Arctic Monkeys: O crime que é ser apreciador do AM

Há já uns bons anos que sou fã dos Arctic Monkeys, desde o lançamento de Humbug em 2009, álbum que me deu a conhecer a música Crying Lightning e que, a partir daí, me abriu as portas para aquela que se viria a tornar a minha banda favorita. Não sou, portanto, um fã de ocasião, que apenas conheceu a banda aquando do lançamento do AM, em 2013, mas e se fosse? E se tivesse ouvido a Do I Wanna Know? na rádio e começasse a gostar de Arctic Monkeys a partir daí? É que parece existir nas redes sociais uma espécie de “Força policial do mainstream” que nos diz que o álbum é mau porque tem músicas que passam na rádio e que somos posers por ouvi-las. Na minha opinião, o AM não é, de todo, o melhor álbum da banda de Sheffield, até pode ser mesmo o menos bom, mas não me digam que as músicas que lá estão compiladas são más, porque isso é mentira. Cada um tem o seu gosto e até aí tudo bem, mas passar a criticar um álbum pela recetividade que o mercado lhe deu não é um bom parâmetro de avaliação. 

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Os Arctic Monkeys, compostos por Alex Turner (voz e guitarra), Jamie Cook (guitarra), Nick O’Malley (baixo e segunda voz) e Matthew Helders (bateria e voz de apoio), são uma banda de indie rock formada em 2002, nos subúrbios da cidade de Sheffield, em Inglaterra. Segundo Alex Turner, o nome Arctic Monkeys surgiu de um grupo dos anos 70 do qual fazia parte o pai do baterista Matt Helders. Alcançaram o sucesso com o lançamento do primeiro single, I Bet You Look Good on the Dancefloor, em 2005, que desde logo chegou ao número um do UK Singles Chart.

Um ano mais tarde, lançam o álbum de estreia Whatever The People Say I Am, That’s What I’m Not, que teve um impacto enorme no panorama musical britânico e mundial, tornando-se no álbum de estreia mais vendido de sempre no Reino Unido, ultrapassando Definitely Maybe dos Oasis, até aos dias de hoje. Este álbum foi premiado com o Mercury Prize de 2006, o Brit Award for Best British Album em 2007 e foi ainda nomeado pela revista NME como o quinto melhor álbum da música britânica, cujo primeiro lugar é ocupado pelos The Stone Roses.

A maioria dos fãs aceita commumente que este é o melhor álbum dos Arctic Monkeys, sendo que a minha opinião vai ao encontro da maioria, sem dúvida. É neste álbum que encontramos músicas como When The Sun Goes Down, Mardy Bum, Fake Tales of San Francisco, Still Take You Home, Dancing Shoes ou Red Light Indicates the Doors Are Secured, entre muitas outras, igualmente boas. Por exemplo, a faixa Fake Tales of San Francisco destinava-se às pequenas bandas de Sheffield que, para conseguirem o sucesso, tinham que se “americanizar”, algo que os Arctic Monkeys sempre foram contra, como está bastante expresso no verso You’re not from New York, you’re from Roterham. A música When The Sun Goes Down conta a história de um indivíduo que foi assediado por uma prostituta e posteriormente incomodado pelo seu “chulo”. Esta música inicia-se apenas com a voz de Alex acompanhada da guitarra, mas depois do verso I said he’s a scumbag don’t you know?, a batida da música é acelerada e acompanhada do baixo e da bateria, conferindo uma energia especial à faixa, como que eletrificando toda a melodia.

Seguiu-se o álbum Favourite Worst Nightmare, em 2007, que mais uma vez alcançou um enorme sucesso, principalmente nos Estados Unidos, onde apenas numa semana foram vendidos 44 mil discos, um número superior às vendas do primeiro álbum. É neste álbum que estão pelo menos três das músicas mais conhecidas dos Arctic Monkeys, começando logo pela primeira faixa do álbum, Brianstorm, que conta a história de um sujeito, um fã chamado Brian que a banda encontrou no backstage de um concerto no Japão, que aos olhos deles lhe parecia demasiado estranho, uma espécie de “mágico” que “conseguia entrar na mente” deles, – contou Alex – coisa que os levou a fazer um brainstorm acerca da história daquele indivíduo.

Fluorescent Adolescent, provavelmente a música que todos conhecem da banda britânica, está também presente neste álbum, com aquelas três pancadas iniciais na bateria intercaladas com a guitarra a tornarem a música inconfundível para quem a ouve. A terceira música de que vos posso falar deste álbum é obviamente 505, uma melodia bastante mais calma e que, em teoria, faz alusão a uma carreira de um autocarro de Sheffield, com o número 505. De resto, é neste álbum que se encontram outras músicas bastante famosas dos Arctic Monkeys como Teddy Picker, Balaclava ou Old Yellow Bricks.

Já em 2009, a banda lança Humbug, aquele que, para mim, é definitivamente o álbum menos bom dos Arctic Monkeys, ao contrário do que a maioria diz. Apesar de o achar o menos bom, não quer dizer que o ache mau, pelo contrário. É neste álbum que está a minha música favorita, Crying Lightning, e, antes de pensarem que estou a ser incoerente com isto, faço já questão de referir que, juntamente com My Propeller e Pretty Visitors, estas três músicas são as únicas que costumo ouvir deste álbum, porque, de resto, pouco ou nada mais gosto no que toca ao Humbug.

