Ser jovem lá fora: Entrevista a jovens de sete países diferentes

Desde pequena que me interesso bastante por geografia e que tenho bastante curiosidade em saber como é a vida e a cultura nos outros países. Até agora, ao longo dos anos e graças aos projetos de intercâmbio, às viagens que fiz e à enorme comunidade de fãs a que pertenço, tive o prazer de contactar com pessoas de várias nacionalidades e de várias culturas diferentes.Posto isto, achei que seria extremamente interessante fazer pequenas entrevistas a amigos meus de países diferentes, onde eles falam sobre tópicos como a sua rotina diária, os seus passatempos, a sua relação com a religião, o sítio onde vivem, as obrigações que têm em casa, a visão que têm do seu país e os seus sonhos e planos para o futuro. Sete jovens – entre os 17 e os 21 anos – de sete lugares diferentes do mundo. Ao logo das entrevistas, foi possível saber um pouco mais acerca de como funcionam as coisas nestes países e comparar que diferenças têm e que pontos têm em comum. Apenas foram identificadas nas fotografias, as pessoas que assim o autorizaram.Design sem nome (5) 

Vishu, da Índia

Vishu: “A minha rotina diária é bastante simples. Acordo às oito da manhã, saio de casa às dez para ir às aulas e regresso às cinco da tarde. Depois de chegar a casa, durmo durante uma ou duas horas. Quando acordo, uso um pouco o meu telemóvel e a seguir vou jantar. Depois de jantar gosto de ir passear ao parque e faço os meus trabalhos de casa.

No meu tempo livre gosto de assistir e jogar futebol e de ver e editar clips de jogos antigos. De momento, estou a viver num hotel para estudantes. O meu quarto é completamente mobilado e partilho-o com outro rapaz.

Apesar dos meus pais serem hindus, eu não sou religioso nem sigo quaisquer regras religiosas. A visão que eu tenho do meu país não é assim muito boa. Acho que existe muita corrupção. As pessoas são diferenciadas pelas castas a que pertencem. Por exemplo, as pessoas de uma casta inferior – o que corresponde a cerca de 10 a 20% da população – têm reserva em todo o lado, o que dificulta a admissão dos restantes habitantes em empregos e em certas faculdades. A Índia só é democrática no nome. Honestamente, eu não gosto de viver aqui, embora goste da comida. Gostava de viver na Europa ou na Austrália, visto que são zonas do mundo onde há paz e um melhor estilo de vida.

Não tenho muito a dizer sobre a juventude indiana, mas, pelo que vejo, todos querem ir para o estrangeiro. Isto deve-se ao facto daqui haver poucas oportunidades. As despesas estão a aumentar mas a fonte de rendimento não muda.

No futuro, quero trabalhar para uma companhia de videojogos. Quero tornar-me um designer 3D e gostava de criar um jogo (um sonho bastante grande). Não vai ser fácil, pois há muita competição e muitos artistas incríveis. Mas vou dar o meu melhor para chegar onde pretendo.”

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Ward, da Bélgica

Ward: “Um dia na minha vida é assim: geralmente, acordo às 7h:15 da manhã e tomo o pequeno almoço com a minha família. Saio de casa e vou de carro para a escola, que fica a 10km de distância. De manhã, as minhas aulas começam às 8h:45 e acabam às 13h, tenho 3 intervalos de 10 minutos. Almoço por volta das 13h:15 e à tarde tenho aulas das 14h às 16h. Depois, chego a casa por volta das 16h:30 e faço os meus trabalhos de casa. Nos dias em que tenho futebol, janto por volta das 18h:15. Nos outros dias janto por volta das 19h:30. À noite, vejo televisão com a minha família. Às 10h da noite, vamos para os nossos quartos. Costumo ficar a falar por mensagem com os meus amigos durante cerca de uma hora e depois vou dormir.

No meu tempo livre, gosto de ouvir música, jogar futebol e ténis, embora pratique este último mais durante o verão. Também gosto de ir com a minha família visitar os meus primos, que vivem perto da costa.

Eu vivo numa moradia com os meus pais, a minha irmã mais velha e o meu irmão mais novo. Temos certas regras cá em em casa. Não podemos entrar com os nossos sapatos calçados, nem usar os nossos telemóveis durante as refeições. Depois de jantar, temos de meter os nossos pratos e copos na máquina de lavar a loiça. Às vezes esta tarefa tem de nos ser requisitada previamente, mas normalmente não há problemas.

