Green Book – Um Guia Feito Para os Óscares

Realizado por Peter Farrelly, “Green Book – Um Guia Para a Vida”, venceu na madrugada de segunda-feira o Óscar de Melhor Filme. Anteriormente à cerimónia não existia consenso relativo ao prémio, sendo que os holofotes variavam entre “Roma” e “A Favorita”, que venceram nos BAFTA (Melhor Filme e Melhor Filme Britânico, respetivamente) e “Bohemian Rhapsody” e “Green Book – Um Guia Para a Vida”, que levaram para casa o Globo de Ouro (Melhor Filme – Drama e Melhor Filme – Comédia ou Musical, por essa ordem). A entrega da estatueta mais ambicionada da noite acabou por ser uma surpresa para muitos. Mas será “Green Book – Um Guia Para a Vida” realmente digno de Óscar?

A longa-metragem, baseada em factos reais, trata a história de um intelectual pianista negro, Don Shirley (Mahershala Ali), e de um descendente de italianos sem maneiras, Tony Vallelonga (Viggo Mortensen), que é contratado para ser seu motorista e, pelo facto de seguir numa digressão para o sul dos EUA na década de 60, também seu guarda-costas.

Com o desenrolar do filme, vamos acompanhando a jornada conjunta das duas personagens e como se moldam uma à outra. A inspiração para o nome advém de um livro, The Negro Motorist Green Book, que na altura servia para orientar os negros quando (e caso) viajassem pela América. Don Shirley é proibido de entrar em certos locais, restringido a ficar em determinados hotéis, impedido de usar algumas casas-de-banho e obrigado “recolher” a horas específicas.

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A simplicidade é a chave do filme. A palete de cores é repleta de azuis e verdes pastel, encontrando aí um equilíbrio perfeito. Os diálogos marcam pelo cómico e pela leviandade – em parte suportada pela atuação de Viggo Mortensen, que encarna a sua personagem de modo estereotipado e carregado de tiques culturais – mas não deixam de refletir, mesmo que de modo superficial e enviesado, sobre a história da segregação racial dos EUA e dos problemas enfrentados na época. Sejamos sinceros, caso fosse tomada outra abordagem que não esta, a obra dificilmente chegaria onde chegou. É um filme criado para os grandes ecrãs que facilmente agrada à maioria, sem grandes floreados e fácil de compreender.

O que serve como alicerce são as performances dos dois atores. Por um lado, a já referida caricata interpretação de Viggo Mortensen. Por outro, o desempenho de Ali, que arrecadou o Óscar para Melhor Ator Secundário, carregada de elegância, charme e delicadeza, conseguindo mesmo assim dar mostras da sua vulnerabilidade e sofrimento.

Em suma, “Green Book – Um Guia Para a Vida”, dá-nos uma visão pouco aprimorada sobre o racismo. O ponto de vista predominante acaba por ser o da personagem principal, Tony Vallelonga, um homem branco. Reflete, de facto, sobre um assunto e uma época relevante, mas é de tal modo dirigido para a Academia que perde o seu propósito por aí.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Margarida Gama

Editado por: Daniela Carvalho

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