O cenário da formação musical e artística em Portugal

Quando falamos em ensino superior muitos são os cursos que passam indiferentes no meio das médias altíssimas de Medicina, Engenharias ou Direito. Um desses casos é a formação musical e artística, procurada por milhares de estudantes em Portugal.

Embora o objetivo das escolas seja formar músicos, a verdade é que são desenvolvidas inúmeras competências além da concentração, como a memorização, a criatividade e o respeito pelo trabalho em equipa, características que podem ser essenciais para outras áreas. Em tempos de pandemia e numa altura em que a cultura tem sido alvo de destaque e manifestações, procuramos perceber o que é que a  nova geração, que tem por objetivo seguir o ramo artístico, pensa sobre a formação musical em Portugal.

À conversa com três alunos universitários compreendemos melhor a realidade em que se enquadram: João Pedro Cardielos encontra-se no 3º ano de licenciatura em música, variante de Produção e Tecnologias de Música, na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE) na cidade do Porto; Catarina Avelãs Nunes, também aluna da ESMAE, está no 2º ano de licenciatura em música, variante Fagote; Maria Vassalo Lourenço é aluna de 1º ano na Escola Superior de Música de Lisboa (ESML) e encontra-se a tirar licenciatura de música, na variante Harpa.

João Pedro Cardielos (fotografia de Diogo Miranda); Catarina Avelãs Nunes; Maria Vassalo Lourenço

Sentes que estudar música em Portugal ainda é muito desvalorizado?

 [João]: Não considero que estudar música em Portugal seja desvalorizado. Nenhuma profissão em particular é valorizada de um modo geral, à exceção da medicina. Se tu fores muito boa naquilo que fazes, seja isso o que for, acabas por ser sempre valorizada, mas só depois de dares cartas. Os estudantes de medicina em Portugal são os únicos estudantes de ensino superior que se podem dar ao luxo de ter uma ordem que, realmente, tem poder e influência sobre os governos que temos tido ao longos destes últimos anos e que faz com que estes estudantes e médicos sejam valorizados e protegidos. Por outro lado, num momento em que a taxa bruta de escolarização no ensino superior é de cerca de 50,4% acho que qualquer curso superior acaba de certa forma por ser valorizado. Acredito que, independentemente, do que quer que faças, se fores muito boa e trabalhares para isso vais, eventualmente, acabas por ser valorizada, mas são necessárias oportunidades. Um dos principais problemas que os estudantes de qualquer área associada à cultura vão enfrentar em Portugal é a já conhecida falta de investimento na cultura que, tristemente, no Orçamento de Estado para 2021 vai ocupar uma parcela de 0,21%.

[Catarina]: Depende muito dos contextos. Mas em muitos deles, infelizmente sim. No entanto, acredito que esta nova geração trará sem dúvida uma valorização de todas as artes em Portugal.

[Maria]: Acho que não é especificamente o ensino da música que é desvalorizado, mas sim a cultura. No fundo tudo o que envolve cultura não tem o apoio que merece em Portugal. Apesar disso, é feito um trabalho incrível no ensino da música e nesse ramo, principalmente nos conservatórios. Penso que se estão a formar músicos incríveis, a ganhar prémios internacionais, a conseguir ir para orquestras internacionais, mas ora aí está outro problema: a necessidade de ir para fora. As poucas orquestras profissionais e as poucas oportunidades que existem no nosso país obrigam a isso mesmo, o que talvez não aconteceria se houvesse mais apoio do Estado na cultura ou um sistema que permitisse o ensino musical para além dos conservatórios. Talvez assim tivéssemos mais público e mais pessoas interessadas, pois, a meu ver nós vivemos num país em que a população no geral não dá prioridade à arte e à cultura.

Alguma vez ponderaste não seguir música por medo do futuro e da empregabilidade?

[João]: Muitas vezes, e acho que ainda o faço às vezes. Considero que seria louco se não o fizesse, mas eu olho à volta e são poucos os meus amigos que não se questionam diariamente em relação ao curso ou área em que se encontram. Se o motivo dessa inquietação não for a empregabilidade acaba por ser outro qualquer. A ideia de que ter emprego garantido é, necessariamente, bom, é assustadora. Parece que estás a viver para ser escrava do dinheiro. Eu tenho bastantes amigos que estão em cursos de engenharia, por exemplo, e são poucos aqueles em que vejo que existe uma paixão pelo que estão a estudar. Era exatamente nesse lugar que eu estaria agora se não tivesse decidido estudar produção musical. O que me deu mais motivação para decidir vir estudar produção, foi o facto de sentir que “se existem produtores musicais porque é que eu não hei de ser um deles?”. As pessoas não vão deixar de ouvir música nem de querer ouvir música nova. E cada vez mais os técnicos de áudio vão ser mais solicitados. Todos os dias as pessoas vêm televisão ou streams, ouvem música, jogam videojogos, vêm filmes e séries e não lhes passa pela cabeça a quantidade de músicos e técnicos de som e de áudio que estão por trás destas realidades.