Os meus avós são pessoas muito religiosas. Quando eu era pequeno, tinha de ir à igreja todos os domingos, mas eu não gostava muito daquilo porque não gostava de tomar a óstea. Não sou uma pessoa muito religiosa. Talvez dantes, mas agora já não.

Para mim, a Bélgica é um país fantástico, embora um pouco atarefado de mais. As pessoas que aqui vivem, apesar de bastante amigáveis, focam-se demasiado no trabalho. É necessário tirarem algum tempo para descansar e aproveitar a vida.

Por outro lado, a geração mais jovem tenta aproveitar a vida o máximo possível. Os jovens belgas gostam muito de sair à noite e de ir a festas com os amigos. Infelizmente, muitos deles começam a consumir álcool e a ficar bêbados muito cedo. A lei só permite o consumo de álcool a partir dos 16 anos, mas muitos cafés não pedem identificação, então é comum ver miúdos de 14 e 15 anos a beber.

Porém, a Bélgica tem, definitivamente, muitas coisas positivas. Aqui há muitos médicos e se alguém precisar de cuidados tem sempre sítio onde ir. Também fomos nós os inventores de várias coisas, entre elas as batatas fritas, a cerveja e o chocolate. Os belgas são pessoas muito pacientes e adoram crianças, as crianças são certamente aceites pela sociedade. Graças ao sucesso da nossa seleção nacional, a Bélgica é também um país muito desportivo.

No futuro, eu gostava de ajudar pessoas doentes e garantir-lhes os cuidados necessários. Não sei se vou continuar a viver aqui porque a carga de trabalho é enorme. O curso de enfermagem demora quatro anos para ser concluído, algo que não vai ser assim tão fácil de alcançar. Mas vou dar o meu melhor. “

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Nour, do Líbano

Nour: “Nós, os libaneses, somos pessoas muito frugais. Dedicamos o nosso tempo às colheitas e à criação de animais. A maior parte das nossas refeições provém do nosso trabalho. Geralmente, fazemos três refeições por dia, às 11, 14 e 19 horas. Praticamente todas as crianças e adolescentes vão à escola e quando a terminam mudam-se para lugares mais urbanizados a fim de continuar os seus estudos na universidade.

Nós, os mais jovens, gostamos de passar o tempo nos campos e de ajudar os nossos pais com as colheitas. Também gostamos muito de desporto – cada cidade tem as suas próprias equipas e há competições todos os anos. As casas são todas perto umas das outras, os nossos vizinhos são como se fossem parte da nossa família, partilhamos tudo uns com os outros.

Aqui, há muitas pessoas de muitas religiões diferentes e com diferentes tipos de orações, mas felizmente vivemos todos em harmonia e respeitamo-nos mutuamente, em vez de entrarmos em conflito.

Eu acredito que o meu país é um dos melhores do mundo e tenho orgulho em fazer parte dele. O Líbano pode ser pequeno, mas é um país com um enorme coração, para além de ter vistas fantásticas. Sinto-me segura perto dos meus amigos e da minha família e tenho muita sorte em tê-los.

Acho que os restantes jovens libaneses sentem o mesmo que eu em relação ao seu país e acreditam que podem fazer dele um lugar melhor. Contudo, e infelizmente, muitos deles são demasiado viciados nas novas tecnologias e preferem jogar videojogos em vez de fazer atividades ao ar livre.

Sonho com uma zona anti-guerra para o meu país. O meu país já teve muitos dias maus e a guerra mudou muitas coisas aqui. Não é fácil que todas essas feridas se desvaneçam num segundo, mas tenho a fé e a esperança de que tudo vai melhorar.”

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Javi, de Espanha

Javi: “Levanto-me às 7h:30 e não costumo tomar o pequeno almoço. Depois de me lavar e de me vestir saio de casa e apanho o metro até à universidade. São nove estações, o que demora mais ou menos 30 minutos. Normalmente, almoço por volta das 13h ou 13h:30 se sair mais tarde das aulas. Quando chego a casa, durmo um pouco, mais ou menos uma hora e meia. Quando me levanto vou dar um passeio e como qualquer coisa. Depois faço os trabalhos de casa e quando termino vou ver televisão ou jogar no telemóvel até à hora de jantar. Antes de dormir, vejo todos os dias a série Aída que é a minha série preferida.

