Erasmus nos ensinos básico e secundário: como é a experiência?

O famoso programa Erasmus abrange jovens de toda a Europa, não só do Ensino Superior mas também dos Ensinos básico e secundário. É, geralmente, visto como algo bastante enriquecedor que leva à abertura de novos horizontes.

Deste modo, o Desacordo entrevistou dez estudantes com idades compreendidas entre os 16 e os 18 anos que participaram em projetos Erasmus e outros projetos de intercâmbio entre o 6° e o 12° ano, de modo a compreender melhor o que é começar a fazer parte desta experiência numa idade tão tenra e que benefícios esta tem nos jovens em idade escolar.

Primeiro, vamos conhecer os entrevistados:

Daniela
Daniela tem 18 anos, está no 12° ano e pretende seguir um curso profissional na área do desporto. Fez Erasmus na Letónia aos 14 anos e recebeu em casa, uma estudante romena e uma estudante turca.

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Isabel
Isabel tem 17 anos, está no 12° ano e pretende seguir um curso superior no campo da economia ou da gestão. Fez o seu primeiro Erasmus com 13 anos e desde então já visitou a Itália, a Roménia, a Áustria, a Polónia, Espanha, a Eslováquia, a Finlândia, a Turquia e a Bélgica e recebeu pessoas vindas da Turquia, de Espanha, da Letónia, da Roménia, e da Polónia.

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João
João tem 16 anos, está no 11° ano e no futuro quer seguir a área de Engenharia de Automação, Controlo e Instrumentação. Fez o seu primeiro Erasmus aos 11 anos e entretanto já participou em projetos na Bélgica, em Espanha, em França, na Lituânia, na Polónia, na Roménia, na Croácia e na Turquia. Recebeu em casa estudantes dos quatro primeiros países mencionados.

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Adriana
Adriana tem 18 anos e está no 12° ano. Participou em projetos de intercâmbio e Erasmus que lhe permitiram viajar para a Galiza, Polónia, Bélgica, Irlanda, Itália, Finlândia, Eslováquia e França. Tinha 11 anos quando realizou o seu primeiro projeto e recebeu em casa estudantes de nacionalidade espanhola, polaca, irlandesa e francesa.

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Rita
Rita tem 18 anos e é estudante universitária. Visitou, através do projeto Erasmus, a Letónia e a Roménia e recebeu em casa estudantes desses mesmos países. Estreou-se no projeto aos 14 anos.

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Maria
Maria tem 18 anos e está a tirar o curso superior de engenharia biomédica. Fez o seu primeiro Erasmus com 14 anos e o projeto permitiu-lhe visitar a Polónia, a Finlândia, França, a Roménia e a Turquia e receber em casa uma estudante lituana e outra francesa.

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Diogo
Diogo tem 17 anos, está no 11° ano e quer seguir a carreira de pilotagem de aviões. Foi em Erasmus à Lituânia, à Polónia, à Áustria, a Espanha, à Eslováquia, à Grécia e à Roménia e recebeu em casa estudantes de nacionalidade irlandesa, lituana, austríaca, grega e francesa. Participou no seu primeiro projeto com 11 anos.

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Beatriz M.
Beatriz tem 18 anos, está no 12° ano e pretende ingressar no ensino superior em Psicologia ou Direito. Iniciou a sua experiência no projeto Erasmus aos 14 anos e desde então conheceu a Bélgica, a Lituânia, a Polónia e a ilha de Maiorca. Recebeu estudantes de nacionalidade polaca, holandesa e espanhola.

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Beatriz C.
Beatriz tem 18 anos e estuda medicina dentária. Realizou vários projetos Erasmus e outros projetos de intercâmbio, o primeiro aos 11 anos, que a levaram a Espanha, à Bélgica, à Polónia e à Finlândia e recebeu em casa estudantes vindos da Lituânia, da Finlândia, da Turquia e de Espanha.

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Rodrigo
Rodrigo tem 16 anos e está no 11° ano. Começou a sua experiência no Erasmus aos 12 anos e com ela pôde ir à Polónia, a Itália, a Espanha, à Turquia, a França, à Áustria, e à Bélgica e receber alunos dos três primeiros países referidos.

