Bitcoin: investimento promissor ou especulação?

A Bitcoin foi, provavelmente, uma das maiores novidades que marcaram o ano de 2017. A valorização exponencial da qual beneficiou pôs a criptomoeda nas bocas do mundo: valia um pouco menos de 1000 dólares no início de 2017, tendo ascendido ao valor recorde de cerca de 18.000 dólares no final de 2017. O valor total da Bitcoin chegou mesmo a ultrapassar, por exemplo, o PIB anual da Nova Zelândia em 2017 (avaliado em cerca de 187 mil milhões de dólares americanos).

No entanto, 2018 parece não ser tão promissor para a Bitcoin como foi o ano de 2017, sofrendo uma queda drástica em relação ao valor máximo de cerca de 18.000 dólares para cerca de 8.000 dólares atuais, oscilando (ora valorizando ora desvalorizando progressivamente). A que se deve, afinal, esta volatilidade e incerteza que têm assombrando não só a Bitcoin, mas as restantes criptomoedas como a Ethereum e a Litcoin? Antes de responder a tal questão, é essencial compreender o conceito de criptomoeda, a história da Bitcoin e a razão de ser desta.

A Bitcoin surgiu em 2008 por mão de um indivíduo chamado Satoshi Nakamoto, cuja identidade foi, durante muitos anos, um motivo de especulação. O objectivo principal do surgimento da Bitcoin era criar uma moeda digital descentralizada, não vinculada a nenhum tipo de banco convencional nem a nenhum governo, impossibilitando, portanto, as autoridades centrais de emitir mais moeda artificialmente e levar a fenómenos como a inflação.

Foi também estabelecido um número máximo de 21 milhões de Bitcoin, sendo que neste momento estão em circulação cerca de 16 milhões. O contexto histórico-financeiro é de mencionar, pois o surgimento da Bitcoin coincide com a crise económico-financeira de 2008: a Bitcoin é, assim, uma resposta à falta de gestão eficaz, à falta de regulamentação e à falta de precaução por parte das elites políticas e financeiras, que deram lugar à bolha especulativa em 2008. Mas como é que funciona e como é que é gerida a Bitcoin na prática?

Sendo a Bitcoin uma ideia original de uma pessoa ligada à programação de computadores e criptografia, a criptomoeda tem uma relação muito próxima com a programação: cada Bitcoin é gerada através da resolução de complexos problemas matemáticos criptográficos, cuja dificuldade aumenta cada vez que é gerada uma Bitcoin. Coloquialmente, este processo é chamado por ”mining”, e cada Bitcoin gerada é uma recompensa pela resolução dos problemas. A cada vez maior complexidade e dificuldade dos problemas a resolver leva à necessidade de sistemas informáticos de hardware e software cada vez mais sofisticados.

A Bitcoin serve-se também da tecnologia ”blockchain”, que funciona como um registo de dados de todas as transações realizadas com Bitcoin, descentralizando as informações sobre as transações por vários computadores e dificultando, assim, um possível ataque informático. Todas estas variáveis possibilitaram o carácter revolucionário desta moeda, que parece responder aos problemas crónicos do mundo económico-financeiro tradicional (como a inflação, fraude e especulação) e, ao mesmo tempo, tem as mesmas funcionalidades de uma moeda convencional: meio de troca , reserva de valor, entre outras. Mas o ”mundo cor-de-rosa” da Bitcoin tem umas pinceladas de negro.

O conceito revolucionário da Bitcoin e das criptomoedas levanta algumas preocupações em relação ao futuro desta tecnologia. A primeira crítica que se apontou aquando do seu surgimento foi a facilidade com que se podia utilizar para realizar práticas ilícitas, como lavagem de dinheiro, tráfico de armas e de drogas e outras actividades ilegais. Dado o carácter anónimo do registo das transações, o uso da Bitcoin é um porto-seguro para albergar este tipo de práticas, que de facto aconteceram: nos seus primeiros anos, a Bitcoin viu-se abalada pelo uso desta como meio de troca em compra de drogas na Silkroad, um site que proporcionava a compra de drogas na deepweb. Este caso foi uma oportunidade ideal para o descrédito da criptomoeda e para a intervenção do governo federal americano para a primeira tentativa de regular a nova realidade criada pela Bitcoin.

A segunda crítica que podemos apontar são custos inerentes à prática de ”mining”: tal como já foi mencionado, a decifração dos problemas criptográficos para a obtenção de Bitcoin necessita de sistemas de hardware e de software cada vez mais sofisticados, o que leva a um consumo de energia eléctrica cada vez maior.

A terceira crítica é de ordem político-económica: tal como qualquer moeda que é hoje usada nas transacções locais e internacionais, a Bitcoin necessita de ter a garantia de uma autoridade central (seja um Estado ou uma entidade financeira internacional) para criar confiança na sua utilização como meio de troca, pois uma moeda, para funcionar como meio de troca, necessita de uma das duas garantias: ou tem a garantia de confiança de uma entidade central para se certificar como meio de troca universalmente aceite (como é o caso da moeda fiduciária), ou tem a garantia de um activo que lhe está indexado e que lhe fornece a credibilidade como meio de troca (como o ouro e outros metais preciosos). A Bitcoin não possui nenhuma das duas características.

A razão de investimento na Bitcoin é de pura especulação: a generalidade das pessoas que investe largas somas de dinheiro nesta criptomoeda fazem-no pela simples crença na possibilidade de esta vir a valorizar no futuro, sendo este o único objetivo de investimento, o lucro puro. Não se está a criar riqueza, não se investe em economia real, não se investe em empresas que criam de facto postos de trabalhos: especula-se.

A Bitcoin tornou-se, assim, no monstro que procurou combater, tornando-se numa bolha especulativa que poderá ”rebentar” futuramente. A entrada da Bitcoin no mercado de futuros da Bolsa de Chicago, as regulações que daí advêm e os avisos de personalidades ligadas ao mundo da economia e das finanças (Joseph Stiglitz, prémio Nobel, e Niall Ferguson, o famoso professor universitário, são algumas das personalidades que alertaram para o perigo especulativo da Bitcoin) têm provocado a oscilação que se tem verificado no valor da Bitcoin.

Esta poderá também ser discutida do ponto de vista ideológico libertário, apresentando-se como a materialização parcial do ideal de um Estado menos interventivo. Não obstante, também este debate ideológico que surge entre libertários e defensores do papel do Estado, servindo-se dos argumentos a favor e contra a Bitcoin aqui apresentados, a ideologia cega não se poderá sobrepor ao bom senso. A incerteza em relação ao futuro da Bitcoin mantém-se, no entanto, como sendo apenas certo o perigo de uma bolha especulativa.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Escrito por: Andriy Voyevoda

Editado por: Daniela Carvalho

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