se verifica uma inversão de tendências no número de inscritos em licenciaturas de formação de professores, aumentando as médias dos cursos e o número de alunos que colocam esta área como primeira opção, contudo, este não é suficiente para se poder afirmar que existe um ressurgimento do interesse dos jovens pelo ensino, não conseguindo, portanto, compensar uma queda de quase duas décadas.

Embora em quatro anos se tenha verificado, segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, um crescimento de 55% do número de inscritos nesta área e, este ano, 92,5% dos estudantes que entraram em licenciaturas de formação de professores terem colocado esta área como primeira opção, continuam, ao longo dos vários anos letivos, a existir vagas por ocupar, ficando apenas 11 dos 21 cursos em educação totalmente preenchidos e existindo mesmo cursos onde não tenha entrado nenhum aluno na primeira fase de acesso ao ensino superior, como o politécnico de Portalegre.

Perante estes indicadores o Jornal Desacordo decidiu colocar um desafio a duas professoras, cada uma delas no seu nível de educação escolar, para que dessem a sua opinião sobre quais as causas que justifiquem o decréscimo dos inscritos em áreas de formação dos professores e que consequências podem vir a ter no sistema educativo português.

Filipa Ponte, professora de Português no ensino secundário da Escola Secundária Sebastião da Gama

Sou a Filipa Ponte e sou professora há 29 anos. Professora porquê? Porque sempre o quis ser, por vocação. Adoro a minha profissão. É de uma riqueza incrível, riqueza ao nível do crescimento individual e pessoal. Costumo dizer aos meus alunos que cresço com eles e é verdade. O convívio com jovens é uma mais-valia, há uma troca de saberes e de experiências. No entanto, atualmente, é raro encontrar um aluno que queira ser professor.  Em primeiro lugar, é uma profissão de extrema exposição pública. Estamos na sala de aula com 30 alunos, mas não só. Há os comentários dos pais, dos explicadores, de toda a sociedade. Permanentemente em julgamento. Muito mau. Ora, se os pais não respeitam os professores, não serão os alunos a fazê-lo. Há, contudo, encarregados de educação impecáveis.

Em segundo, é uma profissão de desgaste, pois não se trata de um trabalho de secretária. Todos os dias, temos uma turma à frente e é necessária muita energia e atenção. As pessoas pensam que é fácil, mas não o é.  Em terceiro lugar, ganha-se pouco- por exemplo, estou avançada na carreira e ganho menos do que ganha a minha filha ganha atualmente, que começou a trabalhar há 4 anos- e não existe uma avaliação justa que distinga os profissionais competentes daqueles que não o são.

Em quarto lugar, não há uma política educativa coerente. Há uma mudança constante e agora a moda é dizer que o trabalho traumatiza os alunos. Porém, continuam a exigir resultados nos exames nacionais e a fazer estudos comparativos, os chamados rankings, comparando o incomparável, um momento de avaliação com anos interiores de trabalho em que estão presentes, nos critérios de avaliação, diferentes parâmetros e pesos a serem avaliados e trabalhados. Em quinto lugar, o desrespeito da sociedade em geral. Se há professores incompetentes, a grande maioria faz um excelente trabalho e a sociedade não sabe distinguir «o trigo do joio»; em sexto lugar, há escolas onde predomina a indisciplina a nível geral.

 Ao escrever tudo isto, até eu tenho vontade de deixar a profissão. Já pensei várias vezes nisso, mas é a vocação que me salva. 

Tudo isto tem fortes consequências, não só no presente como no futuro. Os professores atuais estão muito sobrecarregados, com horas extraordinárias por falta de docentes. O ensino vai ser cada vez menos profissional: vão começar a entrar no sistema pessoas que vão “dar umas aulas” como complemento a uma outra profissão, para terem vantagens económicas. Era assim antigamente e vai voltar a acontecer, o que é muito negativo. Ainda assim, não haverá docentes em número suficiente e, resultante da menor competência dos profissionais desta área, os alunos serão mais prejudicados nas suas aprendizagens.

Enfim, esta reflexão deixa-me triste. Uma vida dedicada com carinho e alma a uma profissão que não é reconhecida e que está «em vias de extinção». No entanto, sem esta profissão nenhuma outra existe.

Rosa Cruz, professora reformada do primeiro ciclo

A justificação à pouca adesão ao curso de professores, é muito simples: é uma profissão muito desgastante, mal compreendida e mal remunerada.  Grande parte dos professores não consegue colocação na sua zona de residência e os custos de alojamento e deslocações são de tal forma elevados que não compensam o investimento profissional dos docentes. Não compensa trabalhar e receber ao fim do mês um salário que não cubra as despesas.

   Para além disso, trabalho do professor é muito mais do que aquilo que se vê na sala de aula. O trabalho que se faz em casa, com os nossos recursos (computador, impressora, energia…) não é pago, a indisciplina dos alunos, apoiada desculpabilizada pelos pais e sociedade é desgastante, os graus de exigência em relação aos currículos são cada vez mais baixos e os alunos saem da escola com competências cada vez menores.  Em suma, embora a nota exigida aos jovens para ingressar nos cursos seja das mais baixas- o que acho mal, devia sero contrário-, não é apelativo ser professor.

 Após os testemunhos das duas professoras, podemos afirmar que é urgente novas políticas educativas em Portugal, políticas essas que protejam e ofereçam mais estabilidade aos docentes, que garantam uma avaliação justa e consequente progresso nas suas carreiras, e que promovam uma valorização do setor na sociedade. A queda do nº de inscritos em cursos de educação é um alerta, não só para o aparente envelhecimento de toda uma classe, mas também para a urgência da integração de novos quadros, pois sem professores qualificados não existe um ensino com qualidade e quem sai prejudicado são os alunos.

Escrito por: Alexandre Silva

Editado por: Inês Conde

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