Hollywood da Netflix: do que se trata e o que é real?

A série da Netflix Hollywood, que estreou no dia 1 de maio, é uma série que nos faz regressar à Golden Age com uma narrativa alternativa à realidade, mas sem esquecê-la.

Na série são misturados factos e personagens reais com ficcionais, personagens que marcaram esta era de alguma maneira, e, ao lado deles temos as personagens ficcionais, das quais muitas representam o tipo de pessoas que não eram aceites neste meio. As personagens ficcionais podem ser das que nos provocam maiores sentimentos e nos comovem, por serem uma bela e desejada mentira, para todos aqueles que respeitam os direitos humanos e sofrem com tais injustiças.

A trama desenvolve-se em grande parte em volta da realização de um filme que gera polémica, tendo como argumentista um individuo de pele negra e com o casting de uma possível protagonista também de pele negra, que pode mudar esta narrativa. Será possível? Terá de ver para crer.

Adicionalmente, a trama exibe também os escândalos da época dourada como a maneira como o sexo controlava as oportunidades na indústria, através de orgias, prostituição onde se envolviam jovens atores que pretendiam subir na carreira ou apenas membros da indústria frustrados. Esta é de certo uma das partes reais, que mostra como a indústria podia ser repugnante e de como oprimia a liberdade dos que estavam envolvidos nela.

É muito importante que quem veja a série procure contextualizar-se e que saiba minimamente como funcionava a indústria e as personalidades que a rodeavam, pois o que temos é uma ficção misturada com aspetos reais, parcialmente reais e referências. Isto pode ser feito antes ou depois de ver a série, acreditem que é interessante.

Relacionando o ficcional com o real, podemos analisar das personagens, tendo em conta a necessidade do contexto referido, que ajuda perceber melhor a série. No entanto esta análise pode conter um maior número de spoilers a partir daqui.

Darren Criss apresenta-se como Raymond Ainsley, uma personagem ficcional que é realizador e está a tentar fazer o seu filme com a Ace Studios. Este personagem é de descendência filipina, mas consegue passar pelo padrão de Hollywood devido à sua aparência, tendo ainda o objetivo de mudar alguns procedimentos da indústria.

Laura Harrier é Camille Washington, uma personagem ficcional e única mulher negra contratada no Ace Studios e que busca pelo seu sonho sem desistir, mesmo com as contradições da indústria face à sua etnia.

Katie McGuinness interpretada por Vivien Leigh, uma dama do Hollywood clássico, que será familiar pelos papéis em Gone With the Wind (1939) e A Streetcar Named Desire (1951)Esta sim é uma personagem real, onde é explorado o seu lado mais frágil.

David Corenswet é Jack Castello, uma personagem ficcional que representa o tipo de pessoa que queria concretizar os seus sonhos como grande ator, procurando isso em Hollywood, como todos. Ele passa pela frustração e pelo sucesso,  começando por um lado não tão digno, introduzi-nos a uma cidade que não será tão encantadora quanto parece.

Patti LuPone apresenta-nos Avis Amberg, uma personagem ficcional, que se sente sozinha face ao marido que a despreza, dono do Ace Studios. Acaba por se envolver nas práticas escandalosas de Hollywood por se sentir desse modo, e prova ser uma personagem e mulher determinada, conseguindo uma posição de destaque e surpreendendo todo o público com a sua decisão arriscada começar uma mudança na indústria cinematográfica. É um voto de confiança às mulheres.

Jake Picking é Rock Hudson, nascido com o nome de Roy Harold Scherer Jr., sendo esta uma personagem real em parte, com o seu lado ficcional na série. Um galã de cinema cuja sexualidade foi segredo até à sua morte, morrendo de sida em 1985. Na trama não é propriamente um galã, até é um rapaz bastante tímido e desajeitado, mas parece fazer referência, em conjunto com o seu par, de como a sexualidade era um tema tão delicado na época, sendo ele homossexual.

Jeremy Pope, condecorado ator da Broadway, é Archie Coleman, uma personagem fictícia, um argumentista que tem de enfrentar o preconceito pelo seu tom de pele e pela sua orientação sexual, mas que está determinado em alcançar a indústria cinematográfica e os seus sonhos.

Samara Weaving é Claire Wood, uma personagem ficcional, atriz que se encontra numa posição privilegiada, é filha do chefe da Ace Studios, branca, loura, padrão de Hollywood, rica. Aproveitar-se-à da sua posição? Pode surpreender.

