The Desacordo Sessions – Lamacento e sombrio, Sheck Wes estreia-se com ‘Mudboy’

Aos 20 anos de idade, completados em setembro deste ano, surgiu como um fenómeno no Hip-Hop mundial em 2018, depois de lançar o single Mo Bamba ainda em 2017. Assinou contrato com as labels Cactus Jack Records, de Travis Scott e GOOD Music Records de Kanye West. Lançou o seu álbum de estreia em outubro deste ano e o feedback não podia ter sido melhor. Sheck Wes, jovem rapper nova-iorquino apresenta “Mudboy”, talvez um dos álbuns que mais níveis de hype atingiu em 2018.

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“You travel for vacay, I travel for business”

Nascido Khadimou Rassoul Cheikh Fall, a 10 de setembro de 1998, no Harlem, em Nova Iorque, “Sheck Wes” teve um percurso bastante complicado até chegar aos grandes palcos que hoje pisa. Era filho de imigrantes senegaleses, aos 5 anos teve de se mudar com a sua mãe para o Milwaukee, onde viveu até aos 14 anos quando regressou a Harlem. Durante a sua infância, cresceu ao lado do jogador da NBA Mohammed Bamba, que representa hoje as cores dos Orlando Magic e que serviu de inspiração para o tema que mais tarde o lançaria para as ribaltas do Hip-Hop, Mo Bamba.

Já em Nova Iorque, a sua adolescência foi marcada pela escolha de seguir uma carreira de modelo ao invés de jogador profissional de basquetebol, algo que surgiu depois de faltar a um jogo importantíssimo da modalidade para participar no evento Yeezy Sessions Season 3, promovido por Kanye West. No entanto, as ruas de Harlem tornaram-se um perigo para Sheck, levando a sua mãe a enviá-lo para África aos 17 anos, mais concretamente para o Senegal, de maneira a fugir da cultura de crime que o rodeava em Nova Iorque.

Para Sheck, a mudança para África mostrou-lhe “um propósito” para a sua vida. Man I gotta do this shit for these people’ revelou ser o que sentiu quando percebeu a realidade dos seus antepassados. Quando voltou, agarrou-se à música com unhas e dentes e, apesar do pequeno número de músicas na sua página do SoundCloud, o rácio quantidade-qualidade era astronómico.

Em 2017 lança o seu primeiro single, Live Sheck Wes, Die Sheck Wes e, apesar de não ter sido o maior hit a nível comercial, valeu-lhe a parceria com Travis Scott e Kanye West nas suas editoras, Cactus Jack Records e GOOD Music Records, respetivamente. Mas a explosão de Sheck Wes chegaria em junho desse ano, com o lançamento do single Mo Bamba, que serviria de mote para o álbum que chegou em outubro, “Mudboy”.

Live SheckWes Die SheckWes é a segunda faixa do álbum “Mudboy” e é muito representativa do estilo algo grimy, violento e sujo de Sheck. Os chords deste tema são bastante sinistros e Sheck percorre-os perfeitamente, com um flow energético quase oposto à melodia da música, mas que encaixa de maneira exemplar. O seu estilo de beat é bastante característico, com hi-hats triplicados ao longo de quase toda a faixa e uma bassline agressiva, quase que tornando algumas músicas muito idênticas, mas tendo em conta que isso acontece ao mesmo tempo que somos surpreendidos pelas mudanças de flow que Sheck oferece.

Uma dessas músicas parecidas é precisamente Mo Bamba, êxito mundial e tema mais ouvido do rapper nova-iorquino, cujo nome presta homenagem ao seu amigo de longa data e jogador da NBA, Mohammed Bamba. O refrão já é entoado nos quatro cantos do mundo:

I got hoes callin’ a young nigga phone
Where’s Ali with the mothafuckin’ dope?
I be ballin’ like a mothafuckin’ pro
I be ballin’ like my nigga Mo (Bamba, bitch)

Primeiro, Sheck atira-se às editoras, aos managers e aos produtores que não param de o contactar e, segundo o que falou ao Genius, “nunca foi sobre mulheres”. De seguida, refere Ali, seu amigo de nome verdadeiro Yoshi, que costumava ficar no estúdio ao lado do rapper “rollin’ up blunts”, enquanto ele rimava. Por fim, Sheck diz que vive bem, como um profissional de basquetebol, tal como Mo Bamba.

O ritmo da música é contagiante e tem uma mudança fantástica a meio, quando o beat termina e Sheck diz:

“Oh! Fuck! Shit! 

Young Sheck Wes and I’m getting really rich!”

Para isso, os produtores Take A DayTrip e 16yrold decidiram estender o beat para que Sheck continuasse a rimar. O que torna esta música ainda mais incrível é saber que foi improvisada ao longo de apenas… 20 minutos. O resultado foi uma música genial que vai perdurar.

Mas “Sheck Jesus” não se apresenta apenas como agressivo, sujo e desmedido. Neverlost, 6ª faixa de “Mudboy” é mais calma e nostálgica, contando vários episódios daquilo que seriam as vivências de Sheck em Harlem.

Where I came from, they shootin’ the four (Mudboy)
Where I come from, no books in our stores (bitch)
Where I come from, there’s hate and no love (at all)”

A faixa seguinte, WESPN segue o mesmo intuito, falando bastante da vida do jovem Sheck Wes, muito antes de entrar no mundo da música. “Skip my game for the fashion show (For the show) / One of my best decisions (Facts)” por exemplo, é a confissão do rapper da sua opção pela moda em detrimento do basquetebol.

