A voz dos estudantes numa época de aflição

Decorria a semana da época normal de exames, quando na passada quinta-feira, dia 21 de janeiro de 2021, o Primeiro-Ministro, António Costa, decretou a suspensão de todas as atividades letivas durante os 15 dias seguintes. Foi, no entanto, dada autonomia às faculdades no que concerne à tomada de decisão sobre realizar, ou não, os exames agendados do restante período de época normal.

A postura tomada e respostas dada pela direção do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas estiveram longe de gerar consenso e originaram mesmo algum desconforto e insegurança entre a comunidade estudantil, que não hesitou em demonstrar o seu descontentamento. Em causa estão ainda a alteração do método de avaliação, datas de exames de recurso, e ainda a antecipação do início do segundo semestre.

Fonte: Facebook ISCSP

Neste sentido, o Jornal Desacordo foi falar com o Presidente da Associação de Estudantes do ISCSP, João Machado, com o intuito de tentar compreender melhor a sua posição neste momento conturbado.

O que tem sido feito pela Associação de Estudantes para responder a este impasse relativamente ao fecho das instituições de ensino?

“Em primeiro lugar, a AEISCSP, juntamente com outras 13 Associações de Estudantes da Universidade de Lisboa, afirmou que o encerramento das instituições de ensino superior seria “inevitável”, olhando para trás acho que efetivamente a decisão deveria ter sido tomada mais cedo, apesar de agora ser fácil falar. Por outro lado, endereçámos ao Reitor a preocupação de alargar o apoio psicológico para os estudantes, e também para que os estudantes que não tivessem como aceder ao ensino à distância pudessem usar espaços e salas de estudo das instituições para colmatar essa falha. Para nós, ninguém pode ficar para trás. Do ponto de vista interno, temos estado em conversas constantes com o Instituto, nomeadamente com a Presidência e com a Direção e, se por um lado, nos primeiros acontecimentos fomos um pouco colocados entre a espada e a parede pelo Governo e pela Universidade de Lisboa, acho que agora temos toda a legitimidade de trabalhar do ponto de vista interno para que as preocupações dos estudantes sejam ouvidas e enquadradas neste semestre. Por último o inquérito realizado à comunidade académica foi também esclarecedor e validou a posição da AEISCSP.”

Quais foram as maiores dificuldades dos alunos neste período de avaliação?

“Do ponto de vista do expectável, julgo que o que foi mais difícil foi o facto da maior parte dos estudantes ter tido de realizar os exames de época normal sem que houvesse uma semana de preparação entre o fim do período letivo e os exames, algo que, muito honestamente não aconteceria se a avaliação contínua fosse uma realidade em todos os cursos. O facto de haver uma divisão entre as cadeiras teve um aspeto benéfico, que foi aliviar a carga de estudo e de trabalhos a realizar ao mesmo tempo, mas no atual contexto, considero que essa divisão já não faz sentido, devendo por isso regressar ao normal.

Mais recentemente, julgo que esta questão de saúde pública foi também uma grande preocupação e ameaça aos estudantes, pois o facto de haver estudantes que se tiveram de submeter ao péssimo serviço de transportes públicos que temos para realizar exames foi um grande fator de instabilidade e de inibição.”

O ISCSP esteve envolvido em algumas polémicas nas redes sociais devido a aglomerações. Qual é a tua opinião quanto a isto?

