Saúde em alerta: o testemunho de uma enfermeira do Hospital Santa Maria

O ano 2021 ainda vai no início e o caos já está instalado. No meio da situação pandémica, é necessário não esquecer os doentes não Covid e agradecer aos enfermeiros e médicos que todos os dias lutam pela saúde pública. Deste modo contactei Inês Vilarinho, uma enfermeira na Unidade de Tratamento Intensivo Coronário (UTIC) – Hospital Santa Maria, Lisboa, que respondeu a algumas questões sobre toda a situação, as suas condições de trabalho e sentimentos neste momento difícil.

O que é que te sensibiliza mais enquanto enfermeira no hospital encarregue dos doentes não Covid?

Nunca nos prepararam para isto. Nem a nível profissional, como pessoal.

A Covid veio ocupar as nossas vidas de uma maneira atroz e ninguém sabia como reagir, ainda hoje temos dificuldade.

Houve muitos utentes que ficaram esquecidos, muitas doenças que passaram a ser secundárias. Tanto que foi posto de lado à espera que tudo isto passasse. E a verdade, é que ainda não passou…

Como é que vamos lidar com os utentes não Covid que agravaram o seu estado clínico por causa da Covid? Ainda ninguém sabe, porque continuamos diariamente a transformar serviços não Covid, em serviços Covid. Não deviam pôr apenas no boletim as mortes de Covid, deviam aparecer também as mortes que ocorreram derivado à Covid. Viver isto de perto é difícil, porque queremos ajudar, mas nada que possamos fazer é suficiente.

Sinto impotência. É querer fazer mais e não poder, porque não há meios, as pessoas estão cansadas, tanto profissionais como doentes… Nós por vermos que o nosso trabalho não é suficiente, os doentes porque se veem em situações que podem não ter ponto de retorno. Não há conforto que possas dar em alturas destas, é como estar de mãos atadas…

A nível físico e psicólogo como tem sido aguentar este combate à pandemia?

A resposta é imediata, muito difícil. A nível físico, apesar de custar e de ser doloroso, com descanso conseguimos superá-lo. A nível psicológico já é mais complicado, não é preto no branco e ainda não sei quais os danos que vai deixar a longo prazo.

Até agora tenho conseguido estar relativamente saudável. O importante é conseguir desligar a ficha quando saímos do hospital. Até porque quando chegamos a casa e nos ligamos ao restante mundo, parece que continuamos a trabalhar dada a informação que chega até nós. É fundamental distrairmo-nos com assuntos que gostamos, por mais banais que sejam, estar em contacto com os nossos e excluir fontes tóxicas que podem estar a chegar até nós. Pode ser difícil encontrar o equilíbrio para uma mente sã, mas quero acreditar que estou no caminho certo! Uns dias melhor e outros pior, mas gosto de acreditar que sou capaz de mudar esta situação, por pouco que seja.

Existem muitas “fake news” e imagens a circular pela internet e órgãos de comunicação social, que acabam por criar algum alarmismo. Do teu ponto de vista, como é que podemos fazer a triagem do que é verdade ou não?

Relativamente às “fake news”, o importante é ver apenas informação de fontes credíveis e creditadas. Para muita gente é difícil desligar da imagem que o amigo partilha, mas temos de saber filtrar não só a informação, mas também a fonte. Felizmente, temos sempre um amigo que nos pode ajudar a tirar as dúvidas, mas, infelizmente, também temos aquele que as coloca.

Quanto ao alarmismo, muitas vezes a comunicação social tenta só ganhar audiência e não pensa no mal que pode decorrer daí. A partir do momento em que é tirada a credibilidade ao sistema nacional de saúde e a quem nos governa, é porque passaram a linha do aceitável. Ninguém sobrevive sem confiança e a pouca qua há neste momento não pode ser perdida.

Passa por cada um de nós conseguir manter a racionalidade e ajudar aqueles que são mais suscetíveis à vulnerabilidade e ajudá-los. No caso das redes sociais, que neste momento são dos maiores responsáveis pela divulgação da informação, podem ser uma mais valia, se as soubermos usar, no entanto, podem também ser o nosso pior inimigo.

O ponto chave é saber filtrar a informação e a fonte de onde vem a mesma.

Tens conseguido ver e estar com a tua família?

Considero-me uma sortuda, no meio disto tudo, consegui ir a casa sensivelmente de dois em dois meses. Normalmente, tinha sempre uma razão forte para ir, como uma consulta ou algo do género, no entanto, acabei por ir algumas vezes só mesmo para descansar psicologicamente, nem que fossem 3 dias. Em “casa”, é muito mais fácil.

No entanto, foi sempre uma decisão difícil, porque ia sempre com um peso extra do que poderia acontecer com essa visita, apesar de ter todos os cuidados, nunca sabemos a nossa situação com 100% de certezas.

Em que sentido é que te revolta, enquanto enfermeira e cidadã, veres pessoas a não respeitarem as normas de segurança?

Eu vejo essas atitudes como um egoísmo profundo. Esta pandemia só veio provar a falta de empatia das pessoas. Não consigo separar o ser cidadã e ser enfermeira e, por isso, posso sentir ainda mais na pele o desrespeito pelas indicações que nos são dadas. No início, havia um desconhecimento enorme, por parte de todos, e conseguia ter uma tolerância grande para com o desrespeito pelas normas, até porque para mim era mais fácil compreender o porquê de todas as medidas ou o não haver medidas. No entanto, agora parece que a população se desleixou e optou por se desresponsabilizar dos seus atos.

Enquanto enfermeira, vês alguma luz ao fundo do túnel ou sentes que ainda estamos longe de alcançar a “normalidade”?

Depende do que seja o estar longe. A normalidade vai voltar, eventualmente, mas vai ser aos poucos. Como mulher da ciência, gosto de acreditar na evolução e no que somos capazes de fazer, como a vacina, por exemplo. Mas isso só vai acontecer se cada um fizer a sua parte, nem que seja ficar em casa, quando lhe é pedido.

Como é que todos nós podemos ajudar?

Esta situação é nova para todos e há informação nova todos os dias. Não vale a pena pensar no que foi feito de errado ou no que podia ter sido feito de forma diferente. Estamos na situação que estamos e temos de lutar todos contra isto juntos. A maneira mais simples de ajudar é limitar os nossos contactos, pode custar não ver a família e os amigos, mas têm de pensar que é por um bem maior. Só juntos vamos vencer esta pandemia.

Se tivesses que deixar uma mensagem de apelo, o que dirias?

Protejam-se! Não só do vírus, mas de tudo o que ele acarreta. Ajudem o próximo, da maneira que puderem! Podemos achar que não vai fazer a diferença, mas faz sempre, nem que seja para nós próprios. Aproveitem os grandes e os pequenos momentos da vida, porque a vida é efémera.

Escrito por: Maria Santos

Editado por: Inês Conde

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