O Natal e o Consumismo

Nos tempos atuais é imperativo modificarmos os típicos hábitos natalícios, tornando-os cada vez mais conscientes e sustentáveis. Nesta lógica, deve-se evitar o consumismo – o que é possível através de 6 questões elaboradas pelo Instituto Akatu, ONG de referência na consciencialização da sociedade para estas temáticas.

Fonte: Hong Kong Living

A atipicidade inerente ao ano corrente, em virtude da pandemia, não é impeditiva da aproximação constante ao Natal, sinónimo de celebração, felicidade e união. Estando cada vez mais perto, esta época é marcada, em geral, por muitas trocas de presentes, enfeites e mesas fartas, tornando-se, dessa forma, o período de maior consumo e desperdício do ano. Por causa disso, é inevitável questionarmo-nos acerca de um dos assuntos que mais nos afeta no mundo atual: a sustentabilidade.

A verdade é que este aumento de compras nos diversos setores, embora benéfico para a economia do país, é nefasto para o meio ambiente. Isso porque, se por um lado, as indústrias tendem a produzir mais freneticamente para suprir a elevada demanda de bens – principalmente nos setores têxteis e alimentícios – por outro lado e consequentemente, acresce o consumo de matérias primas e de recursos naturais, que paralelamente aumentam as emissões de resíduos. Ademais, contribuem para o reforço da contaminação da água e do solo, da poluição do ar, do aquecimento global e da alteração e devastação da fauna e da flora, prejudicial não só para a extinção dos animais que ali habitam como para todas as comunidades locais.

De acordo com a BBC News, o fabrico de uma simples camisola de algodão orgânico necessita, em média, de 2700 litros de água; enquanto a fibra artificial de celulose exige o abate de 70 milhões de árvores por ano. No que concerne às típicas calças de ganga, as mesmas podem implicar a utilização de até 10 mil litros de água. Por sua vez, não podemos descurar o impacto associado aos produtos tecnológicos, na medida em que, por exemplo, a compra de um telemóvel corresponde a uma emissão de 30 kg de CO2; a compra de um computador corresponde acerca de 1,3 toneladas de CO2. Não podemos também olvidar a produção agrícola, responsável por um consumo médio de água de 70 a 85 %, variando conforme o desenvolvimento do país.

Em justaposição ao exagero do consumo, nota-se um aumento exponencial de desperdício do lixo. Durante esta época do ano os ecopontos são rapidamente encontrados cheios de caixas, embalagens de presentes, garrafas de vidro e materiais dos mais variados tipos que, na sua maioria, não são separados corretamente e acabam por ter um resultado ambiental trágico.

Não obstante os impactos ambientais negativos causados pelo excesso e, simultaneamente, pelo desperdício, é imprescindível que pensemos a fruição do Natal como uma forma de refletir sobre a sustentabilidade e a preservação do meio ambiente, estando atentos ao que compramos e, com o objetivo último, de que este pensamento se torne uma norma diária e não uma exceção.

Para tal, o Instituto Akatu, uma ONG de referência na consciencialização e mobilização da sociedade, elaborou seis questões que devem ser colocadas para ajudar a evitar este consumo impulsivo e automático, tão comuns no período natalício.

  • Porque comprar?

Ainda que, ao longo do ano sejamos, diariamente, alvo de publicidades e promoções, é durante o mês de dezembro que decorre um acréscimo significativo desta influência. Desde as decorações típicas até às propagandas temáticas de Natal, as pessoas são induzidas ao consumo até ao ponto de saturação. Por isso, quando compramos precisamos de estar cientes do que nos motiva e de perceber se temos necessidades reais e não impulsos ilusórios que nos impedem de optar (por um produto mais sustentável), de reaproveitar (decorações de anos anteriores) ou de repensar (as nossas possíveis alternativas).

Simultaneamente, a pergunta torna-se válida para os produtos alimentícios. É importante preparar a ceia consoante o número de convidados, com o objetivo de travar o desperdício; é relevante planear uma lista de compras exata; é significativo utilizar as sobras para a criação de novos pratos; entre outros.

  • O que comprar?

Ter consciência das características dos produtos significa definirmos e considerarmos uma sistematização de aspetos que se interligam e são essenciais, nomeadamente a qualidade, os impactos ambientais e a durabilidade dos mesmos. As prendas com maior “tempo de vida”, os produtos a granel ou de pouca embalagem, as luzes LED, as árvores autóctones (sustentáveis e que podem posteriormente ser replantadas) e os alimentos orgânicos e naturais devem ser preferenciais no momento da escolha.

  • Como comprar?

Pensar a logística que implica desde a ida às compras até a forma de pagamento escolhida, tem de começar, desde logo, pelo uso de sacos reutilizáveis ao invés de sacos de plástico, sobretudo no que diz respeito à compra de frutas e legumes, tendo em vista a concretização de um impacto cada vez menor sobre o ambiente.

  • De quem comprar?

Como consumidores é fundamental termos conhecimento sobre os locais e os produtos que vamos adquirir, para não dar credibilidade a empresas despreocupadas com as questões ambientais e, paralelamente, sociais e/ou que violem os Direitos Humanos. Por conseguinte, carecer de informação fiável sobre as empresas em causa ou os seus processos de fabricação contribui para a negligência face aos impactos negativos que as mesmas podem ter nos seus processos produtivos. Quando viável, priorizar lojas de segunda mão e comércios locais é uma maneira fácil de estimular a economia local e impedir a emissão de gases de carbono no transporte desses produtos.

  • Como usar?

É insuficiente preocuparmo-nos somente no ato do consumo, na medida em que é necessário usufruir dos produtos que compramos numa lógica de preservação dos mesmos a longo prazo. Assim, são evitados efeitos relacionados com a fabricação, o transporte e o gasto num futuro próximo.

  • Como descartar?

De acordo com dados da ONU, a África Subsaariana perde até cerca de 4 biliões de dólares anualmente com o desperdício de comida; de modo geral, o mundo gerou cerca de 53,6 toneladas de lixo eletrónico em 2019, dos quais apenas 17,4% foram devidamente reciclados. Por efeito, é crucial que exista uma separação adequada de todos os produtos e embalagens que compramos, não esquecendo a necessidade de um consumo consciente de forma recorrente, incluindo na época do Natal e Ano Novo, as quais, ainda que sejam momentos festivos, não podem ser exceções para a temática da sustentabilidade

Em suma, desvincular os tradicionais vícios natalícios de consumo e desperdício pode parecer uma tarefa difícil. Contudo, na prática, é possível e é preciso transformar o Natal, tornando-o mais verde. Tal qual afirma o co-fundador da Greenpeace Paul Atson: “Inteligência é a habilidade das espécies para viver em harmonia com o meio ambiente”, por isso, está na hora de usar toda a harmonia do espírito natalício para cuidar e salvar a única casa que todos temos em comum, o nosso Planeta Terra.

Escrito por: Núcleo Académico para a Proteção Ambiental (Júlia Mangiaterra)

Editado por: Júlia Varela

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