Queen Latifah interpreta Hattie McDaniel, a primeira mulher de cor a receber um Óscar, pelo papel de “Mammy” em Gone with the Wind (1939).  Queen Latifah traz a atriz de novo à vida na série, contando a sua história e envolvendo-se no novo enredo. É indiscutível que McDaniel teria de estar na série, o seu legado é muito importante para o que é representado na trama. E vemos uma personalidade forte, e até uns rumores da sua vida pessoal são incluídos.

Dylan McDermott apresenta-se como Ernie, o dono de umas bombas de gasolina que tinham negócios ocultos que levavam os clientes à “DreamLand”. Este personagem baseia-se em Scotty Bowers, que fazia trabalhos de outras naturezas ao serviço de uma bomba de gasolina com 23 anos no Hollywood Boulevard. Bowers tem uma autobiografia, com o nome de Serviço completo: As Minhas aventuras em Hollywood e as vidas sexuais secretas das estrelas, onde fala de muitos dos casos e serviços que prestou e teve com as celebridades.  Rapazes, raparigas, casais, reis e um trio com Ava Gardner e Lana Turner. Bowers tinha feito de tudo.

Michelle Krusiec é Anna May Wong, a primeira estrela de cinema americana com ascendência asiática, atuando em filmes mudos e talkies, que basicamente são os primeiros filmes sonoros, um filme com som sincronizado ou som tecnologicamente acoplado à imagem, começando por ser curtas-metragens. Wong participou ainda na televisão, rádio e teatro.

Mesmo com o vasto trabalho, a atriz, frustrada com os estereótipos, deixou a indústria de Hollywood e partiu para a Europa no final da década de 1920, onde estrelou em filmes como Piccadilly (1929). A década seguinte seria de viagens constantes entre Estados Unidos e Europa, dividindo seu tempo entre as câmaras e os palcos. Ainda para mais, algo que é referido, em 1935, Anna ficou extremamente desapontada e desanimada com sua carreira quando a Metro-Goldwyn-Mayer não lhe deu o papel principal no filme The Good Earth (1937).

A personagem é baseada na atriz, mas não deixa de trazer factos ficcionais, uma justiça tardia com a produção do filme da Ace Studios.

Holland Taylor é Ellen é uma personagem ficcional, uma produtora que consegue o que quer e sabe notar em talento e eleva-lo. Ela e Dick Samuels, interpretado por Joe Mantello, são a dupla maravilha do Ace Studios.

Paget Brewster é Tallulah Bankhead, uma personagem com bases reais e refere-se à atriz de palco e ecrã que veio de uma família conservativa de Alabama. Bankhead era, porém, diferente dos seus parentes, pois suportava causas liberais, tinha problemas com álcool e drogas, e era conhecida por ter affairs com homens e mulheres. Na trama é explorado o rumor do envolvimento de Bankhead com McDaniel, que nunca foi confirmado, mas que na série é tomado como um facto.

Jim Parsons é Henry Willson, uma personagem real,  um agente de talentos, que descobriu diversos jovens, maioria homossexuais, chegando a impor atos sexuais em troca dos papéis para os jovens, face à sua influência em Hollywood, nos anos 50.

Foi realmente agente de Rock Hudson, sujeitava-o realmente a certas coisas e, e na série, ele usa conexões da máfia para manter fora da imprensa uma história sobre os serviços passados de Jack Castello, de olho numa recompensa na Ace Studios, o que acontecia na realidade. Para além disto, na realidade, ele ainda vendia escândalos de celebridades consoante o seu interesse. A personalidade da personagem da série aplica-se à sua realidade, misturada com factos fictícios.

Joe Mantello, ator e produtor americano mais conhecido pelos seus trabalhos na Broadway, é Dick Samuels, é uma personagem ficcional, um produtor bem-sucedido da Ace Studios , reservado, e que realmente não é fã de toda a atmosfera de censura de Hollywood, tendo um papel importante no avanço de um filme diferente. É uma personagem com a qual podemos simpatizar muito, tenho a dizer que foi das minhas personagens preferidas.

Rob Reiner, é Ace Amberg, um personagem ficcional, o diretor do Ace Studios, marido de Avis, com quem tem um casamento instável e que representa o típico marido que pratica uma masculinidade tóxica.

Billy Boyd é Noel Coward, referência ao escritor, ator, diretor e compositor inglês. O artista era homossexual, mas devido às circunstâncias da época escondia esse facto.

