O Inferno na Terra: A Queda da Síria

Only the dead have seen the end of war” – Platão

Uma vez mais, na guerra civil síria, civis sofrem e estão presos numa guerra que não tem fim à vista.

Desta vez é o caso dos 400 mil habitantes de Ghouta, a 10km a leste da capital de Damasco. Os últimos relatórios colocaram vítimas civis acima de 520 e milhares de feridos sob o forte ataque lançado pelas forças terrestres do presidente Bashar al-Assad apoiadas por ataques aéreos russos.

As condições na Síria estão a piorar, e não há fim para o conflito. Nenhuma das facções em guerra se parece preocupar com a devastação da guerra civil. Quase todo o país é escombros, mais de 400 mil pessoas morreram, há 5 milhões de refugiados sírios e mais de 6 milhões de pessoas deslocadas.

O grande número de grupos de rebeldes é outro problema. Na área relativamente pequena de Ghouta Oriental, existem três grupos rebeldes, que, muitas das vezes, estão na origem dos distúrbios.

Desde que o conflito começou em 2011, quase 200 grupos rebeldes separados emergiram esporadicamente. Embora a maioria destes, mais tarde, tenha sido incorporado em entidades maiores, ainda existem muitos grupos. A inclusão em qualquer processo de paz tem sido problemática, porque não está claro quem realmente representa a oposição síria.

Depois vem à tona a questão difícil de diferenças ideológicas e religiosas. Os sírios xiitas e um segmento de muçulmanos sunitas seculares apoiam o regime de Assad, enquanto o maior fragmento dos grupos rebeldes são os jihadistas de Salafi.

No próximo dia 15 de Março, a guerra travada principalmente pelo governo de Bashar al-Assad e os seus aliados contra várias forças opositoras ao governo, vai fazer oito anos.

Muito antes de começar, muitos sírios estavam descontentes com o desemprego elevado, corrupção generalizada, falta de liberdade política e repressão por parte do presidente Bashar al-Assad, que sucedeu o seu pai, Hafez, em 2000.

Em março de 2011, manifestações pró-democracia entraram em erupção na cidade de Daraa. À medida que o distúrbio se espalhava, a repressão intensificava-se. Os partidários da oposição usaram armas para se defender e mais tarde para expulsar as forças de segurança das suas áreas.

A violência rapidamente se intensificou e o país viu-se numa guerra civil à medida que centenas de brigadas rebeldes foram formadas para combater as forças governamentais.

Mas porquê tanto tempo neste estado de guerra?

Em essência, tornou-se mais do que apenas uma batalha civil. Um fator chave tem sido a intervenção das potências regionais e mundiais, incluindo Irão, Rússia, a Arábia Saudita e os Estados Unidos. O apoio militar, financeiro e político ao governo e à oposição contribuiu para a intensificação e continuação dos combates e transformou a Síria num verdadeiro campo de batalha.

 

Os poderes externos também foram acusados de promover o sectarismo no que era um estado amplamente laico, lançando a maioria sunita do país contra a seita Shia Alawite do presidente. Tais divisões encorajaram ambos os lados a cometer atrocidades que não só causaram perda de vidas, mas também comunidades destruídas, posições endurecidas e esperanças esvaziadas para um acordo político.

Enquanto isso, o grupo do Estado Islâmico, tomou controlo de grandes extensões do nordeste da Síria. Atualmente, controlam apenas alguns territórios isolados depois de terem sido expulsos por forças governamentais apoiadas pelos russos, brigadas rebeldes e uma aliança curda apoiada pelos EUA.

O Irão, a Rússia e o Hezbollah apoiam o governo sírio militarmente, com a Rússia a realizar operações aéreas em apoio ao governo desde setembro de 2015. Por outro lado, a coalização internacional liderada pelos EUA, criada em 2014 com o propósito declarado de combater o ISIL, realizou ataques aéreos contra o mesmo na Síria.

Organizações internacionais acusaram o governo sírio, o ISIL e grupos rebeldes de graves violações dos direitos humanos e de muitos massacres. O conflito causou também uma grande crise de refugiados. Ao longo da guerra, foram lançadas várias iniciativas de paz, incluindo as conversações de paz de Genebra de março de 2017, sobre a Síria lideradas pelas Nações Unidas, mas a luta continua.

A Rússia, para quem a sobrevivência do presidente Assad é fundamental para manter os seus interesses na Síria, lançou uma campanha aérea em setembro de 2015 com o objetivo de “estabilizar” o governo.

Os EUA, que dizem que o presidente Assad é responsável por atrocidades generalizadas, apoia a oposição e, uma vez, forneceu assistência militar a rebeldes. O aliado chave de Washington no terreno foi uma aliança de milícias curdas e árabes chamadas de forças democráticas sírias. Em janeiro de 2018, os EUA disseram que manteriam uma presença militar aberta, para garantir a derrota persistente de ISIL, contrariar a influência iraniana e ajudar a acabar com a guerra civil.

A ONU diz que pelo menos 250 mil pessoas foram mortas. No entanto, a organização parou de atualizar os seus números em agosto de 2015.

O Observatório Sírio para os Direitos Humanos, informou em dezembro de 2017 que havia documentado a morte de mais de 346.600 pessoas, incluindo 103.000 civis. Mas observou que o número não incluiu 56.900 pessoas que estavam desaparecidas e presumidas mortas.

