Ou ganha António Costa, ou não ganha ninguém

Ao contrário daquilo que perspetivei no meu último artigo (‘Noite de gala no Casino de São Bento’), em que referia que a aparente intransigência dos partidos à esquerda do Partido Socialista não passava apenas de um golpe de teatro, na tentativa de estes captarem o seu eleitorado, a verdade é que os mesmos acabaram por não viabilizar o documento do Orçamento do Estado. Era minha convicção de que o alegado braço de ferro entre estes partidos e o Governo tinha, como principal objetivo, demonstrar ao seu eleitorado que estes estariam a fazer tudo o que estava ao seu alcance para verem plasmado, no referido documento, algumas das suas propostas.

Terminada a primeira votação do Orçamento do Estado (e neste caso última, uma vez que não chegou à especialidade), CDU e BE mantiveram a sua intransigência e votaram contra a aprovação do documento. Neste ponto em concreto verifica-se que, de facto, o desfecho que antevia não se concretizou. Não obstante, reitero novamente aquilo que defendi nesse mesmo artigo, sendo o fator mutante neste processo a ousadia por parte dos partidos menores, que sustentam a geringonça em votar negativamente.

A meu ver, penso que esta estratégia de elevada rigidez negocial, quer por parte do BE, quer por parte da CDU, tinha como principal objetivo este cenário de eleições antecipadas. Deste modo, ambos os partidos apresentar-se-iam a eleições com força redobrada e com uma clara perspetiva de poderem aumentar a sua representação parlamentar, por forma a tentarem negociar um Orçamento do Estado ainda mais puxado à esquerda e, portanto, mais conforme os seus ideais.

Do lado do Partido Socialista, nomeadamente por parte do seu secretário-geral e atual primeiro-ministro, António Costa, continua a ser minha convicção que este pretendia passar para o exterior a ideia de que estaria em sobressalto com a não aprovação do Orçamento quando, na verdade, estava bastante sereno. Passo sucintamente a explicar porquê: é que esta situação, do ponto de vista do Partido Socialista, apresenta-se como uma win-win situation. Isto é, aconteça o que acontecer, os socialistas sairão sempre vencedores no final da noite. Se o orçamento for aprovado, o ónus da culpa, no caso de o país mergulhar numa crise ainda mais profunda (ou não conseguir sair daquela em que se encontra), recairá sempre sobre os partidos mais à esquerda que o viabilizaram (talvez por isso não o tenham feito). No caso de o orçamento não ser aprovado, como acabou por acontecer, o Partido Socialista vê-se munido de vários argumentos para conquistar o voto dos portugueses.

Primeiramente, não descartará a possibilidade de vir para a “praça pública” dizer que só a maioria absoluta do Partido Socialista dará a estabilidade de que o país precisa para conseguir “executar devidamente o Plano de Recuperação e Resiliência”. Para tal, apelará com certeza ao voto útil, atribuindo as culpas da não aprovação do documento do Orçamento a BE e CDU. Esse apelo acontecerá certamente sob a justificação de estes não terem colocado o interesse nacional em primeiro lugar tentando, desse modo, esvaziar ao máximo a base eleitoral de ambos os partidos. Por outro lado, a retórica da extrema-direita, que muito interessa ao Partido Socialista, por via de, enquanto esta for significativa, o PSD não conseguir voltar a formar governo, a menos que se alie a estas forças radicais, será com toda a certeza outra das bandeiras de campanha do partido.

Esta intenção de Costa em entrar num cenário de eleições antecipadas, ou pelo menos de em nada o temer, não só me parece corresponder ao verdadeiro sentimento do atual primeiro-ministro, como efetivamente me parece a jogada mais inteligente que este podia fazer ao dia de hoje. Ora vejamos: o seu Governo está altamente desgastado, quanto mais não seja devido às polémicas que envolvem alguns dos seus ministros. Seguindo uma certa naturalidade (que se vem a observar ao longo dos vários ciclos políticos), a partir do momento em que estas debilidades do executivo são tão visíveis, quanto mais tempo durar o seu mandato, mais enfraquecido este sairá no término.

Tendo este “pormaior” em consideração, António Costa saberá com certeza que terá maior probabilidade de conseguir um bom resultado neste cenário de eleições antecipadas, do que daqui a dois anos (altura em que ocorreriam as eleições no seu período normal). Essa realidade tem na sua fundação um conjunto de nuances: por um lado, a direita apresenta-se não só bastante debilitada e dividida; como simultaneamente, o maior partido da oposição, o PSD, encontra-se a discutir internamente quem será o seu próximo líder, pelo que todo o tempo gasto a discutir essa questão, não será discutido a demonstrar ao país de que forma este pode ser uma alternativa credível à atual governação. Para o leitor que se interesse particularmente por desporto, esta situação é muito clara: é mais ou menos como se o PS fosse a eleições com duas semanas de descanso para preparar o encontro, e o PSD se apresentasse a eleições na ressaca de um jogo decorrido há menos de 48 horas e, portanto, sem tempo para estudar o adversário.

A acrescentar a tudo isto, o Partido Socialista ainda tem um trunfo na manga: o aumento do salário mínimo para os setecentos e cinco euros que, como sabemos, em altura de eleições funciona muito bem (se o eleitor se questiona acerca do timing do aumento do salário mínimo, aquilo que posso dizer é que este foi bem mais metodologicamente preparado do que o PRR). De forma sucinta, o aumento do salário mínimo está para as legislativas, como a manutenção de estradas, jardins e parques está para as autárquicas.

Posto isto, parece-me compreensível o otimismo de António Costa perante este cenário de eleições antecipadas. É caso para perguntar, perante esta conjuntura, “quem não estaria?”.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Jorge Sousa

Editado por: Filipe Ribeiro

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