Sharenting: serão os pais assim tão ingénuos ou sofrem de um narcisismo digital?

Pela primeira vez, os pais de hoje em dia, estão a educar os seus filhos numa cultura digital, tendo de lidar com diversos problemas e dilemas parentais subjacentes, nunca antes precedentes. O que acontece quando os pais revelam abertamente os nomes completos dos seus filhos ou partilham a localização da escola? Será esta violação do direito ao anonimato e à privacidade da criança exploradora, narcisista ou convenientemente ingénua?

Fonte: BBC

A internet e o universo digital introduziram mutações que vieram revolucionar a forma como os pais se relacionam com os filhos e comunicam entre si, no seio das sociedades contemporâneas. De acordo com um estudo publicado pelo Instituto Nacional de Estatística em 2019, cerca de 81% dos agregados familiares portugueses têm acesso à internet nas suas casas, sendo este acesso mais frequente nas famílias com crianças até aos 15 anos, do que em famílias onde não existem crianças.

Nos últimos dez anos tem-se vindo a assistir a uma crescente discussão no seio das sociedades modernas sobre a partilha de fotografias não consentidas em plataformas digitais. Apesar da maioria das redes sociais proibirem utilizadores com uma idade inferior a 13 anos, tal como refere a Lei de Proteção da Privacidade das crianças online, não existem, contudo, restrições específicas relativamente ao conteúdo partilhado pelos pais sobre os seus próprios filhos.

Mesmo antes de aprenderem a andar ou falar, muitas crianças são precocemente submetidas a um conjunto de fotografias, publicações e atualizações sobre as suas vidas nas redes sociais online dos seus progenitores. O excesso de partilha de informações coagidas e voluntárias sobre a parentalidade por algum membro do agregado familiar denomina-se por sharenting. O conceito é fruto da junção de duas palavras, sharing parenting, ou seja, partilha online e parentalidade.

Em muitos casos, estas práticas continuadas de sharenting, começam ainda antes do nascimento da criança, através da partilha de ecografias ou de fotografias do próprio parto, tornado as plataformas digitais como o Facebook ou o Instagram, num verdadeiro álbum de fotografias dos tempos modernos.

De facto, hoje em dia, as plataformas digitais proporcionam aos pais oportunidades para trocar experiências e relatar momentos de felicidade sobre a sua paternidade. No entanto, um dos maiores perigos associados às práticas de sharenting é o rapto digital. Este fenómeno consiste em anónimos roubarem fotografias de bebés ou crianças de outros perfis e as usarem-nas como se fossem suas. Nestes casos, a criança ganha uma nova identidade, um novo nome e uma nova história. As autoridades advertem também que as publicações de imagens e vídeos na web expõem as crianças a pedófilos, ao aliciamento online, falsificação de identidades e ao roubo de dados como o reconhecimento facial das crianças.

De acordo com estudo feito pela Parent Zone, no Reino Unido, 32% dos pais afirmaram publicar em média cerca de 11 a 20 fotografias do seu filho por mês, sendo que 28% disseram que nunca pediram autorização para as publicar, contra apenas 6% dos inquiridos que se mostraram preocupados com a insatisfação dos seus filhos. Por sua vez, mais de metade dos entrevistados, cerca de 55%, relatou não estar de todo preocupado com quaisquer repercussões.

Escrito por: Tiago Malheiro

Editado por: Miguel Brejo da Costa

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