Essa é outra das fixações de Sheck: o basquetebol. O 8ª tema do álbum, Kyrie, por sua vez mais mexido que os anteriores, é alusivo ao prodígio da NBA, Kyrie Irving, no título e ao longo do refrão em que diz “Ballin’ like I’m Kyrie, K-K-K-Kyrie“. Ao longo de toda a música, muitas são as vezes que refere o nome de Jayson Tatum, jogador dos Boston Celtics assim como Kyrie Irving. As referências aos Celtics não ficam por aqui, como no primeiro verso quando Sheck diz “You know I’m on the green team!” referindo-se não só à “equipa” dos que têm dinheiro (porque o dinheiro americano é verde) como também à equipa de Boston.

Uma das melhores músicas do álbum, Chippi Chippi, contém tudo o que se precisa ouvir e ver para conhecer Sheck Wes. Voltamos ao estilo normal dos seus instrumentais para ouvir uma espécie de mistura de G-Funk com Trap bastante divertida, principalmente se se assistir ao videoclip ao mesmo tempo, podendo notar-se o quão criativo e, podemos dizer, “maluco” é Sheck Wes. Na sua conta de Instagram, Sheck Wes explicou que “Chippi Chippi” significava a “ansiedade de sair de um sítio para ir fumar”.

A música de Sheck é marcada pelo seu compromisso em rimar apenas sobre a sua realidade, sobre aquilo que viveu verdadeiramente. Outro desses exemplos é o 11º dos 14 temas do álbum, Jiggy On The Shits, onde Sheck fala sobre a sua estadia no continente africano. Nesta faixa, Sheck rima em Wolof, uma língua nativa do Senegal, dando toda uma outra conotação ao tema, que se torna ainda mais nostálgico.

“Damay dem Touba
Bou ma gnibi wé Senegal (Finna go back home)
Ma nane café Touba (I’ma drink coffee Touba)
Ma dem diouli Jumu’ah (I’ma go pray Jumu’ah)
Dem ziaré sama mame (I’ma see my grandma)”

A música é bastante nostálgica e percebemos através das quadras de Sheck Wes a sua tristeza e o sofrimento que sentiu, bem como a percepção do seu objetivo e da sua mensagem na música. Aos 20 anos, Sheck Wes apresenta-se já como um rapper com propósito artístico, diferindo em muito da nova vaga de rappers que têm aparecendo nos Estados Unidos.

“17 years old 
I’m in this country alone 
I got no ID or passport 
I’m the only livin’ John Doe”

Wanted Gmail são outras duas faixas parecidas entre si. Em Gmail, Sheck faz questão de explicar o porquê de usar o seu ad-lib mais famoso: “Bitch!”.

“Why I say bitch so much? Let me explain it
It’s the only word…
Where I can feel and hear all my anger
It don’t got nothin’ to do with like bitches
It’s just-
Bitch! Bitch!”

Mais uma vez, o humor característico de Sheck apodera-se da sua música. Apesar de muçulmano praticante, Sheck apresenta-se na intro da música como “Sheck Jesus”, equiparando-se ao filho de Deus, ao salvador. É mais um tema onde o basquetebol está muito presente, com referências a Kobe Bryant e Latrell Sprewell e também ao simulador de basquetebol para consolas NBA 2k19. Esta música termina com Sheck entoando um pouco do refrão de Wanted, a música seguinte do álbum, que confirma ainda mais a linha condutora do som que percorre todo o álbum “Mudboy”.

Precisamente em Wanted, talvez mesmo a melhor faixa do projeto, a par de Mo Bamba, é onde Sheck surge com o seu melhor flow. Logo a entrar, com o beat ainda suave e sombrio, o rapper diz:

Where’s the, where’s the… gas, gas?
Roll it up, puff-puff, pass-pass
Never too many, grab bags
Too many hoes with fat ass”

No refrão, Sheck diz “Cause on 14th Street I was wanted, 34th street I was wanted, 116th I was wanted“. Todas estas ruas são ruas principais de Manhattan, em Nova Iorque, onde Sheck cresceu. A curiosidade é que a Rua 116 e a Rua 14 ficam em lados opostos de Manhattan, o que significa que Sheck era “procurado” na cidade inteira, talvez por, nas palavras de Sheck, ter “assaltado com os amigos algumas lojas de bebidas”.

O primeiro projeto compilado de Sheck Wes, “Mudboy”, apresentou-nos um rapper bastante ciente da sua realidade, um artista que foi transformado quando confrontado com o seu passado e o da sua família. Ser um mudboy nos EUA é bastante comum entre os jovens que, à semelhança de Sheck, têm duas escapatórias à vida criminosa – ballin’ or rappin’ – como quem diz, “jogar basquetebol ou fazer rap“. Sheck optou pela segunda via e ainda bem que o fez. Para já, parece que este hyper-artist veio para mostrar que o Hip-Hop é feito de vivências e histórias reais. “Mudboy” é para ouvir e relembrar durante muito tempo.

Classificação TD Sessions: 7/10

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Escrito por: Bruno André

Editado por: Cláudio Nogueira

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