Os futebolistas também são humanos

Os futebolistas de alta competição têm salários exorbitantes. Muitos deles recebem até quantias bastante desproporcionais àquilo que dão em campo. Muitos deles nem sempre se esforçam durante os jogos, mas não é por isto que devem – ou podem, sequer – ser tratados como meros matraquilhos. São humanos, como todos nós o somos. Têm emoções como todos nós temos. E por vezes explodem, como todos nós explodimos quando nos provocam incessantemente. Tal como devem respeito aos adeptos, os adeptos também lhes devem respeito.

Aquilo que me fez escrever este artigo foi uma situação que se deu recentemente no futebol inglês. Unai Emery, treinador do Arsenal, decidiu retirar a Granit Xhaka, médio suíço de origem albanesa-kosovar, a braçadeira de capitão.

Na origem desta decisão está uma atitude que Xhaka teve durante um confronto contra o Crystal Palace, no qual foi capitão. Ao ser substituído aos 60 minutos, o jogador despiu furiosamente a sua camisola com o número 34 estampado e terá insultado um determinado grupo de adeptos.

À primeira vista, os atos do internacional suíço parecem ser extremamente desrespeitosos e reprováveis. Pois bem, acontece que, este só insultou os adeptos porque estes o estavam a insultar a ele. E – mencione-se – não eram insultos de qualquer calibre. Eram insultos particularmente insensíveis e cruéis, como por exemplo: “vamos partir as tuas pernas”, “vamos matar a tua mulher” ou “esperamos que a tua filha apanhe cancro”.

Posto isto, sou da opinião de que a atitude de Xhaka, apesar de poder ser reprovável, é completamente compreensível. Muitos dizem que o jogador não teve “a atitude de um capitão”, e talvez não tenha tido. Mas gostaria de perguntar a essas mesmas pessoas o que estas fariam se alguém lhes estivesse a dirigir tais insultos, a si e às suas famílias.

Para mim, o camisola 34 dos Gunners reagiu, até, de forma bastante passiva. Muitos jogadores, perante tais comentários injuriosos, poderiam ter adotado comportamentos bastante mais violentos, como gestos obscenos ou, em último caso, agressões aos adeptos em causa – como já aconteceu, por exemplo, com o jogador francês Eric Cantona nos anos 90, que aplicou um golpe de karaté num adepto que o estava a afrontar ou, mais recentemente, com o afro-italiano Mario Balotelli que agrediu um adepto que lhe estava a dirigir comentários racistas.

Não concordo, por razões desportivas, que Xhaka seja o capitão do Arsenal. Mas também não concordo que lhe tenha sido retirada a braçadeira por tal razão. Que pode um homem fazer quando é alvo de tais comentários acerca da sua esposa e filha? Será possível ignorá-los? O senhor Granit Xhaka é um ser humano, não é uma máquina. E, como tal, não ficou indiferente a tais factos.

A meu ver, os adeptos do Arsenal que foram os autores de tais injúrias, tiveram aquilo que mereciam. Nenhum deles tem o direito de contestar os atos de Xhaka. Aliás, vou mais longe e digo até que nenhum adepto tem o direito de contestar os atos de qualquer jogador – capitão ou não – semelhantes ao de Xhaka, que nem sequer tiveram qualquer caráter agressivo. Acima de capitão, acima de jogador, acima de Gunner, Xhaka é um simples homem. Tem de haver respeito mútuo entre os adeptos e os jogadores. Se um jogador é constantemente insultado – seja com comentários de índole pessoal, profissional, racista, ou qualquer outra – os adeptos não podem esperar, muito menos exigir, que este fique calado no seu canto a aguentar tudo. Temos de respeitar para ser respeitados.Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Escrito por: Beatriz Gouveia Santos

Editado por: João Rego

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