“A famosa questão das aglomerações, vou me tentar cingir aos factos, em primeiro lugar e antes do exame tivemos dois momentos letivos onde foi possível retirar vários dados, eu nestas questões gosto muito de recorrer a factos. O balanço do 2º momento do 1º semestre, disponível no site do ISCSP, mostra-nos vários factos sobre o período entre 14 de novembro e 15 de janeiro, não estando ainda disponíveis os dados relativos à época de exames. Em primeiro lugar, a taxa de incidência acumulada no ISCSP foi de 1,3%, enquanto a nível nacional foi de 5,6%. Por outro lado, nos testes realizados pela Universidade de Lisboa ou do Serviço Nacional de Saúde, não se registou um único caso de contágio com origem no ISCSP, e muito menos algum surto ou cadeia de contaminação, e por isso acho que estamos todos de parabéns. Com isto concluo que, apesar da situação nacional, o ISCSP, durante o período letivo foi sempre uma escola segura, o mesmo não se pode dizer dos transportes. Falando nos exames, mudamos um pouco o cenário, isto porque, contrariamente ao sucedido durante o período letivo, nos exames há uma maior concentração de estudantes no edifício, e por essa mesma questão é normal que houvessem mais situações de pressão do edifício. Depois da imagem que deu muito que falar, dei várias voltas ao edifício na 4ª e 6ª feira e não vi, salvo algumas situações de segundos, situações de ajuntamentos de risco. Deixem-me também referir que o Conselho Pedagógico, a propósito desta divisão trimestral (referente ao 1º e 2º semestre, antes do início do ano letivo), recomendou a adoção da avaliação contínua, algo que foi em muitos casos ignorado pelos docentes, mas nesta altura resta-me tirar o chapéu aos docentes que optaram por essa modalidade de avaliação e contribuíram também para uma menor pressão na época de exames.”

O que é que os alunos ISCSPianos podem esperar da AEISCSP para o seu 2° semestre de aulas?

“No nosso comunicado estão explicadas as posições que defendemos para este 2º semestre, a saber, a disponibilização da avaliação contínua para todos os estudantes poderem escolher entre esta modalidade e a final, um espaço para preparar os exames de recurso, com especial atenção para os do 1º semestre pois a matéria das Unidades Curriculares não vai estar tão “fresca”. Que, para além dos casos previstos na lei, como finalistas, trabalhadores estudantes ou atletas, o acesso à época especial seja generalizado para cadeiras que os estudantes deixaram por fazer no presente ano letivo. O reforço do apoio psicológico por parte da Universidade de Lisboa é também uma necessidade muito importante, mas para não me alongar aconselho a que todos leiam o nosso comunicado, que foi também enviado para os órgãos competentes do Instituto. A nossa postura vai ser sempre construtiva e feita com toda a transparência, aliás o questionário que registou mais de 1400 respostas é um instrumento muito útil e que valida todos os pontos do nosso calendário.”

A pandemia que vivemos atualmente trouxe de novo para cima da mesa a discussão sobre os múltiplos regimes de avaliação, o regime misto, o contínuo e o final. Qual é a posição da Associação de Estudantes quanto à questão da avaliação?

“A posição da AEISCSP é clara, a avaliação contínua deve ser disponibilizada a todos os estudantes. Ainda por mais nesta questão da divisão trimestral, onde na impossibilidade de realizar exames presenciais no fim do primeiro trimestre, a única hipótese tem de ser a avaliação contínua realizada à distância. Se já durante um ano regular defendemos que esta modalidade de avaliação seja mais usada, faz ainda mais sentido neste contexto em que vivemos. Há várias formas de aplicar esta modalidade de avaliação e acho que os estudantes, a terem a possibilidade de a realizar, têm de ter a responsabilidade de aproveitar esta oportunidade e mostrar que é, efetivamente, o modelo mais pedagógico a aplicar.”

A AEISCSP lançou um inquérito online no dia 22 de janeiro que, segundo a própria, obteve 1495 respostas, tendo sido “um instrumento de extrema importância para ir ao encontro das necessidades dos alunos”. A massiva resposta por parte da comunidade ISCSPiana originou um comunicado oficial da Associação de Estudantes, publicado online nas redes sociais e transmitido aos mais altos órgãos do ISCSP, como acima referido pelo presidente, João Machado.

Um grupo de quatro alunas escreveu e partilhou, no dia 23 de janeiro, uma carta aberta a explorar algumas das preocupações dos alunos. O Jornal Desacordo considerou assim oportuno falar com Ana Catarina Bento, Ana Catarina Mateus, Beatriz Capão e Carolina Marinheiro, alunas a frequentar o terceiro ano da licenciatura de Ciência Política, e máximas responsáveis pela escrita e partilha da carta aberta aos órgãos diretivos do ISCSP.

Quais foram as maiores motivações que estiveram na origem da redação e da partilha desta Carta Aberta?   

