A Estante – “O Menino de Cabul”, um espelho do Afeganistão

A rubrica “A Estante” está de volta e com ela a obra “O Menino de Cabul”, um livro de 2003, escrito pelo médico e romancista afegão Khaled Hosseini.

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A história acompanha, na primeira pessoa, várias etapas da vida do protagonista – Amir.
Primeiro, a sua infância em Cabul, capital do Afeganistão, durante os anos 70. Infância esta que é marcada pelos inúmeros esforços do personagem principal para deixar o pai, Baba, orgulhoso e pelo estreito laço de amizade e confiança que o mesmo mantém com Hassan, o filho do criado da casa que tem um singular lábio leporino e que é de etnia hazara – ao contrário de Amir e de Baba, que são pastós.

Porém, esse laço de amizade entre as duas crianças é violentamente quebrado quando ambas atingem a pré adolescência devido a um atroz acontecimento – potenciado por Amir – que leva a que o menino hazara e o seu pai tenham de deixar Cabul.

Em seguida, temos um salto no tempo que nos leva à altura em que o próprio Amir, já com 18 anos, e o seu pai têm de abandonar o Afeganistão, devido ao clima de conflito que se tem vindo a instalar no país, indo viver para os Estados Unidos. As seguintes páginas retratam a juventude do protagonista na América, marcada pela sua graduação, pelo seu casamento com Soraya Taheri, uma jovem afegã filha de um ilustre general, e pela morte de Baba.

Depois disto há, mais uma vez, um avanço no tempo que nos leva ao ano de 2001, no qual Amir é já adulto e um escritor de sucesso instalado comodamente na América. Contudo, esta comodidade é abalada quando recebe um telefonema de Rahim Khan – um grande e fiel amigo do seu pai – que lhe confia uma importante missão que só pode ser realizada com uma ida ao Afeganistão, país que está agora em guerra e ocupado pelos talibãs.

Com bastante relutância, Amir acaba por aceitar o desafio que lhe foi proposto e parte numa imensa e perigosa aventura, na qual arrisca a sua integridade física e a sua vida, e que tem como cenário o seu devastado país natal. No final do livro, percebemos que tal risco valeu a pena porque a tal missão foi nobremente cumprida.

Todo este percurso de Amir é fortemente influenciado e marcado por Hassan. Ainda que o nosso protagonista tivesse apenas 13 anos quando viu o rapaz do lábio leporino pela última vez, o remorso e a dor que este sente por ter sido o principal culpado da partida do amigo acompanham-no durante toda a vida.

Na minha opinião, este é um dos melhores livros que já li. Não só pelo facto do seu enredo ser extremamente genuíno e cativante mas também por se tratar de uma autêntica enciclopédia do Afeganistão e da cultura afegã. Khaled Hosseini apresenta-nos uma visão em primeira instância daquilo que são os costumes, as tradições, os valores e o modo de vida do povo afegão ao longo do tempo.

É-nos, também, possível, a perceção de dois importantes contrastes. Primeiro, o enorme contraste entre a cultura e o modo de pensar dos afegãos – em todas a épocas retratadas – e a cultura e o modo de pensar dos ocidentais. São dois polos totalmente opostos, tanto a nível de religião como ao nível de princípios – por exemplo, no Afeganistão, os conceitos de “sangue” e de “família” têm bastante mais importância e relevância do que no mundo ocidental. Depois, temos o incrível e trágico contraste entre aquilo que era a Cabul dos anos 70 – uma cidade, aparentemente, aprazível, onde as crianças brincavam, corriam e faziam os seus torneios de papagaios livremente e onde os adultos conviviam animadamente em grandes festas e jantares – e a Cabul dos anos 2000 – cidade altamente destruída, ocupada pelos talibãs e inundada pela fome, pela miséria, pelo terror, pela exploração infantil e pela vulgarização da morte com, por exemplo, execuções de pessoas adúlteras durante os intervalos dos jogos de futebol.

Temos também a oportunidade de aprender sobre uma marginalização étnica da qual pouco ou nada se fala cá para os nossos lados. A marginalização dos hazaras. Os hazaras são uma etnia oriunda do alto interior da Ásia e minoritária no Afeganistão. Geralmente, ou trabalham como criados dos pastós, a etnia dominante, ou são injuriados e descriminados pelos mesmos.

“O Menino de Cabul” é uma autêntica obra de arte e um precioso marco da literatura contemporânea. Recomendo a qualquer pessoa não só a leitura deste livro, mas também a visualização do filme de 2007 que nele foi baseado e adaptado fielmente aos ecrãs.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do Desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Beatriz Gouveia Santos

Editado por: Cláudio Nogueira

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