The Desacordo Sessions – Uma análise imaculada a “Dirty Computer”

Foi em abril de 2018 que Dirty Computer, o terceiro álbum de estúdio de Janelle Monáe, foi lançado. Com influências de Prince e Stevie Wonder (e colaborações com os próprios), este é, de longe, o mais autêntico e sincero disco da cantora. Os seus componentes florescem de uma mistura de géneros, entre os quais neo soul, R&B e hip hop. Janelle Monáe aborda, então, temas como a emancipação da mulher, questões políticas, raciais e sexuais, de forma potente e cativante.

“We spent a lot of time making something very detailed that didn’t need a lot of explaining, that was just about the emotion…I hope that comes across. That people feel more free, no matter where they are in their lives, that they feel celebrated. Because I’m about women’s empowerment. I’m about agency. I’m about being in control of your narrative and your body. That was personal for me to even talk about: to let people know you don’t own or control me and you will not use my image to defame or denounce other women.” Janelle Monáe

Os primeiros singles que precederam o lançamento de Dirty Computer foram Make Me Feel e Django Jane. Make Me Feel, o que denota mais a inspirição de Prince, relembrando o single deste último, enquanto Kiss trata dos sentimentos pessoais da cantora sobre relações, indiciando relações queer e/ou poliamorosas. Monáe, assumida pansexual, expõe o seu lado mais vulnerável, explorando a sua sexualidade e liberdade . Já Django Jane foca-se mais num rap em que a cantora louva os feitos das mulheres, especialmente mulheres negras, dando-lhes voz após esta ter sido abafada durante anos.

Os dois últimos singles foram lançados dias antes do álbum, sendo estes PYNK e I Like That. PYNK menciona a cor que dá o título à canção – rosa – em tudo o que incorpora, física e simbolicamente, sendo a vertente física menções ao corpo feminino (e a glorificação deste), e a simbólica a sua ligação com a feminilidade em geral. Janelle quebra estereótipos do que é ser mulher, enquanto “celebrando a criação, o amor-próprio, a sexualidade e a pussy power” e afirmando que o rosa é o passado, presente e futuro. Em I Like That, apesar de ser uma perspetiva mais individual, Janelle Monáe fala mais uma vez sobre a sexualidade, mencionando que gosta de quem gosta e se sente bem com isso, não importando as críticas.

A faixa que dá o nome ao álbum, Dirty Computer, e que é, na verdade, a introdução a este, conta com a participação de Brian Wilson, fundador dos Beach Boys. Dirty Computer, metáfora para o cérebro humano, introduz, com um som mais eletro e alternativo pop, a ideia deste e as suas complexidades. Todo este é explorado nas várias faixas do álbum.

Crazy, Classic, Life, que começa com um sermão referenciando um excerto da Declaração da Independência dos Estados Unidos da América, proferido pelo Dr. Sean McMillan, exprime a simples vontade da cantora de ser livre, viver em paz, sem os notáveis desequilíbrios ocorrentes da diferença de género, cor de pele, etc, por parte, por exemplo, das autoridades.

A mensagem feminista é mais uma vez realçada, agora com Take a Byte, em que é clara a referência a uma figura feminina conhecida, Eva, que cedeu à tentação e provou da maçã do pecado. Neste caso, Eva seria um interesse amoroso feminino da cantora, a tentação, que apela a que ela não tenha medo de a “provar”. Provocante, junta-se ainda a outras canções com jogos de palavras referentes a tecnologias e que são, então, referências diretas a Dirty Computer.

Ambas curtas, Jane’s Dream (19 segundos) e Stevie’s Dream (47 segundos) não se diferem apenas pelo tamanho, mas também por serem apenas instrumental e falado, respetivamente. Apesar de suaves no início, com simples acordes de guitarra, os sons futurísticos e inquietantes de Jane’s Dream (a personagem de Janelle Monáe na Motion Picture da cantora) revelam que, em oposição ao título, a canção é na verdade inspirada num pesadelo desta (“Inspired by my terrifying nightmares about a near-future America full of abductions and secret detention centers – oddly like our own”). Stevie’s Dream alude ao próprio Stevie Wonder, que também acompanhado com guitarra, apregoa um discurso sobre o amor e a tolerância.

