Entrevista ao Núcleo de Estudantes Africanos: «Não nos podemos calar»

O mês de fevereiro é marcado pelo Black History Month pelo que o HeForShe ISCSP, ao longo do mês, dedicou toda a sua atenção e foco a este assunto de forma a tentar consciencializar e educar toda a comunidade sobre a importância de uma sociedade igual e justa para todxs. Assim, tendo em conta o espectro académico em que nos inserimos, foi efetuada uma entrevista a alguns estudantes do Núcleo de Estudantes Africanos do ISCSP para dar voz e visibilidade às suas vivências e experiências ao longo da sua vida académica.

Fale um pouco sobre o Núcleo de Estudantes Africanos.

Integrante do NEA (CP, 3º): O principal objetivo do NEA-ISCSP, é de ajudar no processo de integração dos estudantes africanos no ISCSP. Em especial os recém-chegados. De entre as várias atividades desenvolvidas no presente ano, realço aqui a primeira atividade que teve lugar logo depois da tomada de posse da nova direção: fizemos um piquenique, com o intuito de aproximar os novos membros no sentido de criarem laços de proximidade. O segundo evento foi a semana de integração, que foi realizada logo no início do ano letivo, onde foram disponibilizadas várias informações: quando os alunos chegam a Portugal com poucas informações, nós ajudamos nesse sentido. Por exemplo, informações sobre oportunidades de bolsas de estudo e demais oportunidades que possam ajudar os alunos no seu percurso académico. E por último, geralmente, costuma-se realizar a semana africana, que normalmente acontece no dia 25 de Maio (dia de África) e que tem como objetivo divulgar a cultura e identidade africanas, através da música, arte, literatura, poesia, gastronomia, etc.

Ana Só (APPT, 3º): O NEA, com o apoio do ISCSP, tem vindo a desenvolver métodos de integração destinado principalmente a pessoas que chegaram de outros países e que apresentam certas dificuldades no meio académico. Foram feitos cursos de português, de Excel e princípios de informática, ou seja, desenvolver as ferramentas básicas necessárias para execução de trabalhos nas unidades curriculares.

Como se sentem a estudar no ISCSP?

Ana Só: Estudar no ISCSP sempre foi um dos meus objetivos e, apesar de não me sentir totalmente integrada, tem sido uma boa experiência.

Integrante do NEA: Entre colegas há muita gratidão, não tenho como reclamar, todos nos ajudamos mutuamente, acho que me acolheram bem. Eu costumo dizer que a minha turma é a melhor do ISCSP.

Jocayana (RI, 1º): Sinto-me bem, porém há dias em que se notam os maus olhares…

Já passou por algum tipo de desrespeito ou situação incómoda com os professores?

Representante NEA: Sei de várias situações complicadas que são faladas no Núcleo entre os meus colegas. Pessoalmente, tive um momento menos agradável. Uma vez um professor recusou-se a dar aula em português e deu só em inglês, devido a uma única aluna de Erasmus que havia na sala, mesmo sabendo que entre os alunos nem todos falavam inglês, como era o meu caso. Mesmo questionando o professor, ele manteve o plano. Achei a situação despropositada e retirei-me.

Ana Só: Lembro-me que no 2º ano do meu curso, um dos professores estava a falar da política do país e começou a gozar com os pontos de vistas da Joacine Katar Moreira e não acabando por aí, fez com que a turma risse da gaguez dela. Foi o dia em que me senti mais desconfortável e mais deslocada na faculdade, porque nunca iria imaginar que teria de presenciar um acontecimento desses no mundo académico.

Sentem-se respeitados pelos colegas?

Jocayana: Com certeza! Mas existem certas situações menos agradáveis: uma vez, uma colega tinha feito cábulas num teste (ela era negra) e outro colega pensou que era eu só pelo facto de eu também ser negra.

Ana Só: Também me sinto respeitada pelos meus colegas, mas, infelizmente, não consegui ter muito contacto com eles. Já estou no meu terceiro ano e até hoje falo com os mesmos colegas que foram as pessoas com que me identifiquei ao início e não procurei integrar-me mais na turma, o que também era algo difícil tendo em conta a tendência da criação de grupos e a dificuldade de entrar nos mesmos. Ao mesmo tempo, mesmo nunca os meus colegas terem faltado ao respeito a ninguém diretamente, é impossível não notar certos olhares discriminatórios dirigidos a colegas que tenham chegado há pouco tempo de outros países e que ainda tenham uma certa barreira linguística. Na minha opinião, todos nós, ao vermos um colega que está a tentar integrar-se na faculdade e mostra empenho em aprender mas tem dificuldades por causa destes entraves, devíamos ajudar ao máximo. Eu pessoalmente tentei ajudar essas colegas mas elas não conseguiram aguentar e desistiram no final do 2º ano. Isto pela falta de integração, pelo pobre sucesso académico e pela desmotivação. Acho que se todos fizermos algo neste sentido e tentarmos ajudar, nem que seja um aluno, fará toda a diferença.


Em que medida consideram que o ambiente académico pode melhorar?

Representante NEA: Acho bom o trabalho que o HeForShe está a fazer, ao procurar informações sobre o NEA. O nosso Núcleo só começou a ficar mais conhecido a partir de 2018 e esta é uma oportunidade para mais pessoas o conhecerem. Acho que as coisas seriam melhores se houvesse mais integração entre os núcleos e mais acesso à coordenação também.

Jocayana: Pessoas que não são brancas só querem ser vistas como igual. E se há alguém que seja contra isto, que pelo menos nos respeite ao invés de olhar de lado ou fazer comentários desnecessários. Tenho toda a certeza que se os papéis invertessem, ninguém se sentiria bem.

De que forma é que o Núcleo de Estudantes Africanos poderia estar mais integrado na vida académica da faculdade? Há algum projeto em vista a respeito disso?

Representante NEA: Acredito que se os diversos núcleos da faculdade trabalhassem em conjunto o trabalho seria melhor. Temos alguns projetos e atividades que o Núcleo faz, como a semana africana, mas devido à pandemia estes trabalhos estão agora suspensos.

Para encerrar, querem deixar alguma mensagem aos colegas e possíveis futuros alunos?

Representante NEA: A mensagem que quero deixar é que não nos podemos calar. Se estiverem descontentes falem com o núcleo ou professores. Acho que se todos se expressassem mais, fossem mais ouvidos, falassem mais, mesmo nas situações mais desagradáveis, as coisas seriam diferentes, porque, assim, as pessoas iam conhecer mais das situações que acontecem na faculdade.

Jocayana: Não sejam como os vossos pais. Porque se forem, quer dizer que vocês não vêm o mundo do vosso ponto de vista, mas sim do ponto de vista de terceiros.

Ana Só: O meu ensino foi todo feito aqui em Portugal e, como qualquer aluno, deparo-me com dificuldades. No fundo temos que nos mentalizar que se nós temos as nossas dificuldades, os estudantes imigrantes têm o triplo de dificuldades. Muitos acabam por desistir pela falta de motivação, pela barreira linguística e pela falta de tempo para estudar pelo facto de terem de trabalhar e não conseguirem consolidar as duas coisas. Não digo que todos tenham de se sentir obrigados a ajudar mas seria uma grande ajuda ter o mínimo de empatia pelos nossos colegas.

Escrito por: HeForShe ISCSP (Beatriz Perinha, Mariana Costa e Rinaldo Batista)

Editado por: Gabriel Reis e Mariana Mateus

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