“Após um ano a viver com esta pandemia, voltámos a sentir uma ausência de reposta por parte dos órgãos que nos deviam representar (AE e núcleos), em termos de medidas concretas, mas também de um levantamento das opiniões dos alunos. Neste sentido, os alunos sentiram a necessidade de agir e de se mobilizarem, de forma a garantir que as causas do seu descontentamento eram ouvidas. No fundo, a nossa motivação principal reflete-se numa sensação comum de falta de proximidade entre a AE e os núcleos face aos alunos, visto que a resposta por parte destes órgãos desde o início da pandemia, foi sempre tardia e insatisfatória. O facto de vermos colegas de várias turmas e de vários cursos demonstrarem-se desamparados e desvalorizados perante a situação pandémica, deu-nos a motivação para agirmos e criarmos uma Carta Aberta onde todos se pudessem rever.”

Qual é a vossa opinião acerca do regime trimestral, adotado no início deste ano letivo?

“Sendo a nossa faculdade uma das melhores nas ciências sociais em Portugal, sentimos que o regime trimestral adotado não corresponde ao rigor do ensino que seria expectável encontrar no Instituto. A adoção deste regime leva-nos a questionar qual é a qualidade do ensino superior em si, na medida em que é impossível aprender e discernir sobre os conteúdos programáticos lecionados em tempo recorde, adicionando também o facto de não ter sido feita qualquer adaptação aos conteúdos programáticos. Além disto, este regime implica também que os exames de recurso do primeiro trimestre sejam feitos mais de um mês e meio depois da frequência da unidade curricular, o que prejudica o sucesso académico.”

Quais são as perspetivas para o próximo semestre?

“É difícil ter perspetivas para o próximo semestre porque ainda não há respostas quanto ao funcionamento do mesmo. No entanto, esperamos que o Instituto tenha em consideração a opinião e a vontade dos seus alunos. No fundo, não nos é possível ter perspetivas, quando falamos de algo que está, de momento, suspenso.”

Qual será o impacto da pandemia no aproveitamento escolar?

“Em primeiro lugar, importa referir que os impactos da pandemia têm efeitos a duas velocidades. No caso dos efeitos imediatos preocupa-nos o insucesso provocado pela acumulação de exames, que muito se deve ao regime de avaliação escolhido pela maioria dos docentes (avaliação final e avaliação mista), em detrimento de um regime de avaliação contínua. Inerente a este fator, surge a crescente questão do burnout cada vez mais recorrente e notório entre os alunos do ensino superior. Além destes, a pandemia afeta também a qualidade do ensino dos vários alunos cujas vidas são afetadas pelo atual contexto pandémico, que aumentou dificuldades económicas e desigualdades, refletindo-se impreterivelmente no ensino. A longo prazo, impacta-nos também, ainda que de forma mais silenciosa, a possibilidade desta geração poder ter o ser futuro no mundo laboral comprometido.”

Quais são os maiores problemas do ISCSP? E quais os mecanismos para os diminuir?

“A pandemia permitiu vincar os problemas do Instituto, dos quais destacamos a falta de disponibilização do regime de avaliação contínua na maioria das unidades curriculares e um sentimento de falta de organização/preparação que deveria ter sido levado a cabo anteriormente (durante o Verão) para agora mitigar os efeitos da evolução da pandemia. A grande maioria dos alunos, considera que o regime de avaliação contínua é o mais eficaz e ético, tanto em termos de aprendizagem como de avaliação, visto ser contabilizado todo o trabalho desenvolvido ao longo do semestre e não apenas o exame realizado no fim do mesmo. Entendemos que tanto o Instituto como a Universidade de Lisboa não utilizaram a pausa de Verão para desenvolver e preparar um plano estratégico para aplicar nesta situação que se via previsível. Seria expectável que fosse adotada previamente uma conduta que considerasse a possibilidade de um agravamento da pandemia a nível nacional, impossibilitando o decorrer das atividades letivas, e não que esta tomada de decisão fosse adiada para o momento exato deste agravamento. Achamos que isto demonstra uma falta de planeamento e de preparação que permita o funcionamento e qualidade do ensino.”

Escrito por: Gabriel Reis

Editado por: Júlia Varela

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