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As motivações
O que levou os entrevistados a juntarem-se ao programa Erasmus, ainda por cima numa idade tão jovem?

A maior parte dá a mesma resposta: “foi a vontade de viajar e de conhecer novas culturas, nomeadamente a um baixo custo”. Para fazer uma viagem através do programa, tiveram de pagar entre 0 e 100 euros, dependendo da escola onde andavam e do lugar para onde iam. Já para participar noutros projetos para além do Erasmus o valor rondou os 300 euros o que, apesar de mais alto, continua a ser bastante baixo face a uma viagem feita por conta própria.

Isabel e Daniela revelam, todavia, que foram bastante influenciadas por outras pessoas, que as aconselharam vivamente a participar na experiência. No caso de Daniela a sua professora de inglês e os seus colegas e, no caso de Isabel, a sua mãe. Beatriz C. apresenta ainda como motivo o facto de querer por à prova o seu inglês.

João, confessa que foi um acidente: “não havia ninguém no projeto disponível para alojar em casa uma rapariga espanhola, então, a professora responsável pelo projeto, perguntou na sala de aula onde eu estava se alguém se disponibilizava”, explica que ele e a sua família viram a situação como uma forma de ajudar a professora e não como uma forma de entrar para o projeto. Mencione-se que receber pessoas em casa é uma parte importantíssima do Erasmus e que, geralmente, para um aluno ir também tem de receber.

A primeira viagem
Quando inquiridos acerca daquilo que sentiram quando estavam prestes a embarcar na sua primeira viagem em Erasmus, os entrevistados dão repostas diversas. Alguns dizem que ficaram ansiosos, mas por motivos diversos. Para Rita, o que causou mais nervosismo foi o facto de estar muito longe de casa e de não saber se se iria dar bem com a cultura, com o clima e com as pessoas em geral. Daniela também diz ter ficado um pouco nervosa por não saber o que a esperava, para além de referir o facto de ter de estar sempre a falar inglês.

Para Isabel, o maior problema foi também a língua: “talvez o que me assustou mais tenha sido o facto de estar sempre a falar inglês com a família e de não me fazer entender, mas acabou por correr tudo bem”, revela. Adriana diz que teve medo, sobretudo, por não ter os pais ao pé e por estar a ir para um país onde pessoas podiam ter uma maneira de viver completamente diferente da sua. Beatriz M. fala do receio de algo dar errado, pois ia ser a primeira vez que ia viajar e não estava com a família e João diz que o que o preocupou mais foi o avião e o facto de ter estado doente na semana anterior.

Maria sentiu-se de maneira diferente. Diz que se sentiu, não ansiosa, mas sim extremamente entusiasmada e feliz quando estava prestes a realizar a sua primeira viagem. Beatriz C. também diz não ter sentido o tal “nervosismo inicial”. “Confesso que me senti, até, um bocado adulta, pois estava por minha conta. O problema foi quando chaguei lá porque ainda não tinha conseguido falar com os meus pais, quando os meus colegas já o tinham feito”, refere. Por fim, Rodrigo também menciona a mesma sensação de liberade: “senti-me, pela primeira vez, uma pessoa livre, ao saber que iria ter liberdade de tomar determinadas decisões sem a presença dos meus pais. Mas, ao mesmo tempo, estava receoso pelo facto de não estar sobre a proteção deles”.

Aprendizagens e competências adquiridas com o Erasmus
Todos os entrevistados admitem ter aprendido muito e adquirido ou melhorado competências com a participação no projeto.

Houve quatro ganhos que foram frequentemente referidos: a melhoria das competências sociais, a maior facilidade em comunicar em inglês – no caso de Rita, também em francês – a maior facilidade em resolver problemas sozinhos, sem a ajuda dos pais e a significativa quantidade de informação adquirida acerca dos países visitados. Adriana e Beatriz C. confessam que foi também uma forma de desenvolverem o seu espírito de equipa, a sua cooperação e a sua tolerância face a pessoas tão diferentes de si. Beatriz C. explica ainda que isso foi muito potenciado pelo facto de, nos projetos onde participou, dividirem várias vezes os jovens em grupos, nos quais tinham de, por exemplo, criar danças e canções, e João diz ter aprendido a usar um aeroporto de forma correta.

