As mulheres ocultas na arte: cinco artistas que tiveram a visibilidade negada

Na arte, as mulheres desempenharam, durante séculos, o papel de musa, suporte e ajudante do artista homem. Poucas foram as que se conseguiram dedicar à arte e ainda menos foram as que viram o seu trabalho reconhecido e valorizado. Nos últimos anos tem-se feito um esforço para mudar essa realidade, mas ainda estamos muito longe da igualdade.

Antigamente, a arte , tal como o restante conhecimento, era negado às mulheres limitando-as a um papel submisso e a serem cuidadoras da casa e da família. Assim, poucas foram as que tiveram possibilidade de se dedicar a explorar a veia artística.

Geralmente, para uma mulher ter contacto com a arte teria que ser ensinada pelo pai ou outra figura masculina e tendia a abandoná-la após o casamento. Mesmo as mulheres que, de facto, aprenderam a escrever, pintar, expressar-se, viram a sua vida dificultada pela família e sociedade, pois estavam a ocupar um espaço que não lhes pertencia e ao qual nem sequer deviam ter acesso.

As mulheres que conseguiam vingar na área sofriam com grandes críticas. O seu sexo era associado a determinados estilos e expressões artísticas e elas personalizavam um alvo humano quando fugiam dos padrões nas obras, na forma de vestir, no comportamento ou no grupo de amizades.

Para ilustrar o pensamento da sociedade, serão seguidamente apresentadas algumas citações de filósofos que, ao longo dos séculos, não só a compunham, mas também a ajudaram a estabelecer-se em ideais, como:

“As mulheres podem até ter ideias felizes, gosto e elegância mas não podem atingir o ideal” – George Wilhelm Friedrich Hegel

“A inteligência da mulher é mais simples e elementar que a dos homens, mantém-se perpetuamente na infância; ela é incapaz de ver tudo que é exterior ao mundo fechado da domesticidade que a natureza lhe legou.” – Jean-Jacques Rousseau

“A mulher pode ser definida como um homem inferior.” – Aristóteles

Assim, muitas mulheres artistas foram obrigadas a adotar pseudónimos, a juntar-se à imagem de um homem ou a ficar na sombra de maridos e pais, desempenhando eternamente funções de aprendiz e sendo humilhadas por expressar opiniões e a sua visão do mundo, bem como a forma que o mesmo as diminuía e marginalizava.

Vejamos hoje as histórias reais de cinco grandes artistas femininas, que viram o seu trabalho escondido das luzes, tendo todas as capacidades, mas precisando ou sendo forçadas a ocultá-lo.

Mary Shelley

Criadora da obra Frankenstein ou o Prometeu Moderno que, publicada pela primeira vez em 1818, não continha o nome da autora, mas apenas um prefácio escrito pelo seu noivo, Percy Shelley e uma dedicatória ao pai, William Godwin.

Shelley desempenhou entre várias funções a de autora, dramaturga, escritora, tendo também editado e promovido trabalhos do seu marido.

Era filha da escritora e feminista Mary Wollstonecraft, autora de Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher (1792).

Mary Shelley

Margaret Keane

Nascida com o nome Peggy Hawkins, teve a autoria das suas obras roubadas pelo ex-marido, Walter Keane, que se tornou um dos artistas mais famosos da época. Ao início sem ter conhecimento do ‘roubo’ das obras e depois permitindo, pois ele era excelente com as vendas e ameaçava-a.

A artista trabalhava 16 horas por dia para corresponder às exigências do marido e nem a sua família sabia do que se passava.

Anos mais tarde, Margaret pede o divórcio e reclama numa transmissão de rádio a autoria das obras. Walter nega as acusações e o caso é decidido em tribunal numa competição de pintura em que ela completa o quadro e ele se nega a pintar por ter uma ‘lesão no braço’. 

Margaret é reconhecida como autora das obras e a verdade é restabelecida.

Margaret Keane

Amandine Aurore Dupin (George Sand)

Nascida em 1804, começou a escrever para o jornal Le Figaro em colaboração com Jules Sandeau, tendo a dupla usando um pseudónimo que os encobria e que mantiveram em outras obras.  Foi obrigada a adotar um pseudónimo pessoal masculino, em 1832  para poder entrar no mundo literário sozinha, com o romance Indiana.

Amandine era divorciada, fumava e vestia-se como um homem, assim, também a sua vida amorosa e conduta social eram comentadas e julgadas por não corresponderem ao ideal feminino da época. 

Dupin criticava as normas sociais e a falta de direitos das mulheres e participou ativamente nas Revoluções de 1848.  É uma das maiores escritoras francesas.

Amandine Aurore Dupin
(George Sand)

Mary Ann Evans (George Eliot)

Usava pseudónimo masculino para ter o trabalho levado a sério, distanciando-se da associação das mulheres à escrita de Romances leves e para evitar ter a sua vida privada exposta, pois manteve um relacionamento de longa data com um homem casado. 

Abordava temas como a organização familiar e os papeis de género na sociedade da época.

Traduziu inúmeros textos e escreveu diversas obras famosas, entre elas Middlemarch: um estudo da vida provinciana.

Mary Ann Evans
(George Eliot)

Marietta Robusti

Mulher nascida em Veneza, durante o Renascimento, e teve várias obras com a autoria atribuída a seu pai, o famosos pintor Tintoretto. Marietta contribuiu para uma mudança de ideias do feminino na arte, ainda que muito limitada, devido ao grande número de seguidores que adquiriu.

Servia como aprendiz no estúdio do pai, onde teve contacto direto com a arte, desenvolvendo as capacidades da pintura. Vestia-se de homem para poder acompanhar o pai, inclusive nas suas aulas.

Foi convidada para pintar nas cortes de Maximiliano II e Filipe II de Espanha, mas quem podia tomar essa decisão era o progenitor, que recusou por ser tão próximo à filha e não a querer longe.

Após a sua morte tornou-se numa musa e inspiração para os futuros pintores.

Marietta Robusti

Recomendações de filmes sobre a vida destas artistas:

Big Eyes (2014) – sobre Margaret Keane

Mary Shelley (2017)

Escrito por: HeForShe ISCSP (Mariana Carteado Costa)

Editado por: Inês Conde

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