O que mais faço no meu tempo livre é ler notícias – principalmente notícias desportivas – para estar informado, utilizar o telemóvel e as redes sociais e sair para fazer uma caminhada, geralmente de 30 minutos.

Moro com os meus pais as minhas principais obrigações em casa são garantir que tenho tudo arrumado antes de ir para as aulas e ser amável com eles. Não tenho nenhuma religião, não sou religioso.

Acho que Espanha é um bom lugar para viver. Gosto de viver aqui, apesar de haver muitas coisas que devem ser melhoradas, nem tudo é perfeito. No entanto, não me vejo a viver noutro sítio. Vivo aqui desde que nasci e viver noutros países com outros idiomas seria algo difícil para mim.

Não gosto da juventude do meu país. Muita gente fuma, bebe álcool e consome drogas ilegais. Eu, obviamente, nunca experimentei (nem pensei sequer experimentar) nada disso, mas dantes tinha muitos amigos que o faziam e que ainda o fazem.

O meu maior sonho é ser jogador da NBA, mas isso é praticamente impossível. Gostava de ser biólogo marinho, o que também vai ser muito difícil porque é preciso estudar e saber muito de matemática, física e química, que são áreas que eu não domino assim muito bem.”

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Amelia, da Grécia

Amelia: “Faço a minha primeira refeição do dia às 7h:40, nos dias em que tenho escola e a nenhuma hora específica aos fins de semana. Normalmente, não como nada até às 13h:30 ou 14h:15, depende da hora a que a minha escola acaba, o que eu sei que não é propriamente correto. Costumo ser eu a cozinhar as minhas refeições.

À tarde como fruta e nozes. Janto por volta das 20h:30 ou 21h:30, nesta refeição costumo comer salada, ovos ou leite com cereais. Em suma, isto tudo é o que eu como durante os dias de semana, mas às vezes vou variando. Depende daquilo que me apetece no momento, também posso fazer algumas pequenas refeições intermédias.

Sou uma pessoa religiosa. Na minha família, somos ortodoxos, como a maior parte da população grega. As coisas mais comuns na minha religião são ir à igreja todos os domingos de manhã e as orações. Todas as manhãs, na escola, temos uma “oração de equipa”. Depois disso, cada um pode rezar quando quiser e quando achar que precisa.

Não acho que as regras da minha religião sejam muito rígidas. Por exemplo, às quartas e sextas não como carne – uma regra que nem toda a gente segue. Também há uma regra que nos proíbe de comer carne e laticínios alguns dias antes do Natal ou da Páscoa. Geralmente, cada pessoa faz este jejum durante os dias que entender, embora seja particularmente repreendido comer carne na semana sagrada da Páscoa.

Falando sobre o que gosto na Grécia, eu diria que adoro o meu país e que adoro viver aqui. Não sei se conseguiria viver noutro lugar do mundo. Talvez fosse interessante viver num sítio diferente durante um determinado período de tempo, mas tenho a certeza que acabaria por voltar sempre ao meu país, o meu país que adoro tanto. Adoro o clima, a natureza, os lugares. Na minha opinião, a Grécia é o país que tem os lugares mais fantásticos, e a história e influência mais notáveis. Mas também há coisas aqui que não gosto. Os políticos deviam ser julgados. Eles têm vindo a falhar durante vários anos. Há problemas económicos e o sistema educacional também não funciona bem. Porém, no geral, a Grécia é um país maravilhoso, apesar de haver pessoas que fizeram asneira.

No futuro, depois de terminar a escola, gostava de ir para uma universidade que me interesse e desfrutar do meu tempo lá. Por essa altura, estarei a viver noutra cidade, o que vai ser algo novo e difícil no início. Mas toda a gente passa por esse tipo de coisas, portanto quem sou eu para não passar pelo mesmo. Durante este período de tempo, quero realizar o meu sonho de visitar Barcelona, ver o Camp Nou, explorar esse presente de Deus e ver o meu ídolo, Lionel Messi. Este é, literalmente, um sonho pelo qual eu vou fazer todos os possíveis para o tornar realidade. Também adoraria visitar outros países e partes do mundo e de estar em contacto com diferentes culturas. Os sítios que me interessam mais são a Holanda, a Irlanda, a Islândia, a Dinamarca e a América do Sul.”

