Redescobrir Anne Frank em tempos de pandemia

Em tempos de Covid-19 e consequentes períodos de confinamento, recordamos Anne Frank, a adolescente que se viu obrigada a confinar numa época especialmente convulsa da História, tentando assim assegurar a sua sobrevivência, e ensinando-nos o significado da palavra resiliência, atualmente tão importante.

Recentemente fui resgatar da cave uma pilha de livros antigos e entre eles deparei-me com o icónico Diário de Anne Frank, o emotivo relato duma rapariga judia escondida num anexo de Amsterdão durante dois anos na tentativa de escapar ao Holocausto, e inevitavelmente, quase mecanicamente, comecei logo a relê-lo. Digo relê-lo porque este é daqueles livros incontornáveis que li, como qualquer um de nós, no oitavo ano da escola, e que agora “devorei”. É à partida natural que o tenha lido muito mais rapidamente desta vez, dada a idade, mas não o fiz com maior interesse; posso dizer talvez que tenha feito uma leitura mais atenta aos detalhes, e mais consciente.

A jovem Anne Frank. Fonte: Deutsche Welle

Compreendo hoje a adolescente Anne Frank muito melhor do que há uns anos atrás. Digo isto porque agora já o turbilhão de emoções que caracteriza a adolescência acalmou um pouco, pelo que consegui nesta segunda leitura entender o quão profundos, complexos e impressionantemente bem estruturados eram os pensamentos de Anne com apenas 15 anos, o que demonstra claramente que ela é muito mais do que um ícone do século XX e um símbolo de luta e resistência. Era sobretudo uma jovem mulher inteligentíssima, de raciocínio rápido e com uma enorme lucidez sobre tudo o que acontecia à sua volta. O leitor é assim suavemente embalado pelos seus relatos através de reflexões que abordam o feminismo – isto em 1944, não esqueçamos! – e a empatia, no fundo a forma como nos relacionamos com o outro, que é outro tema recorrente na lista de preocupações de Anne.

O manuscrito original d’O Diário. Fonte: nit.pt

A obra é hoje mais atual do que nunca por relatar um período de mais de dois anos de adolescência que Anne passou confinada num minúsculo anexo poeirento e sem luz juntamente com mais setes pessoas. A angústia que a jovem descreve por não poder sair à rua remete-nos de algum modo para a situação de pandemia mundial que nos afeta desde março de 2020. Anne fala dos pensamentos negativos, em loop, quase que esquizofrénicos que o confinamento provoca na mente das pessoas, destacando que ainda é pior no caso dos adolescentes, dada a sua mente ser ainda mais confusa.

Assim, este diário revela-se hoje muito mais do que um conjunto de cartas de guerra, já que a sua leitura é um convite à reflexão sobre tudo aquilo que vivemos atualmente, e é verdadeiramente avassalador pela maneira como Anne Frank descreveu, em plenos anos 40, aquilo que é a nossa angústia de hoje, sejam os leitores miúdos ou graúdos: temos de nos refugiar em casa durante dias e dias para nos protegermos não de um conflito armado, mas dos devastadores efeitos duma guerra biológica como é a pandemia Covid-19.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Bernardo de Sottomayor

Editado por: Inês Conde

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