Voluntariado em Waldhüttl

Waldhüttl é um albergue abraçado pelos Alpes e pelo ar puro do campo que o rodeia em Innsbruck, na Áustria. Acolhe 15 pessoas oriundas da Roménia, Bulgária e da antiga Jugoslávia, cujo título de minorias sociais as persegue. Tratam-se de pessoas categorizadas, pela sociedade, como sem-abrigos, ciganos, solicitantes de asilo e refugiados, que não conseguem arranjar trabalho e, por isso, dedicam-se a vender jornais nas ruas e a tocar para ganharem algo. 

Hoje símbolo de paz, Waldhüttl remonta a tempos mais sombrios. Na Segunda Guerra Mundial, um grupo de resistência contra os nazis, Freie Österreich, que aqui se reunia foi traído. Os seus membros foram enviados para campos de concentração, incluindo Heinz Mayer. A maioria foi assassinada nesses mesmos campos. Mayer sobreviveu e, imediatamente após o seu retorno do campo de concentração de Buchenwald, assumiu a liderança honorária do grupo local Thaur do movimento de resistência, começando a lutar com veemência pelos interesses das vítimas do nacional-socialismo.

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No verão são acolhidos voluntários cujo trabalho tem o foque na melhoria das infraestruturas. Em 2019 apresentaram-se 8 voluntários provenientes de Espanha, México, Rússia, Turquia e, claro, Portugal.

Waldhüttl foi um campo que nos ofereceu uma experiência perene e inesquecivelmente enriquecedora. Entrámos com uma mente aberta, prontos para recolher e processar todo o conhecimento possível acerca do projeto, de forma a ajudar as pessoas que este campo acolhia.

Contudo, a partilha de experiências de vida viabilizou a absorção de mais informações vitais futuramente necessárias. Achei maravilhoso aperceber-me que a melhor forma de alcançar a verdade e saber o que realmente acontece noutros países não é através dos media, mas sim através do povo que sente na pele o abuso do poder. A ambição crescia e o coração aumentava à medida que estabelecíamos contacto com estas pessoas, que se despiram da noção de minorias sociais e do termo cidadão – pois aos olhos da sociedade e do Estado não passam disso – , desses termos austeros, e se tornaram Pessoas! São Pessoas e ponto final.

O objetivo tornava-se mais nítido quando observávamos as crianças a brincarem ao pôr do sol e os adultos a chegarem depois de um dia a trabalhar. Apesar das dificuldades a que estavam sujeitos, disfarçavam um sorriso perante os olhares lânguidos dos pequenos. O final de tarde iluminava-se com conversas profundas, risos, abraços, cânticos, olhares atentos e expressões alegres, onde tínhamos as montanhas e o som bucólico como pano de fundo. Desejávamos que a Humanidade estivesse presente para assistir e absorver aqueles momentos de paz interior.

No workcamp entraram pessoas inexperientes, mas com uma grande vontade de trabalhar e de aprender. O trabalho desenvolveu-se rapidamente, sempre acompanhado de uma harmonia, eficácia e boa disposição arrebatadoras. Criámos uma unidade de trabalho inquebrável de tal modo que nem a frustração, cansaço ou frio conseguiram penetrar. Impressionante o que criamos quando temos somente a vontade e um conjunto de ferramentas na mão.

Estas duas semanas possibilitaram um maior desenvolvimento a todos os níveis e, ainda, uma maior flexibilidade para enfrentar os desafios quotidianos. Claro está que só podemos crescer emocionalmente quando nos deparamos com dificuldades. Os obstáculos surgiram, mas quando facilmente contornáveis, revelavam-se pequenos incómodos, como por exemplo, não termos uma casa de banho ou chuveiro na segunda e última semana. Estes tornaram-se coisas secundárias quando comparadas às coisas básicas que fazem falta a imensas pessoas que nada ou quase nada possuem.

No último dia, as lágrimas surgiram ao despedirmo-nos daquela experiência, das pessoas que nos acolheram e aceitaram a nossa ajuda, dos coordenadores que tanto nos ensinaram e nos fizeram acreditar que somos capazes de tudo e da natureza que esteve sempre presente para nos reconfortar quando as saudades de casa apertavam. Os pequenos gestos contaram e fizeram a diferença neste campo para toda a gente envolvida.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do Desacordo ou dos seus afiliados

Escrito por: Larisa Rebeca

Editado por: Júlia Varela

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