Harriet Sansom Harris interpreta Eleanor Roosevelt, ativista de direitos humanos e ex-primeira-dama dos Estados Unidos. Esposa do presidente dos EUA, Franklin Delanor Roosevelt, tornou-se delegada dos EUA nas Nações Unidas após sua morte.

Carrie Gibson interpreta Dorothy Arzner, a única diretora que trabalha em Hollywood, uma referência interessante, desde a década de 1920 até sua aposentadoria em 1943. Com mais de 20 filmes, Arzner lançou carreiras de atrizes como Lucille Ball, Katherine Hepburn e Rosalind Russell. Ela manteve um relacionamento de quarenta anos com a dançarina e coreógrafa Marion Morgan e foi ligada romanticamente a várias atrizes de destaque. 

Para além destas personagens, a história de Peg Entwistle, presente na origem do filme realizado, é real e mostra como a indústria podia mexer com a cabeça dos profissionais. Se repararmos, a abertura da série relaciona-se precisamente com a história do filme a ser realizado na trama, e as personagens que o seguem parece que não estão totalmente seguras, mas não caiem.

Há mais personagens na série a quem fazem pequenas referências e que ajudam a montar esta realidade machista e homofóbica de Hollywood.

Na trama, com a realização de um filme diferente, o que Avis, ao aprova-l,o não tem em consideração é que a censura teria o negado desde o início, uma censura vinda de dentro que é demonstrada por funcionários do seu marido Ace. Na época o próprio Joseph Breen, diretor da montion picture industry, grande influência em Hollywood, publicou o Código de Produção, um código de censura, que determinava o que podia entrar nos filmes, de que forma e com que linguagem.

A chamada miscigenação, o romance entre Meg e seu namorado branco, não era permitida na tela, uma regra que foi relaxada apenas um pouco depois tendo em conta a linha de tempo usada, com é Pinky (1949) , mas que na verdade foi apenas uma tremenda estupidez. Pinky apresenta uma jovem negra que passa por branca, que na verdade foi interpretada por uma atriz branca, Jeanne Crain. É uma obra ridícula para atender ao que Hollywood queria. Mulheres de cor queriam o papel mas não poderia haver tal romance entre negros e brancos na altura. Para além desta obra, outras ridículas se sucederam, fugindo de dar o papel de protagonista a uma mulher negra, procurando a mulher negra que se parecesse mais branca, como em Immitation of Life (1959).

Algo ausente nesta reconstrução é a lista negra de Hollywood, elaborada pela primeira vez em 1947, devido à inquietação na indústria face a uma possível influência de criadores simpatizantes com o comunismo. Os estúdios leram os roteiros dos filmes em busca de mensagens subversivas de esquerda, e o filme em causa na série iria ser provavelmente minuciosamente analisado.

O que não quer dizer que os filmes progressistas não foram feitos naquela época, já que, o grande vencedor no ano em que Meg vai a prémios na série, o ano de 1948, foi Gentleman’s Agreement (1947), dirigido pela ex-integrante do partido comunista Elia Kazan, no qual Gregory Peck interpreta um jornalista disfarçado para expor o anti-semitismo. Há de certo alguma ligação ao ano, sendo Meg também tem presente essa natureza.

Outro filme nestas listas era Crossfire (1947), um filme dirigido por Edward Dmytryk, sendo baseado num romance sobre homofobia, sendo a homossexualidade era outro assunto proibido pelo Código. O que é curioso, pois na série terminamos falando precisamente numa obra homossexual que, com a inexistência da referência deste código, seria possível e mais um símbolo evolução nesta indústria.

Assim, Hollywood demonstra histórias frequentemente contadas sobre orgias, prisões e excentricidades, mas também se apoia em demonstrar o facto de que muitas pessoas que trabalham na idade de ouro de Hollywood eram homossexuais e teriam de viver destes esquemas, e mentiras e que as carreiras de talentosas pessoas de cor foram parada pelo enorme racismo que existia, talento foi destruído.

Murphy imaginou décadas de preconceito e criou uma ficção otimista em que as estruturas censuradas assumem controlo. Hollywood ainda está longe de ter completamente a igualdade desejada, e este final feliz inspira-nos a ser melhores, pois, não sei quanto a vocês, mas verti uma lágrima por estar a ver algo que não era verdade e que merecia ser, com todas as emoções dos personagens à mistura.

Escrito por: Rafaela Boita

Editado por: João Rego

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