Quase 5.6 milhões de pessoas, a grande maioria mulheres e crianças fugiram da Síria, de acordo com a ONU. Líbano, Jordânia e a Turquia lutaram para lidar com um dos maiores êxodos de refugiados na história recente.

Cerca de 10% dos refugiados sírios procuraram segurança na Europa, semeando divisões políticas. Mais de 6.1 milhões de pessoas estão internamente deslocadas dentro da Síria.
A ONU estima que precisará de cerca 3.5 biliões de dólares para ajudar 13.1 milhões de pessoas, que exigirão alguma forma de assistência humanitária dentro da Síria em 2018. Quase 70% da população está a viver em extrema pobreza. Calcula-se que em algumas áreas, as pessoas estão a gastar 15-20% da sua renda para garantir o acesso à água potável.
Um comboio de 46 camiões que carregava ajuda humanitária entrou em Ghoutta através de um ponto de controle controlado pelo governo pela primeira vez em quase um mês, mas materiais médicos cruciais foram confiscados pelos militares sírios.

Este comboio incluí suplementos cirúrgicos e medicamentos, bem como 5.500 sacos de comida e farinha suficientes para 27.500 pessoas.
Recentemente a Rússia ofereceu uma retirada segura a rebeldes em dia sangrento em Ghouta, em que quase 80 pessoas morreram na segunda-feira, o mais mortal para civis desde a declaração de um cessar-fogo.
A contagem de mortos no leste de Ghouta continua e nunca o número de mortos atingiu um valor tão alto num período de 24 horas. A ajuda humanitária que estava a ser canalizada para o enclave foi retirada depois do dia mais sangrento para a população civil desde o início do cessar-fogo naquela região controlada pela oposição a Bashar al-Assad. Foi a primeira vez que uma coluna humanitária conseguiu entrar em Ghouta desde o inicio da ofensiva de Damasco na região.

Com nenhum dos lados capazes de infligir uma derrota decisiva, a comunidade internacional concluiu há muito tempo que apenas uma solução política poderia acabar com o conflito. O Conselho de Segurança da ONU pediu a implementação do Comunicado de Genebra de 2012, que prevê um órgão de governo de transição com poderes executivos completos “formados com base no consentimento mútuo”.
O resultado final é, recentemente em apenas duas semanas, o número de mortos aproximar-se dos 800. Sem um fim à vista, o Kremlin acusou os EUA de desrespeitar o cessar-fogo ao não fazer nada para impedir os ataques dos rebeldes sobre Damasco. Por sua vez, Washington responsabilizou directamente a Rússia pela morte de civis na Síria.

Escrito por: Pedro Santos

Editado por: Ricardo Marquês

2 pensamentos sobre “O Inferno na Terra: A Queda da Síria

  1. Vamos lá falar a verdade… Quem são os observadores no terreno? As forças moderadas aka Al-qaeda? Provas da utilização de armas Quimicas pelo regime sírio onde estão? Não terá sido ao contrário? e se sim quem forneceu as armas? https://www.youtube.com/watch?v=fXmzBFyXvVI
    Quem financiou e fomentou a oposição? No teu texto parece que houve uma escalada natural da violência e a Rússia e o EUA escolheram lados, mas parece-me que a Rússia entrou para impedir a influência dos EUA já implementada com o apoio aos moderados terroristas…
    Agora vamos também falar sobre os mortos, ouve a tentativa de criar um salvo conduto, mas os terroristas impediram as populações de saírem, ou em oposição as pessas quiseram ficar perante a ameaça de bombardeamentos, escolham o lado mais lógico…Contudo ao ficarem foram e continuam muito provavelmente a ser usadas como escudos https://www.youtube.com/watch?time_continue=1&v=Ejs9OR-cNLY
    Depois há os vídeos humanitários dos capacetes brancos (tradução livre) sobre os salvamentos… https://www.mintpressnews.com/investigation-white-helmets-committing-acts-terror-across-syria/231597/

    Vou acabar que já vai longo… Resumo só não vê quem não quer. Está montado o plano para a invasão, um segundo Afganistão, e Iraq.

    Hoje estão todos preocupados com Ghuta, mas esta guerra já dura há anos.Em Gaza, crianças sofrem isto há décadas e não se vê pão, só lágrimas de crocodilo, em Mossul 11 mil civis morreram com os bombardeamentos do Reino Unido e EUA e não vi esta choradeira. É de notar que esta mediatização é uma encomenda. Vocês do Desacordo não alinhem nisto. Por ultimo, reparem que procurei noticias no vosso site sobre Palestina, Afeganistão Iraque e nada…

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    • Antes de mais, obrigado pela tua opinião Gonçalo, é sempre bom ler uma crítica a um texto nosso. Vou dar uma breve opinião sobre aquilo que escreveste. Primeiro, em relação à utilização de armas químicas é realmente um facto que foram utilizadas mas o grande problema não se prende com quem as utilizou mas sim quem as fornece, tal e qual como disseste, porque encontrar os responsáveis pela sua utilização não resolve o problema, é preciso saber o seu ponto de origem. Relativamente aos civis, aqueles que conseguem fugir são os que têm recursos para tal, certamente quereriam todos mas isso implica deixar tudo o que têm para trás e seguir um caminho incerto. Concluindo, esta é uma guerra que já se prolonga aos anos e acredita que não é querer de repente dar atenção a este assunto pelos acontecimentos recentes, mas sim voltar a abordá-los. Quanto às notícias sobre a Palestina e.t.c, pode ser que um dia se escreva artigos. Mais uma vez, obrigado pela tua opinião.

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