Homossexualidade no futebol: raridade de casos ou receio de não ser aceite?

No passado dia 7 de outubro, um futebolista da Premier League deu uma entrevista ao jornal “The Sun” na qual assumiu a sua homossexualidade. Porém, a sua identidade não foi revelada.

“Faço terapia porque tenho muito medo de ser abusado pelos adeptos. É uma situação terrível. Acho que vou ser crucificado se me assumir publicamente como homossexual. Algumas pessoas agem como se pensassem que ainda estamos em 1980, quando este assunto ainda era tabu.”

Este caso fez-me questionar, mais uma vez, o atraso do futebol masculino face a outras áreas nas quais, hoje em dia, é frequente ver celebridades a assumir abertamente que fazem parte da comunidade LGBT+. Na música (Sam Smith, Elton John, Demi Lovato, Lil Nas X, entre muitos outros), na televisão/cinema (Neil Patrick Harris, Elliot Page, Kristen Stewart), na política (Xavier Bettel, Elio Di Rupo e, em Portugal, Paulo Rangel ou Graça Fonseca) e até noutras modalidades desportivas – incluindo o futebol feminino (Megan Rapinoe, Marta, Abby Wambach) – é bastante comum haver pessoas que não têm qualquer receio de falar da sua orientação sexual não heterossexual, da sua disforia de género ou do facto de se encontrarem num relacionamento com alguém do mesmo sexo.

Contudo, no futebol masculino os casos de jogadores assumidamente LGBT+ contam-se pelos dedos. O jogador mais conhecido a assumir-se publicamente como homossexual foi Thomas Hitzlsperger, futebolista alemão que passou por clubes como o Stuttgart, a Lazio ou o Everton, que só falou do tema depois de já estar aposentado. Existe também o caso de Robbie Rogers, que depois de “sair do armário” jogou apenas nos Estados Unidos, país onde o futebol masculino é uma modalidade com pouca visibilidade.

Não considero que uma celebridade homossexual tenha necessariamente de falar em público sobre a sua sexualidade, visto que é uma questão respeitante à esfera privada de cada um. No entanto, acho curioso que quase não haja nenhum futebolista masculino assumidamente LGBT+. Será porque realmente quase não os há? Ou será que há mais do que pensamos e que não se podem assumir devido ao ambiente homofóbico que prolifera, ainda hoje, no futebol? Reconheço que pode ser, realmente, uma questão de raridade de casos. Porém, não excluo a hipótese de haver mais casos do que se pensa, casos que não veem a luz do dia devido a comportamentos menos propícios por parte dos adeptos. No presente artigo, apresento três razões que podem levar possíveis futebolistas, de orientações sexuais não heterossexuais, a esconder a sua verdadeira sexualidade do público (inclusive o futebolista anónimo referido no início).

O caso Fashanu
O primeiro caso de um futebolista que se assumiu publicamente como homossexual remonta ao ano de 1990 – quando Justin Fashanu, então jogador do Leyton Orient, confessou também ao jornal “The Sun” a sua homossexualidade.

A história não teve um final feliz. Pouco tempo depois da revelação de Fashanu, o seu irmão John, em entrevista ao “Daily Mirror”, afirmou: “Implorei-lhe, ameacei-o, fiz tudo o que pude para o dissuadir da ideia de sair do armário. Dei-lhe dinheiro porque não queria passar vergonhas, nem que a minha família passasse”. Fashanu ficou destroçado com as declarações do irmão.

Para além da família, a comunidade negra – da qual fazia parte – condenou veementemente o ocorrido: “É uma afronta para a nossa comunidade. Foi danoso, patético e imperdoável” – escreveu o jornal negro “The Voice”.

Os adeptos também não aceitaram a homossexualidade de Fashanu, principalmente os das equipas rivais. Para além dos insultos racistas que já sofria, o futebolista foi ainda alvo de inúmeros insultos homofóbicos que contribuíram largamente para o seu crescente mal-estar psicológico.

Em 1998, foi acusado de agressão sexual a um jovem de 17 anos, o que nunca se veio a comprovar. Suicidou-se por enforcamento no dia 3 de maio, deixando uma nota a afirmar que estava inocente e que sentia que nunca teria um julgamento justo por ser homossexual.

Justin Fashanu assumiu-se publicamente como homossexual em 1990.

Má receção a campanhas pró-LGBT+

Desde 2018 que a Premier League (primeira divisão inglesa) promove a campanha “Rainbow Laces” na qual, durante algumas jornadas, os jogadores utilizam atacadores e braçadeiras de capitão com as cores LGBT+. Apesar de, aparentemente, os atletas utilizarem os acessórios sem qualquer objeção, esta decisão não costuma ser bem recebida pelos fãs. Nas redes sociais, como o Twitter e o Instagram, podemos ler comentários homofóbicos como “Isso é nojento e não tem respeito pela natureza humana”, “Isso é hilariantemente errado e mal orientado”, “Deus criou Adão e Eva e não Adão e Steve”, “Mantenham a política fora do futebol”.

A própria UEFA cogitou em punir Manuel Neuer, guarda-redes do Bayern de Munique e da seleção alemã, por utilizar, por vontade própria, uma braçadeira de capitão com as cores da bandeira LGBT+ por estar a promover “um símbolo político”. Embora tenha voltado atrás na decisão e arquivado o processo dizendo que o ato do alemão foi por uma “boa causa”. Tal foi apenas um pequeno passo na luta contra a homofobia no futebol.

