Saúde em Alerta: a adaptação dos outros setores de saúde em contexto pandémico

Desde março de 2020 que Portugal é afetado pela pandemia Covid-19, arrastando consigo consequências assustadoras. No meio das mortes, número de infeções e níveis de contágio que invadem o sistema de saúde nacional, o que estará a acontecer aos outros setores de saúde no meio desta situação? Vejamos o caso do setor da Fisioterapia, Terapia da Fala e Psicologia.

Muitos cidadãos encontram-se com necessidade de cuidados e atenção por parte de especialistas no recuperar de lesões, traumas ou outros problemas de saúde. De modo a compreendermos melhor a adaptação dos profissionais responsáveis, contamos com a presença de Diogo Santos, fisioterapeuta na Clínica Lusíadas (Sacavém) e Clínica Flexus, de Marta Silva, terapeuta da fala em contexto escolar e clínico, e Carolina Madaíl, psicóloga clínica.

Diogo Santos (fisioterapeuta) | Marta Silva (terapeuta da fala) | Carolina Madaíl (psicóloga)

O vírus ainda é novidade para todos, sendo a adaptação ao mesmo constante e corrente, consoante as informações e diretrizes conhecidas. Como foi a adaptação destes três profissionais de saúde ao aparecimento do vírus?

A fisioterapia envolve muito contacto com o paciente, o que se tornou num desafio no meio do combate à pandemia, mas na perspetiva de Diogo “a adaptação tem sido gradual. A nível da higiene e segurança, havia aspetos que já faziam parte da rotina diária, como a lavagem das mãos regular e desinfeção dos materiais após utilização. No entanto, toda a realidade do uso da máscara, viseira, avental ou bata, pelo menos no meu contexto de trabalho, foram as maiores necessidades e dificuldades de adaptação”.

Também na terapia da fala a “adaptação a este contexto pandémico foi muito difícil”, afirma Marta Silva.  As teleconsultas tornaram-se uma realidade para estes profissionais e “infelizmente, muitas das crianças não puderam continuar a ser acompanhadas”.  A falta de recursos, o envolvimento familiar e as próprias características das crianças obrigaram a “reinventar”, através de “muito material novo que tinha de ser interativo, jogos que fossem deliciosos aos olhos destes miúdos que estavam, neste momento, tão entediados com esta nova rotina”, explica. No segundo confinamento já foi mais fácil, uma vez que se puderam manter as clínicas abertas e maior parte dos utentes usufruir “normalmente” do serviço e acompanhamento. “Deixar apenas a ressalva para o normalmente entre aspas, tendo em conta que o normal ao trabalhar com crianças implica muito contacto físico, como os abraços que eles próprios pedem, e muitas vezes, necessitam. Tudo isto teve de levar um travão, o que causa um certo entrave na relação terapêutica que vimos a construir desde início com os nossos meninos” acrescentou.

A saúde mental tem vindo a ser alvo de destaque, nomeadamente em contexto pandémico. Embora seja, para muitos, tabu e uma ciência pouco conhecida, “tem sido feito um trabalho importante na desmistificação do apoio psicológico e gradualmente vamos abrindo horizontes e desconstruindo barreiras”, afirma a psicóloga Carolina Madail. “O online começou a ter mais espaço, o que permitiu que as pessoas cuidassem da sua saúde mental, mantendo a sua segurança física. Da minha experiência profissional, o online tem vindo a ser um recurso eficaz e importante para quem o experimenta e para a relação terapeuta-paciente”.

Com o confinamento e restrições, a possibilidade de quebra ao recurso de ajuda por parte destes setores de saúde poderia tornar-se uma realidade, mas de uma forma geral conseguiram contornar a situação.  Vejamos os reflexos e especificidades em cada área.

Diogo Santos: Falando daquilo que são os meus contextos de trabalho, o recurso e procura aos serviços de fisioterapia não sofreu um decréscimo muito grande, de uma forma geral. Nos primeiros meses após o 1º confinamento, sentiu-se alguma queda na procura sim, mas gradualmente recuperámos as médias mensais do número de utentes por mês, face ao ano de 2019. Atualmente, as principais oscilações prenderam-se com os meses assustadores de janeiro e fevereiro, em que algumas pessoas optaram por se resguardar e cancelar tratamentos. O aumento da oferta dos serviços online tem-se mostrado uma estratégia válida e benéfica para continuarmos a acompanhar as pessoas.

