Ser diferente não é ser bom: acontece que Conan Osíris é ambos

Conan Osíris, alter-ego musical de Tiago Miranda, é talvez a maior revelação do Festival da Canção de 2019, tendo ficado em primeiro lugar na escolha do público e em segundo na derradeira classificação da primeira semifinal da edição deste ano do concurso. O tema apresentado, Telemóveis (que já alcançou mais de 1 milhão e meio de visualizações no YouTube), foi bastante elogiado a nível internacional e, em Portugal, pasme-se, foi altamente ridicularizado, incompreendido e vítima de comparações infelizes com Maria Leal, Tino de Rãs e até Netta (vencedora da última edição da Eurovisão). A música de Conan tem conteúdo e talento, venceu na escolha pública e, pela Europa fora, é visto como um dos candidatos mais fortes a vencer o Festival, então, quis tentar perceber o ódio perpetrado pelos seus conterrâneos: os portugueses. 

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Conan Osíris no Festival Iminente 2018. Fotografia por: Daniela Carvalho

Antes de entrar a fundo nesta análise do comportamento que a sociedade portuguesa (grande parte oriunda do Facebook, do Twitter e do Estado Novo) tem tido para com o artista, gostava de apresentar um ponto de partida que pode ser interessante.

Em 1917 é criada em França uma peça de arte peculiar: um urinol de porcelana branco, virado ao contrário, que hoje está avaliado em cerca de 3 milhões de euros. Foi criado por Marcel Duchamp, pintor, escultor e poeta francês, ao abrigo da então mais recente e controversa corrente artística: o Dadaísmo.

O “Movimento Dada”, criado em Zurique por alguns militares desertores do exército alemão, propunha-se a criar “anti-arte”, baseada no caos, na desordem, no aleatório, recorrendo muitas vezes a objetos/elementos de pouco valor. Este movimento foi criado (atente-se agora) com vista a confrontar e provocar a classe burguesa da época.

Ora, não digo que Conan Osíris é um dadaísta (se calhar até pode ser), mas as semelhanças são inúmeras. Nem o mais consensual e banal tipo de arte é apreciado por toda a gente, é certo, mas parece que esta combinação de uns VaporMax Plus com Kimonos, maquilhagem, pimba, rock e dança contemporânea, afeta muita gente neste pequeno cantinho da Europa.

Ainda nos é difícil aceitar algo que não seja convencional, algo que não seja para as massas, defendendo-nos sempre com o argumento “a minha opinião não pode ser contrariada”, mesmo que seja a ridicularizar um artista, de maneira superficial. O Dadaísmo cá não funcionava, ou só funcionava para o que dava jeito.

Conan Osíris pega em elementos banalíssimos, aleatórios e, ao mesmo tempo, desconcertantes, em letras como “solta os cães e traz o lixo”, “ver se era uma encefalite” ou “eu parti o telemóvel”, junta-os numa miscelânia de sons característicos de várias culturas, como kizomba, pimba, música indiana e latina e rock. Para completar, adiciona o visual que sempre caracterizou o Tiago Miranda, que desde cedo gostou de surpreender através do que vestia ou calçava e de como se apresentava, tudo de uma forma humilde.

Não é por ser diferente, misturar muitos géneros musicais e vestir-se de maneira extravagante que Conan é bom músico, assim como isso também não faz dele um artista ilógico, gozão, e que não deve ser levado a sério nem respeitado. Podíamos fazer uma análise inteira aos seus álbuns (que já são dois mais uma mixtape) e a todas as metáforas presentes naquilo que, numa análise superficial e retrógrada, parece ridículo e descabido.

Nem toda a gente gosta e isso não é, nem nunca foi, um problema para este debate, mas sim as justificações apresentadas. É sempre perigoso dizer-se que não se gosta com esta visão enviesada e adulterada do artista, porque as nossas justificações para não se gostar saem também adulteradas, muito por causa do meio que nos rodeia, que nos ajuda a abraçar essa ideia que se trata de algo irrisório, mas também por causa de uma prontificação automática para o ódio e o deboche que nós, portugueses, temos como característica. Foi assim com Salvador Sobral, e é assim com Conan Osíris.

Grande parte da malta que critica Tiago Miranda e João Reis foi apanhada desprevenida com esta música para o Festival da Canção, então, pareceu-lhes realmente algo descabido. Basta pesquisar um pouco sobre o reportório de Conan para perceber que é compromisso dele levar esta nova musicalidade ao mundo, com o nome de Portugal aliado ao seu próprio nome. Não existe nada de mal na escrita de Conan, e isso é facto.

Conan foi também vítima de comparações infelizes com Maria Leal e Tino de Rãs e, por mais irónico que pareça, com Netta, autora de Toy, tema vencedor do ano passado da Eurovisão. Pergunto-me, se Maria Leal ou Tino de Rãs são assim tão próximos daquilo que é Conan Osíris, o que dizer de Homens da Luta, que nos representaram em 2011? Não é uma memória assim tão distante e lembre-se que A Luta é Alegria ficou em sexto lugar na final do Festival da Canção, dando o salto para o primeiro lugar através da votação……do público.

Posto isto, quem será mais ridículo? O que rebaixa e ofende Conan Osíris, mas que no entanto apoia, literalmente, uma banda de “gozo” e paródia para nos representar no maior festival de música da Europa, ou o artista que transportou as suas vivências para o papel, para os instrumentos e para os visuais que alia à sua música? Para os que gostam das comparações desmedidas, permitam-me também uma, se bem que talvez menos hiperbólica: lembram-se de António Variações, certo?

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Bruno André

Editado por: Daniela Carvalho

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