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Julfiker, de Bangladesh

Julfiker: “Acordo às seis da manhã, faço a minha oração matinal e depois preparo-me para ir para as aulas, que começam às 9h:15. Terminam a horas diferentes, dependendo do dia. Tomo o pequeno almoço às 7h:30, o almoço às 13h:40, o lanche as 18h e o jantar às 21h.

No meu tempo livre, gosto de jogar futebol e jogos online, de ler livros e de gerir a minha fanpage do meu futebolista preferido, Mesut Özil. O meu maior hobby é o design gráfico.

Moro com o meu pai num edifício comum de três andares, muito parecido a tantos outros do sul da Ásia. Recentemente, a minha irmã mais velha veio viver connosco por causa da escola do meu sobrinho. A minha mãe não vive connosco a tempo inteiro porque trabalha noutra cidade. Costuma estar cá em casa desde quinta à tarde até sábado de manhã. Não tenho assim muitas responsabilidades em casa.

Sou muçulmano. A autenticidade da fé islâmica convence-me a sê-lo. O que também me encoraja a seguir esta religião são os milagres que podemos ver no mundo atual – o Corão fala de cerca de mil factos científicos que eram inimagináveis no século VII e, para além disso, seria impossível que um homem pouco letrado escrevesse um livro como o Corão por ele mesmo. Como muçulmano, declaro a minha confiança num, e apenas um, Deus absoluto e todo-poderoso (Allah em árabe, numa só palavra) e nos seus mensageiros, como por exemplo Muhammad, Jesus, Moisés, David e Abraão. Rezo cinco vezes ao dia, jejuo durante o Ramadão e faço caridade, tal como a minha religião me manda.

Gosto de viver no Bangladesh. Gosto de estar na companhia de pessoas que partilham a mesma cultura e a mesma língua que eu. Tenho muita liberdade, penso que não teria assim tanta liberdade noutro sítio.

A juventude do meu país é muito talentosa. Contudo, devido ao nosso sistema de educação defeituoso e à falta de orientação adequada, o talento de muitos dos nossos jovens acaba por não ser explorado. Quem vai para o estrangeiro – mais concretamente para países ocidentais – acaba por se dar muito bem. Temos o exemplo de Rececca Shafi, de Harbaed, Salman Khan da Khan Academy, Imran Khan do Snapchat e Jawed Karim do YouTube, entre muitos outros.

O meu sonho é tornar-me uma pessoa completamente independente. Quero concretizar algo por conta própria. Mas isso é quase impossível tendo em conta o ambiente do meu país.”

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Lúcio, do Brasil

Lúcio: “Hoje em dia, a minha rotina não é nada de especial. Acordo, faço a minha higiene pessoal e limpo a casa. Quando não estou com preguiça, faço refeições de 3 em 3 horas. No meu tempo livre gosto de jogar futebol e videojogos. Não sou uma pessoa extremamente religiosa.

Moro numa casa dita “normal”. A minha única obrigação é manter a casa limpa. Os meus pais são pessoas excelentes, tiveram uma juventude difícil mas conseguiram sair-se bem e tentam sempre dar o melhor que têm aos filhos. Não tenho nenhuma reclamação a fazer da minha casa nem do bairro onde moro, a maior parte dos meus familiares moram aqui e cresci aqui.

Contudo, se eu pudesse, gostava de ir viver para o Canadá. O Brasil é bom para os turistas, mas quem mora aqui sabe que a realidade é totalmente diferente. Por exemplo, os impostos aqui são absurdos. Não costumo observar muito as pessoas que não fazem parte do meu quotidiano por isso não tenho muito a dizer sobre os jovens brasileiros. Muitos gostam de jogar à bola, tenho alguns amigos meus que jogam e que também estudam ou trabalham.

Os meus sonhos são arranjar um novo emprego e fazer umas boas viagens.”

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Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do Desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Beatriz Gouveia Santos

Editado por: Cláudio Nogueira

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