Marta Silva: Como já disse, na altura do primeiro confinamento houve muitos meninos que não puderam continuar a ser acompanhados. No entanto, a pandemia veio agravar, e muito, o desenvolvimento das crianças. Desde que voltaram às escolas, as educadoras ficaram abismadas com a falta de estimulação, ou mesmo com a regressão das competências linguísticas e articulatórias das crianças. Desde então, tem crescido, e muito, o pedido de avaliações de crianças. Quer seja ao nível do pré-escolar, onde competências básicas linguísticas (vocabulário muito reduzido, frases muito curtas e simples para a idade, etc.) e de articulação (muitos meninos começaram a falar à bebé, não articulam todas as palavras corretamente) não foram ainda adquiridas ou estão ainda muito inconsistentes. Mas também cresceram ao nível escolar, por dificuldades na aprendizagem da leitura e da escrita.

Carolina Madaíl: De uma forma geral, os pedidos de ajuda psicológica aumentaram. Não necessariamente por questões diretamente relacionadas com a Covid-19, mas muitas vezes pelos efeitos colaterais da situação pandémica. O desgaste e o passar do tempo numa realidade em que nos vemos limitados naquilo que eram os nossos recursos habituais, dificulta a autorregulação emocional. Desde as alterações no contexto profissional, ao condicionamento da vida social e familiar, a perceção de perda e instabilidade nos nossos recursos pode trazer à superfície novas perturbações ou agravar dificuldades pré-existentes. Por outro lado, percebe-se que, de uma forma geral, as pessoas têm visto com mais legitimidade a procura de ajuda psicológica nesta fase.

Os três profissionais de saúde consideram o seu serviço seguro e devidamente preparado para receber os seus utentes.

Diogo Santos: Atualmente, e penso que neste âmbito posso falar de uma forma geral, a Fisioterapia está preparada, seja a nível de medidas, seja a nível de recursos materiais, para garantir a segurança da pessoa que nos procura. Costumo até dizer, que dentro da clínica é onde me sinto mais seguro. Temos tudo o que necessitamos para reduzir o risco de infeção, desde que as regras e medidas sejam respeitadas claro. É normal que algumas pessoas tenham medo, e temos de respeitar isso, mas é importante transmitir a mensagem às pessoas de que podem se sentir seguras na fisioterapia”.

Marta Silva: A verdade é que a nossa expressão facial e boca são um instrumento imprescindível em muitos dos casos, o que acaba por nos fazer tirar por vezes a máscara para demonstrar e exemplificar algumas coisas necessárias, e nestes casos em específico, não considero que a minha profissão seja totalmente segura, tendo em conta a quantidade de crianças com que trabalhamos, a quantidade de locais que frequentamos para trabalhar com elas e a quantidade de profissionais/familiares com quem temos de manter contacto, caso contrário, o sucesso da terapia não seria possível. Tentamos manter-nos o máximo higienizados possível, bem como os espaços, mas nos tempos que correm, não é possível sentirmo-nos totalmente tranquilizados, principalmente trabalhando frente a frente com pessoas.

Carolina Madail: Para além de terem sido reforçadas as medidas de higienização e segurança em contexto presencial (ex.: pontos de desinfeção, distanciamento entre cadeiras, uso de máscara), o aumento da presença de psicólogos em contexto online permite também, a quem procura, ter uma alternativa segura e que não deixa de responder às suas necessidades emocionais. Permite ainda que pacientes e terapeutas, geograficamente distantes, encontrem um lugar-comum, onde se constrói um espaço que também ele se pretende seguro e de confiança.

É difícil o uso da máscara, quer pelas horas consecutivas do uso da mesma, quer pela perda de contacto visual das caras e expressões da pessoa, mas é fundamental este tipo de medida e temos que aceitar esta nova realidade. Embora possa existir medo, é importante transmitir às pessoas que não devem deixar a sua saúde para segundo plano.

Escrito por: Maria Santos

Editado por: Rafaela Boita

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