Maria, por sua vez, disse o seguinte: “com o Erasmus aprendi imensas coisas, entre elas algo muito importante – o saber estar em casa de um desconhecido num país estrangeiro e o saber receber em nossa casa. Acho que só nos apercebemos como pode ser uma experiência dessas depois de passarmos por ela. Talvez hoje me pareça mais simples, mas com 14 anos acho que foi um ganho repentino de maturidade”. Por fim, Rodrigo e Diogo observaram a situação financeira dos países onde foram: “percebi, que por vezes, os países onde existe menos riqueza são os mais humildes e os que mais me marcaram, pois simples gestos fazem toda a diferença”, diz Rodrigo. “Aprendi que, apesar do nível financeiro da familia sempre fui recebido com um sorriso na cara e que, apesar de não me conhecerem, sempre foram humildes, fazendo tudo para me receber da melhor forma possível”, diz Diogo.

A experiência em si
Todos os inquiridos descrevem o Erasmus como uma ótima experiência, no geral – João, por exemplo, fala de ter tido a possibilidade de conhecer sítios que nunca conheceria se não fosse através do projeto, apesar de reconhecerem a existência de alguns contratempos e de algumas coisas que correram menos bem – Isabel, todavia, admite que mesmo as situações que não correram como esperava lhe permitiram aprender.

Rita, por sua vez, relatou mesmo algumas experiências mais desagradáveis ocorridas na Roménia: “Apesar de ter conhecido muitas pessoas boas, a maior parte dos alunos estrangeiros tiveram problemas com os seus hosts e eu não fui exceção. Muitas vezes fui deixada sozinha e era levada para sítios pouco agradáveis onde havia pessoas com quem não se quer andar. Recordo-me de andar num carro em que o motorista estava bêbedo e estava a andar aos zigzags numa estrada à meia noite. Muitas vezes ouvia também a minha host a falar mal de mim, como as línguas são semelhantes percebia praticamente tudo”. Já Maria, Beatriz M. e Adriana descrevem a participação no projeto como uma das melhores experiências que tiveram na vida. A maior parte dos jovens refere ainda ter memórias inesquecíveis e ter feito amizades para a vida.

A parte de receber
Como já referido, para se ir tem de se receber. Nenhum dos entrevistados descreveu a parte de receber como uma experiência negativa – exceto João que fala de ter recebido algumas pessoas mais fechadas que apenas estavam lá a “ocupar espaço” – antes pelo contrário. Todos referem que, no geral, não houve quaisquer problemas e que gostaram de ter estudantes estrangeiros em casa apesar de, claro, todos serem diferentes uns dos outros – alguns mais simpáticos e comunicativos, outros menos. Rodrigo diz que foi interessante acolher do mesmo modo que foi acolhido e Maria refere que foi mais uma forma de entrar em contacto com outras culturas.

Erasmus na faculdade? Porque sim, porque não?
A maior parte dos entrevistados diz estar interessado em fazer Erasmus na faculdade, embora com algumas reticências. Isabel, por exemplo, menciona os elevados custos que a participação na experiência como estudante do ensino superior exige e Rita fala das incompatibilidades entre o seu curso no ensino português e no ensino estrangeiro. Beatriz M. e a Beatriz C. são as que parecem mais inclinadas a participar. Beatriz M. diz ter imensa curiosidade em ter uma nova visão do ramo que quer seguir num país diferente e Beatriz C. confessa ter saudades do sentimento de “ir à descoberta” e de não saber aquilo que a espera, para além de referir a possibilidade de um dia ir trabalhar para fora.

Em conclusão, todos os jovens entrevistados ofereceram, no geral, um parecer bastante positivo em relação à participação no projeto Erasmus, que será compatível com a opinião de tantos outros que passam pela mesma experiência. Podemos aferir, sem dúvida, que é uma grande abertura de horizontes.

Escrito por: Beatriz Gouveia Santos

Editado por: Cláudio Nogueira

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