Passaram 30 anos desde a queda do Muro de Berlim: Estaremos a construir um novo muro sem dar conta disso?

Fez ontem trinta anos que um símbolo de opressão e divisão, não só para a Alemanha, mas para o Mundo, foi quebrado. O leitor já deve saber a que acontecimento me refiro, bem, é exatamente o que está a pensar: a queda do Muro de Berlim.

Como muitos sabem, o Muro de Berlim foi construído a 13 de agosto de 1961 pela República Democrática Alemã, que era controlada pela URSS, uma força comunista. A Alemanha encontrava-se dividida e o Muro pretendia separar a República Federal Alemã, capitalista, da República Democrática Alemã, constituída pelo socialismo e comunismo, de modo a não ver os cidadãos orientais corrompidos pelas tentações do capitalismo, que pareciam trazer melhores condições de vida na visão de alguns que acabavam por fugir para o lado Ocidental. O Muro era composto por 66,5 km de gradeamento metálico, 302 torres de observação, 127 redes metálicas eletrificadas com alarme e 255 pistas de corrida para cães de guarda. A patrulha no muro era naturalmente socialista e tinha ordens para matar quem tentasse atravessar o Muro que veio a separar imensas famílias.

A 9 de novembro de 1989, após a República Democrática Alemã anunciar que as fronteiras iriam finalmente cessar atividade, milhares de cidadãos marcharam em direção ao muro. A falta de preparação por parte dos guardas que não tinham recebido qualquer tipo de informação fez com que a multidão saltasse o muro que acabou por ser em parte destruído pela euforia e revolta. A queda do famoso Muro de Berlim abriu caminho para negociações, com o intuito de reunir a Alemanha, o que aconteceu a 3 de outubro de 1990.

Os vestígios do muro que sobreviveram à exaltação daqueles que há tanto ansiavam por liberdade, fazem com que seja impossível à Alemanha e à cidade de Berlim esquecer a História que ali se fez. Para além de ser um ponto turístico é um lugar que nos relembra os atos de opressão que mancharam o país. 

Muitas pessoas continuam a celebrar a queda do Muro e a relembrar aqueles que morreram ao tentar atravessá-lo. Decorreram durante o dia de ontem, comemorações nas Portas de Brandeburgo, com um espetáculo que contou com a participação da atriz e cantora Anna Loos, que conta com um passado de fuga da Alemanha Oriental da época.

Voltando à História – toda esta contextualização pode parecer aborrecida e uma acusação de ignorância a algum leitor, porém, não se trata de nada disso. Trata-se apenas de um reavivar da memória e de uma garantia de que conseguimos refletir sobre o que se segue.

A nação alemã é realmente uma nação que foi, por um lado, espetadora, por outro, vítima de muita opressão, tanto pela presença da extrema-direita, com o período mais negro da história Alemã, a tomada do poder pelo Nazismo com Hitler na liderança, época em que muitos alemães apenas assistiram ao que acontecia enquanto outros eram desprovidos da sua nacionalidade e vida apenas por terem crenças diferentes ou por serem simplesmente diferentes, e temos depois a época em que se passou por uma aproximação à extrema-esquerda, com o Muro de Berlim, do qual acabei de falar, sendo separadas famílias só por viverem na parte da Alemanha que pertencia à Europa Oriental. Penso que esta é uma nação que nos exemplifica bem que as extremas não nos levam a lado nenhum, mas isso é uma conclusão a que cada leitor poderá chegar por si mesmo.

Temos acreditado na democracia e no equilíbrio dos ideais, mantendo estas imagens extremistas na sombra do nosso orgulho democrático e escondidas na nossa vergonha e arrependimento do passado. Atualmente a história é outra: as forças de origem mais radical, ou seja, extremistas, tanto as da direita como as da esquerda, com uma acentuação maior da direita, têm vindo a ganhar força na Europa.

Parece-me que os europeus ou sabem muito pouco de História, ou nada querem aprender com ela, pois parece que esta se está a repetir gradualmente. Temos  a extrema-direita que está a ganhar mais terreno, como afirmei, com partidos Nazis, que pintaram o passado de terror, e temos também partidos nacionalistas e conservadores não tão extremos, a afirmarem-se em outros países na Europa, como o Vox, em Espanha. Os EUA e o Brasil são já liderados por conservadores como Trump e Bolsonaro que defendem também o conservadorismo e nacionalismo, para além de apelarem ao ódio. A Rússia nunca saiu completamente do seu clima opressivo e temos o grave caso da Coreia do Norte e o da Venezuela. Todos ditadores, todos lá chegaram pelas chamadas extremas.

Infelizmente a Europa para lá caminha, iludida pela esperança de uma grande mudança, com cada cidadão a olhar mais para o seu umbigo do que para qualquer outra pessoa. Estas extremas que crescem, alimentam-se do medo, das desigualdades e das revoltas, prometendo outras soluções, pão, trabalho, e escondendo por detrás dessas promessas as suas posições radicais. Não vos parece familiar? O Hitler não prometia isso também? Tenho a admitir que ainda não chegámos a tais extremos, todavia, as ideias radicais estão por aí, e como já disse, crescem de dia para dia.

Já em Portugal, vejo uma inclinação para os dois lados, não só a aproximação de Ventura pela extrema-direita, mas a grande predominância da esquerda no governo, neste momento equilibrado. Deste modo penso que Portugal não é ainda dos países que se arrisca mais nestes caminhos mais radicais, porém algo está a mudar, o número de partidos está a aumentar com as mais variadas ideias.

Felizmente por enquanto nós, cidadãos europeus, ainda temos poder e liberdade, podemos manifestar-nos, podemos expressar-nos. Como jovem temo pelo meu futuro, já que parece que caminhamos para um que tem tantas possibilidades de ser inexistente. É apenas a minha mera opinião, mas deixo umas perguntas de reflexão aos leitores, aquele que decidem que votar não é para eles e que a pesquisa pelas ideias defendidas por cada partido atualmente dá muito trabalho. Estaremos a construir um novo muro sem dar conta disso? Que futuro é que queremos alcançar?

 

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Escrito por: Rafaela Boita

Editado por: Mariana Mateus

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