[Catarina]: Sinceramente, penso que não. Quando penso no futuro, pretendo escolher algo que realmente me realize interiormente, e, portanto, não posso colocar o dinheiro e a empregabilidade como primeiro critério para essa escolha.

[Maria]: Acho que qualquer estudante em Portugal tem essa inquietação, mas, apesar disso, nunca pensei não seguir esta área. Às vezes causa-me um pouco de receio, porque sendo alguém que toca e aprende Harpa, provavelmente vou ter de ir para fora e é algo que já me estou a mentalizar. Ambiciono participar em projetos maiores e ter uma visibilidade mais abrangente e, por isso, não vejo outra opção senão o estrangeiro, infelizmente. No entanto, há que realçar que as orquestras portuguesas se têm preocupado muito mais com isso e oferecem imensa programação e tentam chamar imensos tipos de público, mas mesmo assim continua a existir pouca oferta para a procura e para a quantidade de pessoas  a estudar música.

Quais consideras, nesta área, as chaves do sucesso?

[João]: Acho que só há uma chave para o sucesso, seja em que área profissional for e chama-se trabalho. Possivelmente, exista uma parte infinitesimal para o fator sorte, mas sem trabalho não há sucesso. O sucesso vem com luta, persistência e não podemos ficar à espera de que as oportunidades nos venham cair ao colo. Tal como não podemos desistir depois do primeiro “não” ou da primeira porta fechada. Também considero que é essencial saber ouvir. Não podemos desvalorizar as críticas que nos fazem, principalmente as que são feitas pela nossa família e amigos. Para quem é ativo e dinâmico e acima de tudo tem vontade de aprender, gosto de acreditar que haja sempre lugar. Esta resposta resume-se em três palavras: “Trabalho”, “trabalho” e “trabalho”.

[Catarina]: Não me considero de todo qualificada para responder a uma pergunta como esta, mas pela minha experiência, algumas das componentes mais importantes são o trabalho e a dedicação, a curiosidade para saber mais e ser melhor, e, sem dúvida, a confiança de que aquilo que desejamos alcançar é atingível.

[Maria]: Eu acho que não há assim nenhum segredo para o sucesso. Seja em que área for, o sucesso vem com o trabalho e o foco. Existe muito o preconceito de para alguém seguir uma vertente artística precisa de ter talento, e em parte sim, é verdade, mas alguém que procure estudar música desde cedo, eu acho que com trabalho e esforço conseguem chegar lá. Claro que vão existir sempre uns com mais aptidão que outros, mas no fundo tudo se resumo a dedicação e trabalho.

Como tem sido o ensino musical em tempos de pandemia?

[João]: Muito triste. Em primeiro lugar não temos o mesmo acompanhamento que tínhamos por parte dos professores. Penso que esse seja o principal ponto. Para além disso tudo passou a ser mais teórico e o que é prático está bastante restrito às nossas condições laboratoriais domiciliares. Quando o ensino era presencial íamos todos juntos para os estúdios da universidade e púnhamos as “mãos na massa”. A motivação e os níveis de energia eram, estonteantemente, superiores aos que temos agora atrás do ecrã. Ainda assim, tenho a sorte de ter umas ótimas condições para poder trabalhar a partir de casa. Sinto falta da parte social. Por muito que tenhamos três ou quatro aulas presenciais por semana não é de todo a mesma coisa. Ninguém está à vontade nem, verdadeiramente, confortável. Tenho mesmo muita pena dos alunos que entraram agora no primeiro ano da universidade. No geral acho que são inúmeras as desvantagens deste atual modelo de ensino face ao anterior, mas este também tem as suas vantagens. Em primeiro lugar, estamos muito mais seguros em relação ao vírus, e em segundo lugar, o conforto de poder estar em casa é diferente.

[Catarina]: Quando a pandemia começou a demonstrar-se em Portugal e grande parte do país, de certo modo, fechou, as universidades, os conservatórios e as escolas de música não foram exceção. Portanto, no início foi muito difícil, pela quase impossibilidade de ter aulas práticas de instrumento e outras disciplinas, como música de câmara ou orquestra, em regime on-line. No entanto, desde que este novo ano letivo começou, temos tido a oportunidade de ter aulas presenciais de novo, e apesar de não ser de todo o mesmo convívio e partilha que era anteriormente devido às restrições impostas pela situação, julgo que todos nos sentimos gratos por poder voltar a ter aulas junto dos nossos professores.

[Maria]: A nível do ensino, considero que o mais complicado quando a pandemia começou foi ter aulas de instrumento online. A música que nós estudamos precisa de ser analisada e ir a pormenores que nenhum microfone de computador, tablet ou telemóvel, consegue captar, exceto claro que sejam daqueles topo de gama (mesmo assim, não é a mesma coisa). As aulas por Zoom acabavam por ser muito gerais, o professor tinha dificuldade em perceber se estávamos a tocar as notas todas e não dava para ir ao pormenor que a música precisa. No geral, seguíamo-nos apenas pelas notas e ritmos certos.

Se tivesses de mudar alguma coisa, o que seria?

