The Desacordo Sessions – “FFFFFF” é Profjam em God Level

Foi um dos rappers que mais cresceu nos últimos anos em Portugal, é o CEO de uma das editoras mais importantes do nosso país, a Think Music, e depois de participar na Liga KnockOut e de lançar duas mixtapes, decidiu lançar o há muito esperado álbum: #FFFFFF. Falamos de Mário Cotrim, mais conhecido como Profjam.

Oriundo de Telheiras, “Prof” formou uma equipa de rappers e producers da nova geração que tem tomado conta do panorama nacional no que toca ao Hip-Hop, com nomes como Yuzi, Fínix MG, SippinPurpp, Benji Price, rkeat ou Lon3r Johny. A consagração do seu estatuto de self-made man chegou a dia 22 de fevereiro deste ano quando decidiu, em jeito de surpresa, lançar o álbum para as diversas plataformas de streaming.

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Mário Cotrim, nascido a 5 de junho de 1991, apresentou-se publicamente pela primeira vez na Liga KnockOut, uma competição de Hip-Hop, que colocava dois MC’s a batalhar um contra o outro. Profjam deu que falar neste formato mas cedo partiu para Londres para perseguir o seu sonho de tirar o curso de Produção Musical no SAE Institute (School of Audio Engineering).

Ainda houve tempo para, em 2014, se estrear com a mixtape “The Big Bang Theory”. Longe de ser um dos projetos mais conhecidos do rapper, TBBT conta ainda assim com alguns temas já clássicos, como Mambo Nr.1 com Mike El Nite, Contra Mim e Viciada.

Em 2016, já de volta a terras portuguesas, Profjam lança “Mixtakes”, uma mixtape já editada pela recente Think Music. É aqui que Prof se desafia a si mesmo, experimentando vários estilos como Trap Lo-Fi, ao mesmo tempo que “testa” a sua amplitude vocal em alguns temas. “Mixtakes” foi a afirmação de Profjam no espectro musical português, transportando a sua visão cheia de luz, metafísica e sabedoria para os ouvintes. Entre 18 músicas, podemos destacar Além, Queq Queres, 4 elementos e Sinestesia.

Pelo meio de alguns temas soltos como MortalhasMatar o Game, Yabba e Gwapo, Prof lança finalmente o seu primeiro álbum de estúdio: #FFFFFF. O feedback foi fantástico e o rapper promete subir a pique nos próximos tempos. Segundo o próprio, #FFFFFF é o código da cor branca quando falamos de programação, cor essa que por si só simboliza luz e sabedoria, duas premissas constantes nas músicas deste álbum.

A primeira de todas, À Palavra é o exemplo perfeito de toda a sonoridade deste álbum. Bastante musicalidade na voz de Profjam, principalmente no refrão, que é intercalada com flows mais rápidos e, como já é marca de Prof, contém um wordplay fenomenal.

“Como é que me puseste na Terra?
Eu sou uma fera, um monstro, um phantom
Já te disseram que essa merda foi um crime, Pai?”

Prof tem a noção que é “monstruoso”, ao ponto de questionar o próprio pai sobre o porquê de este o trazer à Terra. Tendo em conta que Prof é “uma fera, um monstro, um phantom”, o pai trazê-lo à vida não foi mais que um crime. Mais à frente, Prof faz um insight magnífico sobre a sua auto-realização:

“Vi que a minha mão ’tá ligada ao meu corpo
Que ’tá ligado à minha mind
Que ’tá ligada à minha soul
Que ’tá ligada ao Nosso Pai
Que ’tá ligado no Todo
Então se jogas na life tens sempre a mão no controlo!”

Aqui, Prof explica que a sua mão, enquanto instrumento que cria e trabalha, está logicamente ligada ao corpo dele, neste caso, o veículo material de criação neste mundo, que por sua vez está conectado à sua mente, de onde sai a inspiração, inspiração essa que advém de Deus e do Universo em si. Apesar da pirâmide de “influência”, Prof faz questão de referir que se “estás vivo” tens sempre controlo sobre as tuas ações, sobre aquilo que crias.

Na segunda faixa, Minha, é como se Profjam se justificasse, como se tal fosse preciso. Ele só sabe estar na dele, a dar-nos luz, a brilhar. Nós, enquanto ouvintes, identificamo-nos com a mensagem desta música, pois é como se Prof estivesse a falar connosco diretamente, a aconselhar-nos a criar e, não menos importante, a não soprar a nuvem dele.

Não nasci ‘pa ser perfeito!
Nasci ‘pa me tornar texto!
Nenhum sentido pr’além do sexto! 

Aqui, Prof diz que não nasceu para alcançar a perfeição, mas sim para se “tornar texto”, como se o verdadeiro Profjam se encontrasse no conteúdo das suas próprias letras. Se pensarmos no 6º sentido enquanto a capacidade transcendente de Profjam ser as suas próprias letras, “nenhum sentido pr’além do sexto” pode significar que se essa característica não existisse, a vida de Prof não faria sentido.

O tema seguinte foi o primeiro single do álbum. Lançado ainda no verão de 2018, Água de Côco rapidamente alcançou o topo dos charts portugueses e foi sem dúvida uma das músicas do ano no que ao Hip-Hop Tuga diz respeito.

Água de Coco simboliza algo clean mas que é leve em relação ao sabor, algo que Profjam se prontifica a negar. Quando diz “Já se mancou que isso é água de coco / E sabe-lhe a pouco“, Prof não diz necessariamente que isso é algo mau mas sim que lhe sabe a pouco, tendo em conta que o próprio Profjam outrora já foi, musicalmente falando, “Água de Coco”.

