Dois Dedos de Música com Chórus Águrus Orchestra

Francisco Madureira (Xico Zé) na guitarra a solo, Paulo Lopes (Fatinha) na bateria, Miguel Bento na guitarra rítmica, Gonçalo Poeiras no baixo e Gonçalo Ícaro na voz. São os Chórus Águrus Orchestra, CAO (pronuncia-se cão) ou CÃOS (ao falar no plural), uma banda proveniente das Caldas da Rainha, mas cujos músicos vêm desde Aveiro, passando por Fátima, indo até à Margem Sul e apanhando um voo até aos Açores.  Querem explorar ao máximo a sua sonoridade e têm como sonho atuar no Coliseu e ter um beef com os D.A.M.A.

O estilo musical de Chórus Águrus Orchestra é algo semelhante a Rap Rock, mas a verdade é que é acaba por ser uma mistura de diferentes sonoridades. Afirmam que está relacionado com o background de cada um, “por exemplo, o Francisco ouvia muito rock clássico por causa do pai, o Fatinha ouvia bastante metal, o Ícaro sempre foi muito do trap e do hip-hop, o Miguel é uma coisa muito mais rock pop, eu ouço mais metal”, explica o baixista. Xico Zé acrescenta ainda que este background ajudou bastante, pois os membros vão-se influenciando uns aos outros, construindo assim “coisas muito engraçadas”.

Sendo Ícaro grande parte da identidade da banda, por ser o vocalista, explica que não ouve só hip-hop, obrigando-se a conhecer também o mundo dos restantes membros. Sente-se ignorante por ter começado a ouvir Red Hot Chili Peppers apenas agora, afirmando “Isto é muito bom, mas isto existe há imenso tempo e eu nunca me dei ao trabalho de ouvir”. Ainda assim, o resto do grupo diz que o perdoa por tal erro.

Apesar de todos estudarem nas Caldas, nem todos estão a tirar o mesmo curso, sendo o Paulo o único membro que não estuda teatro, mas sim design gráfico, algo que acaba por ser vantajoso em toda a parte do marketing e no desenho das capas. Já o teatro, ajuda também pela presença em palco, criando assim um espetáculo ainda maior. Os restantes integrantes conheceram o Paulo numa receção ao caloiro, e aí adotaram-no para fundar os Chórus Águrus, cujo projeto inicial seria apenas fundar uma companhia de teatro. Quando perceberam que tinham uma bateria, um guitarrista e um “pseudovocalista”, de repente encontraram mais uma pessoa que sabia tocar piano, encontrando por fim o Poeiras, conta o vocalista, para riso do restante grupo. A Chórus Águrus adicionou-se ainda Orchestra, isto porque “Chórus Águrus Band ficava pútrido”, reconhece Ícaro.

A escrita das letras cabe, normalmente, ao vocalista, adicionando-se depois o instrumental através de umas jam sessions. Outras vezes, o processo funciona ao contrário, começando-se pelo instrumental e adaptando depois as letras.

O primeiro concerto dos CAO decorreu na 7ª edição do Ofélia, festival de teatro nas Caldas da Rainha. Ícaro conta a história: “Foi uma altura em que ninguém estava preparado para isso porque tudo correu mal: o Fatinha fez a barba, eu tinha rapado o cabelo, o Miguel estava a tentar deixar crescer o cabelo (agora está muito melhor). A nível de música, foi a primeira vez, nem tínhamos os instrumentos todos, os temas foram, entretanto, todos mudados, mas foi fixe porque tivemos logo uma boa reação por parte das pessoas, do género “Pensei que isto era a brincar”. Foi giro”.

Já a primeira festa para a qual foram convidados, foi na Nazaré, organizada pela Hashtag Magazine. Foi um concerto para apenas três pessoas, mas ao menos sentem-se felizes porque “estavam a sentir bué, estavam lá, não estavam apáticas”.

Antes dos concertos, têm sempre um ritual: “Estamos todos numa rodinha com os braços nas costas uns dos outros, há um momento de silêncio e o Ícaro diz Chórus Águrus Orchestra, e nós batemos ao mesmo ritmo da frase duas vezes nas costas e uma na cabeça, depois damos todos uma cabeçada uns nos outros e uivamos. Nunca ficar ao pé do Poeiras, porque ele é do heavy metal.”, relata a banda, entusiasmada.

