O verdadeiro lado da praxe

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Vivemos, atualmente, numa sociedade de informação. Somos diariamente bombardeados com notícias atuais e instantâneas de todo o mundo, o que nos torna seres mais esclarecidos e abertos ao mundo, certo? Devia ser assim, mas afinal parece que não. Continuam a exagerar. Continuam a mostrar apenas um lado. E sim, estamos de volta ao assunto de praxe.

Já não chegava o resto dos media: os jornais, os sites, as reportagens sensacionalistas e toda a outra panóplia de similares, agora também temos a ficção nacional. A SIC, com a sua nova novela “Alma e Coração”, juntou-se ao resto dos amigos que adoram perpetuar uma falsa realidade. Realmente desta vez a ficção foi boa. Foi mesmo pura ficção.

É no episódio 27 de 16 de Outubro que, na telenovela da SIC “Alma e Coração”, ao minuto 18, aparece uma cena desenrolada num espaço de convívio de uma faculdade, onde se sucede um momento de praxe. Praxe daquelas à televisão, daquelas em que nada corresponde ao que realmente acontece. Um grupo de três trajados chega ao que parece ser um refeitório e começa a levantar o tom de voz para os caloiros dizendo que é “hora do pega monstro” e dirige-se a um rapaz que está sossegado a estudar, começando a dizer-lhe que terá de ir com eles , ao que o rapaz se opõe, acabando por ser agarrado e levantado pelos trajados, como se de um saco de batatas se tratasse. Ficção. Se pegamos em sacos de batatas na praxe? Se calhar às vezes, mas é mesmo em sacos de batatas, que provavelmente usamos para fazer um jogo de estafetas.

Querem a realidade? A versão de quem vive esta realidade de praxe? Palavras de quem foi praxada e agora praxa? Ora bem, aqui vai!

Enchi. Enchi até me doerem os braços e sentir que fui ao ginásio no dia anterior. Se foi porque exageraram? Não, apenas sou fraca de braços. Fiquei sem voz. Fiquei sem voz como se tivesse ido ver um concerto da minha banda favorita. Se foi porque me obrigaram a gritar? Não, apenas gritei o meu curso mais alto que todos os outros. Chorei. Chorei como se tivessem aberto uma torneira e a tivessem esquecido de fechar. Se foi porque me fizeram mal? Não, apenas porque o sentimento de união e saudade daquilo que ainda não tinha sequer acabado era forte demais para manter dentro de portas. Fiz isto e muito mais. Voltava a fazê-lo.

Vesti uma t-shirt de caloiro durante um ano. Agora visto um traje. Se voltava atrás para vestir a t-shirt? Bem… Às vezes ainda a uso como pijama e olho para ela com saudades daqueles tempos, que já lá vão há dois anos. Saudades. Saudades de ir ao chão com os meus porque se um chegava atrasado, então éramos todos que chegávamos atrasados. Saudades de gritar o meu curso com os meus e sentir-me arrepiada. Saudades de fazer figuras parvas que só nos faziam rir e que agora dão histórias hilariantes quando eu e os meus nos juntamos à volta da mesa. Saudades de olhar à minha volta e ver que estou ali, com os meus. Os meus colegas de praxe, os meus amigos, os meus padrinhos, a minha segunda família. Daqui a dois anos vai ser hora de olhar para o traje, já do lado de fora, mas tenho a certeza que vou continuar também a sentir saudades desta época. Saudades do que ele representa, do peso da responsabilidade de ter uma capa aos ombros, das memórias, amigos e afilhados que me deu.

E falam que a praxe isto e a praxe aquilo. E ouço senhoras no autocarro a dizerem que isto e aquilo. E de nós? O que é que ouviram de nós? Nunca nos perguntaram nada. Nunca quiseram realmente saber o que é a praxe.

Como uma vez me disseram: “estamos num país onde as práticas voluntárias de um grupo de estudantes universitários são mais incomodativas para a sociedade do que representantes políticos envolvidos em escândalos que metem em causa a nação”. Mas já sabemos o que a casa gasta…

Venha a SIC ou venha quem vier, só sabe quem cá está dentro.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Escrito por: Inês Rechau

Editado por: Daniela Carvalho

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