[João]: Se pudesse ou tivesse de mudar alguma coisa começava pelo ensino cívico e a educação, desde o primeiro ano de escolaridade até ao fim do ensino secundário ou profissional. É assustadora a quantidade de gente que acaba a escolaridade obrigatória e não valoriza um voto eleitoral, por exemplo. Quase desde o 25 de Abril que a Taxa de abstenção para a assembleia da república não parou de crescer. Há um desinteresse enorme pelo sentido de estado. As pessoas não se informam e não têm vontade de exercer o seu poder de voto. Acho que toda a gente devia ter acesso a um nível mínimo essencial de cultura geral, sem lobbys. Saber o que é a esquerda e a direita, e o que representam a nível económico e político. Ter noções básicas de história, geografia, filosofia, economia e ciências políticas. Talvez nesse ponto esse ensino devia ser mais exigente. Visto que todas as disciplinas referidas, à exceção das ciências políticas e da economia, são já obrigatórias. Toda a gente devia saber quem foi o DaVinci e o Galileu. Toda a gente devia saber o que são os impostos e para que servem, e para que é que serve uma fatura com número de contribuinte, ou o que é o IRS. E devia ser dado aos jovens um espaço para serem seres pensantes, curiosos e criativos. As pessoas deviam ter vontade de saber as notícias e o que se passa com o mundo à sua volta. A nossa sociedade glorifica o entretenimento e menospreza a cultura. Preferem um tabloide a um jornal sério. As histórias que já todos conhecemos são repetidas inúmeras vezes nas novelas, nos filmes, nos livros e nas músicas que atingem os máximos de audiência, um bocado como uma receita de ração para gado. Acho que a maior parte das pessoas desta sociedade em que vivemos não pegam nem refletem sobre um livro, ou um filme, ou um álbum musical que as tente questionar e desconcertar, e temo que isso seja a estagnação da sociedade. Essa reflexão é essencial para a evolução. A cultura serve para isso mesmo, para nos cultivar.

[Catarina]: Há sempre aspetos que não são exatamente como queremos, em todos os campos da vida. O ensino da música não é exceção. Acho que o que mais gostaria que mudasse um pouco é talvez o ambiente de competitividade que existe em alguns contextos. Apesar de considerar importante alguma competitividade na nossa profissão, pois faz um pouco parte da natureza de qualquer emprego, julgo que desde cedo somos expostos a um ideal de competição ao invés de cooperação no ensino da música. Felizmente, há inúmeros exemplos do contrário, e eu sinto-me sortuda por estar inserida num contexto de cooperação e trabalho de equipa.

[Maria]: Se eu tivesse de mudar alguma coisa, eu mudaria a maneira como as pessoas olham para a música erudita. Eu sinto que a imagem que a sociedade tem de nós, estudantes de músicas, é quase como se fossemos um museu, em que estamos ali a estudar obras que foram escritas há imensos anos. Ou seja, é como se olhassem para nós como estudantes de música que já ninguém ouve, quase como uma antiguidade. Sim, analisamos obras de autores que já faleceram, mas há muito para apreciar além disso. Gostava que a música erudita deixasse de ter um público tão específico e que mais gente compreendesse essa linguagem. Talvez isto parta da educação, talvez se desde pequenos nos oferecessem uma aprendizagem mais relacionada com as artes e a música, provavelmente existiriam mais pessoas interessadas e deixariam de olhar para os alunos do conservatório de uma maneira “esquisita”.

Como te imaginas daqui a uns anos?

[João]: Acima de tudo espero sentir-me realizado tanto a nível pessoal como profissional. Imagino-me a ter um trabalho que goste dentro das minhas áreas de interesse. Espero viver perto do mar e espero manter-me fisicamente ativo e saudável. Também espero já não ser uma preocupação económica para os meus pais, mas sim que possa ser eu a começar a cuidar mais deles do que eles de mim. Se tudo correr bem também espero continuar a ter um sólido e vasto grupo de amigos como tenho a sorte de ter. E quem sabe vir a constituir família. Para além disso espero ter um pouco mais de conhecimento do que o que tenho hoje, e espero já ter carimbado umas longas páginas do meu passaporte. Se assim for serei bastante feliz.

[Catarina]: Na verdade, não faço ideia. Mas cada vez mais estou bem com isso. Não procuro saber exatamente onde vou estar ou o que vou estar a fazer daqui a uns anos. Sei que vai ser algo relacionado com a música e com o meu instrumento, e sei no fundo que será onde devo estar, naquela fase, naquele momento. Se há algo que este ano nos ensinou foi que podemos fazer muitos planos, mas por vezes a vida tem outras ideias, e, portanto, por muito clichê que seja, neste momento estou onde estou, muito feliz, e depois logo se vê.

[Maria]: Daqui a uns anos eu gostava muito de conseguir um lugar numa orquestra e de me envolver em projetos deste mundo (quase à parte para muitos) da música erudita. Sentir-me-ia concretizada se me conseguisse integrar em projetos que juntassem tanto a música erudita, como a música que todos ouvem, alcançando um maior público. Gostava que este estilo de música pudesse chegar a mais pessoas, porque realmente merece.

Escrito por: Maria Santos

Editado por: Miguel Brejo da Costa

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