Lançaram um álbum há quase três meses, CÃO, cujo trabalho começou a ser feito no início de 2018. Achavam que iam apenas gravar um tema nos estúdios da ESAD (faculdade onde estudam), no entanto, foi-lhes dito que podiam gravar mais uns temas, pelo que o grupo teve a ideia de juntar mais umas sete ou oito faixas e gravar um álbum. Ficou então decidido que teriam um álbum ainda antes de terem as músicas suficientes, tendo Ícaro pensado “Pronto, e agora tenho quatro letras para escrever”. “Gravámos um álbum mesmo à CAO, sempre à pressa, tínhamos sempre horas marcadas porque havia alunos a entrar e a sair. Foi acabado de gravar em Fátima, no estúdio do Freddy, foi ele que produziu”, contou Paulo.

Admitem que tudo isto foi complicado. Sentiam-se pressionados e achavam que, por esse motivo, “não ia sair grande coisa”. Mas ter um álbum sempre foi uma boa motivação para tudo correr bem, deixando os problemas de lado, algo normal ao trabalhar junto de pessoas com diferentes egos e personalidades.

Tiveram também oportunidade de lançar o álbum no Spotify, sendo algo bastante positivo pelo facto de a plataforma funcionar como uma grande montra. “Quando conseguimos as cenas aprovadas para o Spotify foi mesmo “Agora somos a sério, temos as cenas no ITunes, no Spotify, em todo o lado, até o Shazam reconhece” então, está na hora de ser a sério”.

Para Paulo, para Xico Zé e para Poeiras, a música favorita do CÃO é Toda A Gente. Ícaro contraria esta ideia, visto que a favorita dele é Tabaco A Meias, por ter sido a que lhe deu mais trabalho a escrever. Goza ainda com os restantes, dizendo “Toda A Gente porquê? Em que eu só digo “Toda a gente ama toda a gente como toda a gente ama toda a gente na altura errada”?”. Justificam-se, argumentando que “tem ganda vibe” (Xico Zé) e “a bateria tem uma vibe diferente de todas as outras faixas” (Paulo). Miguel pensa ainda de maneira diferente, já que Sozinha é a sua faixa preferida. Ainda assim, todos sentem um carinho especial pela última música, Outro. Tinham apenas mais quinze minutos de estúdio e Paulo lembrou-se de fazer uma última jam, “o que ficar ficou e adiciona-se no fim do álbum”. “Juntou-se uma linha de baixo e uma voz random do Ícaro e pronto”.

Dentro da área do hip-hop, Ícaro e Miguel gostariam de poder trabalhar com Slow J. Já Xico Zé, acha que seria bom terem umas aulas dos Rage Against the Machine. Paulo fala ainda dos Red Hot Chili “Papers” (Peppers, na verdade, mas Paulo insiste em chamar-lhes Papers, levando o vocalista a rir-se dele). Ícaro menciona Tiago Bettencourt e Matt Corby, gostando mesmo de ter uma conversa de cinco minutos com ele, nem que fosse para aprender a falar inglês. Poeiras acrescenta que adoraria trabalhar com o Jimi Hendrix, isto se fosse possível.

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Enquanto banda, têm como objetivo explorar ao máximo a sua sonoridade, tendo também o sonho de atuar no Coliseu. Ícaro revela que, depois desse objetivo realizado, começa a “fazer bolos ou assim”. Querem também apresentar o álbum em todo o país, aproveitando assim para conhecer Portugal e, mais importante, para que Portugal os conheça a eles.

O feedback tem sido bastante positivo, existindo até alguns fãs, algo que a banda não estava à espera. No entanto, afirmam, na brincadeira, também ter “haters“, as mães de Ícaro e de Paulo: “A Maria Antónia até gosta, mas medicina era mais giro”, confessa o vocalista dos C A O.

Os Silos e o Nicolá são os padrinhos da banda, sendo nos Silos que a banda tem feito os ensaios, no estúdio Barril. Ter passado a ensaiar num estúdio foi um grande passo para os Chórus Águrus Orchestra, pois agora não têm de estar sempre a montar e a desmontar tudo cada vez que precisam de praticar. Para além disso, existem outras quatro bandas que fazem parte do Barril, havendo assim feedback por parte de outros músicos.

A diversão é o que os move: quer para cinco, quer para cem, tocam sempre igual. Tocam para si próprios e para o pessoal que os vê. “Não há ninguém melhor que nós para estar no palco àquela hora”.

IMG_1840Foi uma boa conversa, que durou cerca de meia hora, antes do concerto dos Chórus Águrus Orchestra no Tokyo, na Rua Cor-de-Rosa, Cais do Sodré. Foi o primeiro concerto na capital, e espera-se que não seja o último. Continuem atentos ao trabalho de uma banda que terá, certamente, muito futuro.

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Escrito por: Daniela Carvalho

Fotografias de: Chórus Águrus Orchestra

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