Neste momento, Prof identifica-se como:

“(…)eu sou a chama que apaga e que arruma essa Água de Coco 

…ou seja, apresenta-se com um estilo mais fogoso e até agressivo, que põe de parte e “arruma a um canto” o que é leve de digerir/ouvir.

Numa vibe mais Afro, Na Zona é a quarta faixa do projeto e é uma das músicas mais convidativas, não só pela melodia bastante dançável (que os sons africanos já intrinsecamente albergam) mas também pela letra que se nota ser emotiva e bastante pessoal.

“Nem abro os meus olhos ’tou c’os meus putos a queimá-la
Entrando num coma enquanto a mente trippa sem mala
Se der a fome, bafa nite só ‘pa enganá-la,
Hoje só paro quando eu tiver a passar bem mal ya
” 

Esta música remete para uma altura mais tóxica da vida de Mário Cotrim, em que este estava “cego”, em que pouco o interessava se não drogas, álcool e estar com os amigos. Enquanto a mente de Mário “tripa sem mala”, ou seja, em drogas e sem qualquer preocupação do que ficou para trás, este vai metaforicamente entrando em coma, alienado da realidade, e só parará quando algo de mal realmente acontecer.

Esta realidade está bastante presente ao longo da música em versos como “bem fumado na zona”, “Talha na língua, a pingar de saliva a cola / Do verde ao cinza enquanto o neurónio descola” ou “Mêmo‘ assim o que eu mais quero é maconha enrolada!“.

No entanto, a música termina com a mensagem do Mário Cotrim resiliente que ultrapassou essa fase e hoje venceu na vida:

“Viciado na zona, isso é metadona,
Não vingas com vinho à toa
Ilumina, caminha e voa
Tu brilha e manda ir embora quem interfira, boy tu sonha
Não tires a tua boina, o sol também queima a essa hora…
Um homem não chora só melhora a vida fora,
Não percas o norte do teu barco nessa water
Se tu ’tás perdido não há mapas no fim da bottle
Quebra o ciclo, acorda, agora…

De seguida, ponham-se à vontade porque Profjam levar-vos-à numa viagem introspetiva e bastante emocional na quinta faixa intitulada justamente, À Vontade. Se são daqueles que dizem que a música com auto-tune perde qualidade, oiçam esta música para desconstruir tais teorias.

O tema, o último a sair antes do álbum, depois de Tou Bem e Água de Côco, conta com a participação de Fínix MG e a sua voz irresistível, com uma dicção de invejar muitos rappers. Em À Vontade, Prof faz uma homenagem à pessoa mais importante da sua vida, a sua mãe:

“Só quero pôr a minha cota à vontade
‘Tava tarde
Já ’tá quase!

Numa das músicas mais apelativas do álbum, onde cabem referências geniais como a Eridu (“Tropa eu vim de Eridu!”), antiga cidade hoje localizada no Iraque, com destaque na mitologia suméria por ser a primeira cidade do mundo antigo e a “Cidade dos Deuses”. No verso de Fínix, o rapper do Cacém diz que:

O E.T. que se misturou, eu devia ter ficado na plantação de trigo”

…remetendo para o filme de 1982, “E.T.: O Extraterrestre”, em que um alien se mistura com os seres humanos, o que dita mais tarde a morte do mesmo. Fínix compara-se a esse extraterrestre e diz ainda que este, tal como o rapper se diferencia do que o rodeia, também “devia ter ficado na plantação de trigo”, onde a personagem Elliot o encontra pela primeira vez, alienado do mundo humano que o rodeava.

Não iremos analisar todas as músicas do álbum mas não podíamos deixar passar Malibu, um dos temas que mais bomba nos carros e nas colunas de momento. Como é sabido, “FFFFFF” foi gravado em Los Angeles, Califórnia, e Malibu não só representa uma cidade em LA, conhecida pelas imensas praias paradisíacas, mas apresenta-se também como parte de um wordplay fantástico com a expressão “molly pool”, 

Molly é um termo usado para o Ecstasy, que é conhecido por ser uma droga eufórica, para um clima de festa, clima esse em que Profjam se encontra, já no fim do álbum, como numa analogia para os momentos finais do trabalho árduo que teve neste projeto. Numa vibe mais africana novamente, a penúltima música do álbum é também a consagração de Prof, como podemos ver em versos como:

“Farto da conversa que mudei mano  
É claro puto, é facto que mudei o game 
É chato o mundo ainda ter quem se acanha
‘Tou na Estrada do Sucesso tipo o Rei”

De facto, Profjam “mudou o game”, sendo hoje um dos rappers mais conceituados e respeitados em Portugal e já a dar cartas também no estrangeiro. Foi um dos pioneiros deste trap mais agressivo dentro de portas, mantendo sempre o seu registo metafísico e cósmico. “FFFFFF” apresenta também uma mudança naquilo que é o próprio Mário Cotrim, com preocupações e objetivos bem definidos, como a família, a mensagem que transmite para as novas gerações ou a própria auto-realização.

Podíamos fazer um artigo extensivo sobre todas as faixas do álbum mas nem isso faria jus a uma das obras-de-arte do ano dde 2019, no que toca ao Hip-Hop tuga. Se Deepak Looper foi um dos álbuns de 2018, “FFFFFF” será com toda a certeza um dos álbuns do ano de 2019 e ainda nem vamos a metade.

A apresentação do álbum no Porto esgotou para esta sexta-feira, dia 15 de março, mas sábado, dia 16, haverá outra sessão, também no Hard Club. Para Lisboa está reservado o dia 5 de abril, no Capitólio e os bilhetes podem ser adquiridos na Blueticket.

Classificação TD Sessions: 8.5/10

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Escrito por: Bruno André

Editado por: André Blayer

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