The Desacordo Sessions – a EP “Auto-Sabotagem” é literalmente Nerve a servir o Senhor das Moscas

Se ainda não conheciam, é favor abrir desde já a review do Desacordo sobre o álbum anterior de Nerve T&C/AVNP&NMTC. É a partir desse projeto que Tiago “Nerve” Gonçalves, se assume como o “poeta maldito” do rap português e, embora considerado demasiado underground por uns, a sua legião de fãs é bastante fiel à génese deste sacana nervoso. Desde 2015 que Nerve não lançava nenhuma compilação e os fãs ansiavam que ele tratasse de fabricar um diálogo sobre esse assunto (referências que só os fãs entenderão). A espera acabou ontem, dia 9 de abril de 2018, com o lançamento da EP “Auto-Sabotagem”. Um trabalho totalmente produzido pelo artista natural de Abrantes, um conjunto de seis faixas escritas, cantadas, gravadas, produzidas e misturadas, às quais Nerve ainda adicionou a ilustração da capa e o Design. Aqui fica então a minha análise a este trabalho.

nerve

Depois de Trabalho & Conhaque/A Vida Não Presta & Ninguém Merece a Tua Confiança mostrar toda a vertente artística de Nerve, esta EP surge como a afirmação do seu estatuto como poeta no panorama do hip-hop, e para quem ainda acha que ele apresenta algum tipo de défice de lógica ou sentido, acho que por esta altura já devia ser sabido que Nerve não pretende ser construtivo ou educativo com o seu trabalho.

Comecemos por ordem, com a primeira faixa do álbum, Deserto, que também foi o primeiro tema a ser lançado pelo rapper, ainda em fevereiro de 2017. Só para iniciar toda uma compilação que transcende a genialidade, o início desta faixa é o simples som de uma garrafa de vidro a raspar numa parede de pedra, captado com um simples gravador. Oiçam e digam lá se não falo verdade. Ora, esta música inicia com uma espécie de diálogo de Nerve com ele próprio, como que “ambos” a tentar descobrir o instrumental ideal para a faixa, questionando-se “E que tal…Tragédia?” lançando um baixo grave no seguimento da pergunta.

Logo no primeiro verso deste tema, Nerve diz:

Então levitei para o cume

Às vinte e oito, primeiro pensamento foi:

“Fo**-se não, não entrei para o clube” “

A explicação por detrás desta coisa das “vinte e oito” e do “clube” prende-se com a não entrada de Nerve para o clube dos 27, um clube fictício do qual fazem parte os grandes artistas que morreram aos 27 anos, tais como Kurt Cobain, Jim Morrison ou Amy Winehouse. Nerve diz que se apercebeu disso “às vinte e oito”, traduzindo, aos 28 anos. Se leram o artigo relacionado com o outro álbum, também sabem que Nerve se auto-intitula de “Lenda”, logo, não será estranho perceber o porquê de estar chateado com o facto de não ficar também ele eternizado no célebre “clube dos 27”.

rapper é, também, conhecido pela vasta rede de referências que possui, fazendo questão de as demonstrar ao longo dos seus trabalhos, e Deserto não foi excepção. Na frase “Depois do concerto volto a casa a passar a mão nas espigas, como o Russel Crowe”, Nerve refere-se a Maximus, personagem interpretada por Russel Crowe no filme “O Gladiador” de Ridley Scott. No filme, Maximus sonha que um dia, quando cumprir o seu dever, voltará para casa, para junto da sua família que há muito havia falecido, e enquanto caminha para casa, no sonho, Maximus vê-se num campo de trigo, e à medida que avança na direção da família, fá-lo passando a mão pelas espigas. É assim que Nerve se sente quando regressa a casa dos concertos, com o sentimento de dever cumprido.

Dá para ver que Nerve acabou de chegar intitulando-se de “Conde Drácula” pronto a servir o Senhor das Moscas. Para quem conhecesse o clássico livro de William Golding, o “Senhor das Moscas” deverá ser lido como o diabo. A tradução da própria palavra hebraica Belzebu é mesmo “Senhor das Moscas”, o que confere um toque magistral a esta música e a toda a EP: Nerve assume-se como o diabo em pessoa.

