António Cordeiro: recordemos um pouco da carreira do ator

No sábado passado assisti a uma peça de teatro humorística intitulada “Ó Zé, Bate o Pé”, que teve como lugar de atuação a Casa da Cultura da Baía do Tejo, no Barreiro.

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António Cordeiro

A peça contou com vários sketches ilustrativos de situações cómicas que pretendem criticar de uma maneira bem humorada os vícios e os defeitos da sociedade portuguesa – algo que gerou, naturalmente, imensas gargalhadas entre o público.

Porém, por detrás de toda esta boa disposição, por detrás de toda esta sátira e de todas estas piadas de cariz boémio havia o objetivo de ajudar, angariar fundos e homenagear um grande ator português, um ator que apareceu durante anos a fio no ecrã das casas dos portugueses. Falo de António Cordeiro.

Cordeiro, nascido em Pias, no Alentejo, também ator de teatro, estreou-se na televisão portuguesa em 1987, ao encarnar a pele de um psiquiatra no programa “Duarte e Companhia”. Desde então, tem aparecido em inúmeras produções da RTP, da SIC e TVI. As mais sonantes serão talvez “O processo dos Távoras”, onde interpretou o rei português D.José I; “Morangos com Açúcar” e “Inspetor Max”, duas das séries que mais apaixonaram a juventude portuguesa; “Laços de Sangue”, uma telenovela da qual fez parte do elenco principal, vencedora de um Emmy e transmitida em vários países da Europa; e “Depois do Adeus”, uma série de drama do pós 25 de Abril. Conta ainda com participações nas produções cinematográficas “Os Olhos da Ásia” (1996) e “Índice Médio de Felicidade” (2017). De mencionar também que foi convidado por Daniel Oliveira a dar uma entrevista no programa “Alta Definição”, que é, muito provavelmente, o talk show mais prestigiado de Portugal. 

No entanto, de todos os seus papéis, o que mais me marcou foi aquele que interpretou em “Mar Salgado”. Aqui, António – que não tem filhos – dá vida à personagem “Henrique Pelicano”, o patriarca de uma família disfuncional, com quatro filhos já adultos, mas, a seu ver, problemáticos. O modo como interpreta Henrique é fantástico, pois consegue captar incrivelmente os sentimentos e emoções de um pai conservador preocupado e desesperado com as decisões de vida dos filhos de um modo bastante realista, mas, ao mesmo tempo, divertido. 

Infelizmente, recentemente, António viu a sua carreira interrompida devido a uma doença rara – Paralisia Supranuclear Progressiva – , doença que o incapacita de continuar a atuar. No final da peça, António subiu ao palco. Contudo, como é óbvio, já não é o mesmo António firme e determinado que todos nós vimos na televisão. Precisa de ajuda para andar, tem dificuldade em falar e um olhar circunspeto mas vazio.

Vê-lo assim emocionou-me. Via-o na televisão, desde que me lembro, a encarnar as personagens que representava com empenho e veemência, a falar sobre a sua vida e a sua carreira, cheguei até a conviver perto dele em algumas ocasiões. Vê-lo em tal estado fez-me refletir acerca da fugacidade e da injustiça da vida e do facto de não podermos tomar nada como garantido. Todavia, não esquecemos o nobre contributo que este senhor deu à televisão nacional nem o seu trabalho ao longo dos anos. Um nome que merece ser recordado e aclamado. Muito obrigada, António Cordeiro!

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Escrito por: Beatriz Gouveia Santos

Editado por: Júlia Varela

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