Catânia: vulcânica e diversa

Poderia começar este artigo sobre a cidade siciliana de Catânia, por dizer que esta é a Nova Iorque da Europa do Sul no que toca à enorme mistura étnico-cultural que aqui se encontra, mas para melhor o entender, é importante recuar aos primórdios deste local.

Entalada entre a famosa “bota” (a Itália continental) e a bacia do Mediterrâneo, a ilha da Sicília foi um território largamente disputado ao longo dos séculos: tendo sido inicialmente parte da Magna Grécia (o antigo Império Grego), passou depois para o domínio dos muçulmanos vindos do norte da vizinha África, até que foi parte integrante do império espanhol – para depois se tornar parte do Reino das Duas Sicílias, que incluía todo o sul de Itália.

Naturalmente que esta história rica e atribulada, tendo o território passado de mão em mão, concedeu à ilha traços étnicos muito particulares, pois aqui é costume ver habitantes turcos, do Norte de África, mas também da África Subsaariana e naturalmente italianos, pelo que não é raro ver um restaurante de comida árabe seguido de um café gerido por italianos e logo ao lado uma loja de souvenirs gerida por uma família da Ásia Meridional.

Catedral de Santa Ágata, padroeira de Catânia. Fonte: Italia.it

A beleza deste lugar não pode nunca ser comparada à beleza mainstream das cidades do norte do país, porque esta é uma beleza diferente, uma beleza de outra génese – é mais rara, pois trata-se da simplicidade e simpatia das suas gentes, a alegria das pessoas e o carinho com que os estrangeiros são recebidos. Uma beleza de alguma forma inesperada por alguém que vem de uma cidade maior que esta e por isso mais impessoal – de notar que Catânia tem cerca de 300 mil habitantes (fonte: ISTAT), o que é pouco quando comparada com Lisboa, por exemplo, que conta com cerca de  500 mil habitantes (fonte: ONU), sendo que a única cidade siciliana que iguala tal volume de pessoas é a capital da ilha, Palermo, com cerca de 600 mil habitantes (fonte: ISTAT).

Com um centro histórico relativamente pequeno, concentrado e por isso confortável de se percorrer a pé, é lá que todas as manhãs se realiza o mercado de peixe, carnes, frutas e legumes, a que os italianos chamam Pescheria, onde se cruzam línguas, pregões e um sem número de etnias diferentes. É provavelmente o sítio mais fervilhante de toda a cidade e ideal para quem procura uma experiência mais autêntica, menos artificial, como tantas vezes se sente quando se visita um país estrangeiro.

La Pescheria, mercado que se realiza diariamente.

Em conversa, tentando definir com que se parece esta cidade em termos de aspeto urbanístico, cheguei a uma conclusão interessante que a descreve na perfeição: Catânia é uma mistura de Lisboa, Miami e Havana. Lisboa representando aqui o seu lado mais europeu com ruas traçadas a régua e esquadro de aspeto barroco, Havana e Miami descrevendo o seu lado mais exótico, quase que africano ou latino, com os jardins dos palácios de fachada amarela pontilhados de palmeiras – também a paisagem contribui para isso, pois quando se crava o olhar no horizonte lá está o mar Jónico, azul em todo o seu esplendor e os dias dividem-se entre solarengos e quentes, nublados e chuvosos sem nunca deixar de estar presente o calor, um vento quente que sopra sem cessar do norte de África.

A história da cidade e das suas gentes está, de forma inevitável, intimamente ligada ao monte Etna, respeitosa montanha respirando no horizonte, cuspindo fogo de tempos a tempos, deixando o céu de Catânia coberto de nuvens e as ruas e as varandas cobertas de cinza com o aspeto de areia preta. É à sombra do vulcão mais ativo da Europa que 300 mil pessoas fazem a sua vida diária, sempre com um olho no horizonte e esperando que não haja uma erupção de proporções dantescas, como a que houve no século XVII, em 1693, que obrigou à reconstrução total do centro da cidade, sendo por isso que ainda hoje todo o centro histórico é em estilo barroco. A rua principal da cidade deve o seu nome precisamente ao vulcão, Via Etnea, onde se situam as lojas de roupa mais caras e os palácios mais exuberantes, sendo bem percetível a dimensão da presença da montanha fumegante na vida dos cataneses.

A cidade dorme sob o Monte Etna. Fonte: SiViaggia

Escrito por: Bernardo de Sottomayor

Editado por: Rafaela Boita

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