Screwed apresenta-se como uma forte crítica, com som predominantemente eletro-pop e funk, jogando com innuendos sexuais e temas políticos nos Estados Unidos da América, em que screwed é usado como termo em ambos os casos.

And I, I, I hear the sirens calling
And the bombs are falling in the streets
We’re all screwed
And ah, ah, ah, it’s not perfect, baby
But I go sex crazy
But I feel so screwed

Contando ainda com a colaboração vocal e lírica da filha de Lenny Kravitz, Zoë Kravitz, Screwed é, sem dúvida, uma dos melhores tracks do álbum.

Hundred men telling me cover up my areolas
While they blocking equal pay, sippin’ on they Coca Colas (oh)
Fake news, fake boobs, fake food—what’s real?
Still in The Matrix eatin’ on the blue pills (oh)
The devil met with Russia and they just made a deal
We was marching through the street, they were blocking every bill (oh)
I’m tired of hotepstryna tell me how to feel
For real

Após trabalharem juntos no soundtrack do filme Hidden Figures, onde Janelle foi também protagonista, a cantora e Pharrel Williams unem-se de novo para I Got The Juice, cujo som se assemelha ao trabalho de ambos no filme (funk/pop) e a todo o tema deste (emancipação das mulheres), que se focou nas três mulheres negras que trabalharam na NASA e que ajudaram a levar o primeiro homem americano ao espaço.

Em contraste com a maioria das canções mais ritmadas e animadas, apesar dos temas mais pesados, Don’t Judge Me é a que nota mais o género suave do soul característico do álbum. Denota também um tom mais vulnerável, onde a artista faz um pedido pessoal, tanto aos fãs como aos media, para que não a julguem por ser quem é.

So Afraid continua com o timbre mais frágil e exposto de Janelle Monáe, com uma declaração emocional da própria, em que revela um certo medo e nervosismo, antes abafados pelas outras canções que revelavam um estado de espírito relaxado e satisfeito com o seu ser.

Por último, com Americans, Janelle Monáe, original de Kansas City, termina em grande com uma crítica geral ao seu país e às suas tradições, referindo nomeadamente problemas como o racismo, homofobia, sexismo, violência armada, entre outros, que caracterizam tempos de crise entre os americanos, na sociedade de hoje em dia, acompanhado, ainda, de outro sermão do Reverendo Sean McMillan.

Let me help you in here
Until women can get equal pay for equal work
This is not my America
Until same-gender loving people can be who they are
This is not my America
Until black people can come home from a police stop without being shot in the head
This is not my America, huh!
Until poor whites can get a shot at being successful
This is not my America
I can’t hear nobody talkin’ to me

É notável que não há uma faixa de música neste álbum que seja indiferente a temas atuais relevantes, e que todas elas foram bem pensadas, com letras inteligentes e produção incrível, mostrando o melhor de Janelle Monáe e as mentes brilhantes que a acompanham, como Nate “Rocket” Wonder e Chuck Lightning.

Além do álbum, este foi acompanhado pelo lançamento de uma (E)motion Picture que retrata um mundo sci-fi e explora mais o conceito do Dirty Computer, uma expressão simbólica que nos designa a todos nós, como foi mencionado previamente, cada um com os seus vírus (que nem sempre implica algo negativo), compostos por memórias e o que faz de nós quem somos.

Com Dirty Computer, a cantora dá-nos, então, mais uma prova que é de facto um génio da música atual e uma artista extremamente subvalorizada que, com o terceiro álbum, viu além das suas personas e permitiu-nos finalmente conhecer a verdadeira Janelle Monáe e o quanto ela tem a dizer.

Classificação TD Sessions: 9/10

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Escrito por: Magda Farinho

Editado por: Inês Queiroz

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