A campanha pro-LGBT da Premier League foi mal recebida nas redes sociais
A UEFA cogitou em punir Manuel Neuer por exibir as cores LGBT+ na braçadeira de capitão, mas arquivou o processo.

Comentários efetivamente homofóbicos, mesmo em relação a jogadores heterossexuais
Mesmo quando não homossexuais, pelo menos abertamente, os jogadores de futebol podem sofrer comentários homofóbicos.

Grame Le Saux, antigo futebolista inglês, sofreu abusos homofóbicos mesmo sendo casado com uma mulher e tendo filhos. Os rumores começaram depois de, alegadamente, ter passado férias com o colega de equipa Kevin Monkou. Le Saux foi alvo de comentários anti-LGBT+ por parte de adeptos, de Gwyn Williams, treinador assistente no Chelsea, e de Robbie Fowler, ex-jogador do Liverpool que, durante um jogo, lhe disse: “És casado? O Elton John também era, amigo!”.

Sol Campbell, antigo jogador do Arsenal, também sofreu do mesmo mal, mesmo estando (mais uma vez), num casamento heterossexual e tendo filhos. Campbell recebeu ataques homofóbicos em estádios por diversas vezes, por vezes sendo tão violentos que foi necessário identificar os seus autores. Em 2005, o seu irmão foi preso depois de ter agredido um colega de turma que insinuou que o ex-defesa era gay. Mesmo depois de reformado, Campbell continua a ser vítima de homofobia, sem ser homossexual.
Mais recentemente, temos o caso de Hector Bellerín, jogador do Arsenal, que a certo ponto apagou as suas redes sociais devido aos comentários que recebia.

“É impossível que alguém seja abertamente gay no futebol profissional” – declarou, em conversa com o jornalista Matthew Syed – “Alguns fãs são muito ofensivos. A maior parte dos insultos são online mas outros são no estádio. Chamam-me “lésbica” porque tenho o cabelo comprido e fazem outros insultos homofóbicos. Quando faço algo de errado, a situação torna-se insustentável. Os fãs de futebol têm uma ideia de como um jogador se deve vestir, comportar-se e falar. Se te comportas de uma maneira diferente daquela esperada por eles, tornas-te num alvo. É muita pressão e é algo perigoso, porque devemos ser livres para ser quem somos”.

Num jogo contra o Arsenal em 2014, adeptos do Bayern de Munique exibiram um cartaz com as palavras “Gay Gooners” escritas, como se “gay” se tratasse de um insulto.
Em 2020, Jamie Vardy do Leicester, derrubou, sem querer, num jogo contra o Sheffield United, uma bandeira LGBT+ que se encontrava num dos cantos do campo. Foi aplaudido por muitos adeptos.

Saindo do futebol inglês em 2007, o futebolista brasileiro Richarlyson apresentou queixa do diretor do Palmeiras, José Cyrillo, depois deste ter sugerido que ele era homossexual. O Juiz Manoel Filho dispensou o processo dizendo que o futebol era “um desporto viril e masculino, não gay”.
Em França, o ex-futebolista argentino do Olympique de Marseille, Eduardo Berizzo, descreveu o futebol francês como uma “cambada de paneleiros” que o provocavam e enojavam.

Graeme LeSaux, Sol Campbell, Hector Bellerín e Richarlyson sofreram insultos homofóbicos mesmo não sendo homossexuais.
Jamie Vardy derrubou, sem querer, uma bandeira LGBT+ e foi aplaudido.

Na minha opinião, as três situações que referi podem, sem dúvida, influenciar a decisão de um futebolista homossexual de não se assumir publicamente. O trágico caso de Fashanu, que teve reações adversas não só por parte dos fãs, mas também por parte dos media e da família, a má receção face a campanhas pró-LGBT+ na modalidade e a homofobia sofrida por jogadores que nunca se declararam homossexuais, não são, de todo, um bom cartão de visita para um jogador gay.

O mau comportamento dos adeptos de futebol é bastante comum. Quantas vezes acontecem casos que envolvem a polícia? Quantas vezes ouvimos falar de futebolistas que sofreram abusos étnicos ou raciais? Jadon Sancho, Trent Alexander Arnold e Bukayo Saka tiveram a sua cor de pele “metida ao barulho” depois de terem falhado os pénaltis na final do Euro2020 que deram a derrota à sua seleção, Inglaterra. Mesut Özil viu-se obrigado a deixar a sua seleção devido à xenofobia que recebeu. Romelu Lukaku e Karim Benzema afirmam que é constante serem insultados por conta da sua etnia. Dani Alves e outros jogadores negros ou mestiços tiveram bananas atiradas a si nos estádios. Mario Balotelli, Moussa Marega e um número infindável de outros jogadores, famosos ou não, compõem a longa lista de jogadores não-brancos que foram vítimas de racismo e xenofobia por parte dos adeptos de futebol.

Mas a raça ou a etnia é algo visível, algo que não se pode esconder, algo que, se não estiver presente na aparência, pode estar presente no nome. A orientação sexual, não. Só sabemos, efetivamente, se alguém faz parte da comunidade LGBT+ se a pessoa nos confirmar. Com tanto preconceito no mundo futebolístico é, infelizmente, natural que haja um número muito reduzido de jogadores que são abertamente LGBT+, e que muitos escondam a sua verdadeira sexualidade.

Posto isto, a homossexualidade quase residual no futebol será uma questão de falta de casos ou realmente uma questão de medo?

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Beatriz Gouveia Santos

Editado por: Rita Tavares

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