A arte da rua, fechada dentro de quatro paredes

Abriu ontem a exposição “Banksy: Génio ou Vândalo” que se estende até dia 27 de outubro. Banksy, artista britânico conhecido pelos seus graffiti de natureza crítica, cuja identidade é um enigma, não autorizou a realização da mesma.

Robert Galbraith

Robert Galbraith, Reuters

 

De acordo com o comissário da exposição “É completamente OK tanto do ponto de vista moral quanto do ponto de vista legal” (no artigo do Público). Do meu ponto de vista a moralidade é muito subjetiva. Pode ser moral para o comissário, mas o artista que deu vida às obras que estão expostas na Cordoaria Nacional, não partilha da mesma opinião.

Lisboa merece o destaque de Banksy no seu website. Ao entrarmos na página “Shows” (espetáculos) vemos o nome da capital portuguesa logo abaixo da palavra “FAKE” (falso). “Os membros do público devem estar cientes que tem havido uma recente onda de exibições Banksy, nenhuma das quais são consensuais. Todas foram organizadas inteiramente sem o conhecimento ou envolvimento do artista. Por favor trate-as como tal”.

A última frase, acompanhada por uma foto em que vemos cartazes de uma destas exposições com a palavra “FAKE” grafitada por cima, ecoou na minha cabeça. O descontentamento é evidente. Mas o que é que o artista pode fazer? Este é um dos pontos negativos do anonimato: é difícil chegarmo-nos à frente quando utilizam a nossa arte para lucrarem – não podemos dar a cara. Impõe-se então a questão “de quem é esta arte?” Será de Banksy? Das ruas? Dos moradores das mesmas, dos apreciadores ou dos donos das galerias? Será que há alguém que tem o direito de ditar quem pode ver e onde pode ver uma obra, para além de quem a criou? Será ético ir contra a palavra do criador? Independentemente da nossa resposta a esta pergunta, podemos concordar que não deve ser um dos melhores sentimentos ver um terceiro a beneficiar do nosso trabalho.

No livro de 2005 de Banksy “Guerra e Spray”, podemos ler “Copyright is for losers”. Será então esta onda de exposições um efeito perverso do reconhecimento a bater à porta? O karma derivado das suas palavras? No ano passado o artista partilhou na sua conta do instagram uma conversa onde um amigo o avisa acerca de uma exposição (parecida à que se encontra agora em Lisboa) que estava a decorrer em Moscovo. “Não podes divulgar um comunicado de imprensa?” pergunta o amigo, ao que Banksy responde “Não sei se sou a pessoa certa para reclamar por colocarem imagens sem terem permissão.”

Para mim,”Banksy: Génio ou Vândalo?” é um jardim zoológico – as obras são animais que, no final de contas, se encontram fora do seu habitat natural. São belos, sim, mas perdem a sua essência, a sua razão de ser. Este tipo de expressão artística é feito nas ruas, e ao retirarmos a sua real tela, estamos também a retirar conteúdo à obra, visto que o meio também faz parte da mensagem.

O artista, que várias vezes desafiou o sistema, não se consegue ver livre do mesmo. Em outubro, triturou uma das suas obras mais célebres “Girl with Balloon” após ter sido vendida por mais de 1 milhão de libras. Podemos questionar a autenticidade desta prank, se foi de facto um movimento de rebelião ou se uma tática em conjunto com o leilão para gerar polémica. Do que temos certeza é que esta obra tem agora um novo valor. A representação passou da tela, e todo o show proporcionado no leilão em Londres está associado à imagem, agora em tiras.

O meu propósito com este artigo não é, de todo, que os leitores se sintam desencorajados a visitar a exposição que nos permite conhecer melhor o artista que prefere ficar no anonimato. Acho que parte de cada um fazer uma reflexão e questionar se se sentem tentados a entrar no mundo de Banksy e como é que querem entrar nesse mundo.

Os bilhetes (individuais) para a exposição presente em Lisboa vão dos 6,36‎€ aos 13,78‎€. O visitante vai poder ver, para além de produções originais, esculturas, vídeos, fotografias e instalações.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Escrito por: Mariana Mateus

Editado por: Ana Mendes

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