Como poderão ver na capa, no seguimento de Deserto, vem uma das minhas músicas favoritas da EP: Plâncton. Nesta faixa, Nerve atira-se, presumo eu, mais uma vez aos rappers que não o são pela lírica mas pela fama. Atente-se no refrão da música, em que Nerve descura um sujeito, chamando-lhe Plâncton:

Plebe, (ou seja) pobre plâncton.

Mero plâncton.

Idiota, tu és plâncton.

Tu para mim és transparente trampa p’la corrente fora, sem a qual és estático

O plâncton é um conjunto de pequenos organismos marinhos que, dada a sua milimétrica dimensão, não são capazes de contrariar as marés, deixando-se levar por elas. Estes organismos são a principal fonte de alimento para grande parte das espécies de baleias. Ora, Nerve não só acusa o sujeito de se deixar levar pelas modas do mundo como também o inferioriza em relação a ele, chamando lhe “plebe”, “pobre” e “trampa”.

Mais uma vez, nesta faixa Nerve faz novamente referência ao Demónio, desta feita dizendo que escreve na língua dele, ao dizer: “Trago língua do demo escrita, em pulmão pleno dita. Oiço-te e sinto que faço música erudita“. É aqui que Nerve diz que se sente bastante inteligente e superior a outros rappers, achando que faz música erudita, simplesmente por comparar o seu trabalho com a fraqueza dos projetos dos outros.

Com esta faixa, Nerve sobrepõe-se aos seus homólogos, acusando-os de irem com a maré em busca de aceitação e crédito, enquanto ele não se importa sequer de se auto-sabotar, se isso significar poder manter a sua corrente de pensamento que transpõe para a música.

De seguida, é a vez da segunda música desta EP. Chibo foi lançado, juntamente com um videoclipe, no dia 18 de março deste ano e é provavelmente o som mais sonante desta EP. Talvez por ser acompanhado por um vídeo onde o vermelho e o negro predominam e composto por um refrão abrasador, bem como por estrofes ocultas e altamente sarcásticas, sendo, possivelmente, uma das faixas que mais caracteriza Nerve. Quem leu o artigo sobre o álbum T&C/AVNP&NMTC reparou que na música “Monstro Social”, referi que Nerve se apresenta como parte de um ser algo demoníaco, que tem inevitavelmente de ser social.

Posto isto, o que dizer do refrão de Chibo :

O demónio mora ali na porta em frente à porta em frente à minha.

Xiu, chibo. Xiu, chibo.

Mais claro que isto não poderia ser. Embora pareça uma redundância, “o demónio mora ali na porta em frente à porta em frente à minha” significa que o demónio mora onde Nerve mora. Como se isso não bastasse, ao longo do vídeo podemos ver uma face negra com olhos cor de fogo que, lentamente se apodera dos movimentos de Nerve.

Nerve faz mais uma vez questão de se mostrar fundido com o demónio, e que é este que escreve por ele. Atira-se também aqui novamente aos rappers que não querem saber da lírica dizendo “Não posso cair mas, das duas uma: ou estou um cota ou sou o último que adora escrita.” colocando o dilema se estará velho e a geração mais velha é que se preocupava mais com a parte escrita do rap, ou se simplesmente é o último que verdadeiramente adora a escrita.

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Sabemos que Nerve é um poeta, é um poeta maligno, que tem nesta EP essa afirmação, através de conversas com o próprio Diabo, da serventia ao “Senhor das Moscas” ou por falar o próprio dialecto de Belzebu. Mas como o próprio diz, os seus trabalhos não são 100% auto-biográficos, muito-menos auto-sabotados, mas devem ser encarados através da vertente da poesia que Nerve se pauta por tentar inserir nas suas faixas sempre que assim for necessário. Esta EP contém mais três faixas que podiam também ser aqui dissecadas, mas deixo-vos no vazio em relação a “Loba”, “Simone” e “Breu”.

Classificação TDSessions: 8/10

Escrito por: Bruno André

Editado por: Ricardo Marquês

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