O Desperdício Alimentar

A urgência do dia-a-dia está iminentemente ligada à necessidade cada vez maior de pensarmos o Desperdício Alimentar como um dos grandes problemas ambientais da actualidade. Nesse sentido, o cálculo da “FoodPrint” servirá como facilitador da mudança em direcção a um futuro mais apraz.

A ânsia e o desconforto provocados pelo vazio são transversais ao ser humano, quer no plano pessoal e/ou social (incorporando uma vertente mais psicológica ou emocional), quer no plano profissional e/ou laboral (incorporando, desta forma, uma vertente mais material ou visível). Dessa forma, o vazio pode ser definido como sendo o axioma que nos caracteriza; pois, se por um lado, queremos que o mesmo se preencha; por outro lado, acompanhar-nos-á sempre. Esta introdução serve de ponte para o incómodo irónico causado com os “espaços vazios” em termos alimentícios. Ou seja, compramos exageradamente, porque temos espaços sucessivamente maiores para armazenar os bens alimentares. Para além disso, compramos o que não necessitamos, para termos opções de escolha recorrentes. Consequentemente, adoptamos o comodismo como coluna vertebral, olvidando o facto de que qualquer ação individual tem impacto coletivo. É certo que a urgência com que vivemos o dia-a-dia pode ser uma vicissitude. Não obstante, assim como o ser humano precisa de parar, também o desperdício alimentar demanda o seu ocaso.

Para compreenderem o efeito atroz das nossas ações, se colocássemos o desperdício alimentar global no mesmo comprimento de onda daquilo que é um país, o mesmo seria o terceiro maior emissor mundial de gases com efeito de estufa. Isto porque a comida, ao decompor-se, liberta gases com efeito de estufa. Simultaneamente, para a produção da mesma necessitamos de recursos múltiplos (água, terra, trabalho, entre outros). Assim, ironicamente, gastamos recursos para produzir comida que não comemos e, em função disso, destruímos o planeta. Acresce uma dualidade que, sendo solucionável, reflecte o paradoxo enraizado no mundo em que vivemos (leia-se, nomeadamente, nas sociedades ocidentais): não só, muitas vezes, comemos demais, como também temos a valentia (errónea) de deitarmos uma quantidade absurda de comida fora. Em virtude disto, já pensaram na quantidade de dinheiro do qual, inerentemente, nos desfazemos, e que poderia, seguramente e por ventura, servir para reduzir a fome? Atentemos no exemplo dos EUA, onde cerca de 40% dos alimentos produzidos não são comidos; e onde, pelo contrário, um em oito americanos não tem comida suficiente. A verdade é que a corroboração das nossas falhas começa quando compramos produtos, os quais deixam, para nós, de ter proveito, à medida que o hiato temporal, entre o momento da compra e o momento do usufruto, se alarga.

            Desde a nossa aurora, lidamos com o conceito de “Pegada Ecológica” (que traduz a relação entre os recursos produzidos e o consumo humano). Contudo, surge outro conceito vital, a chamada “FoodPrint”, que permite estabelecer um laço umbilical entre aquilo que são os limites da produção alimentar e os custos do seu desperdício. Por conseguinte, a análise deste conceito constitui a gnose necessária correspondente ao que resulta da totalidade dos procedimentos utilizados para a produção alimentícia (saiba mais em: https://foodprint.org/). De acordo com a FAO (Organização das Nações Unidades para a Alimentação e a Agricultura), a pegada de carbono equivalente ao desperdício de alimentos é estimada em 3,3 biliões de toneladas de CO2; sendo que o volume global de desperdício alimentar é estimado em 1,6 biliões de toneladas.

            Destarte, a transversalidade deste tema viabiliza, quiçá, uma metamorfose, na medida em que, a partilha de informação e o enlace de mentes conscientes reflete um conjunto de ações e medidas que têm sido tomadas otimistamente. No nosso país, por exemplo, adoptou-se uma Estratégia Nacional e um Plano de Ação de Combate ao Desperdício Alimentar, visionando uma responsabilidade mútua, assente no Prevenir, Reduzir e Monitorizar, articulada com uma “Produção Sustentável e um Consumo Responsável” (disponível em: https://www.cncda.gov.pt/index.php/). A nível europeu, a União Europeia dispõe de uma Plataforma, sob a forma de um plano de ação, assente nas perdas e no desperdício alimentício (Food Losses and Food Waste). Sob um ponto de vista holístico, a singularidade d’ “Os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável” (SDG’s) é intrínseca à concretização plena (que deveria existir) do respeito pela produção alimentar (saiba mais em: https://sustainabledevelopment.un.org/topics/sustainabledevelopmentgoals). Com efeito, o vínculo triangular entre mudanças políticas, empresas alimentícias e stakeholders (tais como a Universidade da Califórnia e a sua Carbon Neutrality Initiative – https://www.universityofcalifornia.edu/climate-lab; ou a start-up COPIA Agro & Food Technologies (COPIA) – http://copia-agro.com/ ) pode corresponder a uma estratégia win-win, repercutindo-se na justiça e na equidade entre cidadãos (observe-se a discrepância que importa estreitar entre Países Desenvolvidos e Países em Desenvolvimento).

            Por fim, o desperdício alimentar é indissociável das alterações climáticas, desde logo pela contribuição negativa que o primeiro assume face ao segundo, formando-se um ciclo de agravamento vicioso das condições do planeta. É-nos colocado no presente um desafio, pois tendo este(s) problema(s) um prazo duradouro, é impreterível que se exijam políticas estratégicas intergeracionais, sujeitas a uma incerteza veemente. Claro está que as inquietações do momento requerem decisões no imediato, criando-se uma hierarquia prioritária de interesses e esforços, na qual a estabilidade climática fica menosprezada (isto é o que se entende por “inconsistência temporal”). Creio que a nossa capacidade para a realização pode (e deve) ser potencializada, nem que seja através da compostagem em casa ou da tão crucial redistribuição alimentar. Afinal é (tão) simples (de) intencionar…

Escrito por: Núcleo Académico para a Proteção Ambiental (Patrícia Santos)

Editado por: Inês Conde

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