Em 2011 é a vez da banda editar Suck It and See, aquele que é, para mim, o segundo melhor álbum, logo depois de Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not. O título deste álbum teve envolvido em polémica logo ao início, principalmente nos Estados Unidos, por se pensar ter uma conotação sexual, chegando mesmo várias lojas de música a colocar etiquetas no nome. Mais tarde, Alex Turner e Matt Helders vieram a público referir que Suck It and See é apenas uma expressão britânica para “esquece e segue em frente”.

É neste álbum que podemos encontrar vários clássicos dos Arctic Monkeys, como She’s Thunderstorms, Brick by Brick, Don’t Sit Down Cause I’ve Moved Your Chair, Library Pictures e o single que deu o nome ao álbum, Suck It and See. Apesar destes clássicos, normalmente tocados em todos os concertos desta banda, encontramos também outras músicas não tão conhecidas, mas igualmente boas ou até melhores, caso de Reckless Serenade, Black Treacle, Love is a Laserquest ou The Hellcat Spangled Shalalala. Esta última também é das músicas que mais oiço deles, talvez muito por causa de ninguém (nem os próprios membros da banda) saber o que é exatamente um “Hellcat Spangled Shalalala”, alegando-se ser algo da imaginação de Alex Turner, o que confere à música uma espécie de mistério, mas logicamente também por causa da batida do baixo bastante suave, diferente do que estamos habituados a ouvir no ramo do rock indie.

E eis que chegamos a 2013, ano de lançamento de AM, o foco principal deste artigo. De um ponto de vista institucional e objetivo, este foi considerado pela crítica especializada como um dos melhores de sempre da banda. A revista Metacritic classificou o AM com 81 pontos, de 0 a 100, com base em 36 parâmetros de avaliação, o The Guardian referiu que a banda conseguiu juntar os riffs enérgicos de Humbug ao pop do Suck It and See e a Time Out disse mesmo que “uma das melhores bandas britânicas atuais acabou de ficar melhor, com um novo modelo inesperado, mas bem-vindo” e é aqui que quero começar a expor o meu ponto de vista.

Tal como a Time Out referiu, é aceite por todos que o AM representou uma mudança quase abissal do estilo da banda e essa é uma das críticas que mais oiço, chegando mesmo a dizer-se que o álbum é mau porque “não tem nada a ver com Arctic Monkeys”. A partir daqui, pergunto-vos, como é que me podem provar que o álbum é o mais fraco, baseando-se nas mudanças que se verificaram no estilo da banda? Será que será mau por ser diferente? Desde quando é que se começou a julgar os álbuns pela manutenção estilística da banda ou do artista? É que eu continuo a ouvir o AM com a mesma vibração que oiço qualquer um dos outros álbuns e não percebo porque é que por ser diferente, deixa de ter valor.

Dizem também que a ligação do álbum ao pop constituiu uma aceitação da comercialidade em que grandes bandas e artistas procuram investir, de maneira a alcançar o sucesso nos dias de hoje e, embora não goste quando tal acontece, não posso criticar, porque ao fim e ao cabo, acaba por ser uma profissão como todas as outras e quem a pratica necessita de alguma revenue.

É no AM que encontramos provavelmente a música mais badalada do ano de 2014, Do I Wanna Know?, com uma batida bem mais calma que grande parte das músicas da banda, aliando a bateria a uma guitarra irrepreensível de Alex Turner. Esta música é considerada uma continuação da música seguinte do álbum, também ela bastante conhecida, R U Mine?, não só pela parecença nos riffs como pelo conteúdo das letras, embora R U Mine? seja bastante mais acelerado, mas igualmente energético. De seguida, vem One for the Road, também esta mais calma do que o habitual, enveredando por uma onda mais pop, registando também algumas críticas por isso.

A melhor música do álbum vem a seguir, e é ela Arabella. Ora, Arabella é, portanto, uma rapariga fenomenal, bastante atraente, que usa umas botas de cowboy feitas de pele de crocodilo, e é ela o foco principal em toda a música. Toda a letra é uma espécie de adoração a esta rapariga, imaginária ou não, e é nesta faixa que Alex Turner faz um dos melhores solos que já ouvi, pelo menos no que ao rock indie diz respeito.

Para aqueles leitores que odeiam o AM, dou-vos o facto de Mad Sounds e I Want It All serem provavelmente das piores músicas da banda britânica, frisando, novamente, na minha opinião. Acho que principalmente nessas duas, a banda tentou demasiado chegar-se ao pop, o que acabou por prejudicar ambas as faixas. Mas não tem mal, porque ainda temos um No.1 Party Anthem a fazer lembrar Elton John, um Fireside com uma bateria bastante aguerrida de Matt Helders ou um I Wanna Be Yours cheio de melancolia, sendo uma das músicas que mais retrata o álbum no geral, pois grande parte da crítica considera o projeto “melancólico, obscuro e intimidador”.

Ainda podemos falar de músicas bastante boas como Knee Socks, onde acho que conseguiram atingir um equilíbrio perfeito entre o pop e aqueles riffs clássicos da banda de Sheffield, e ainda Why’d You Only Call Me When You’re High?, música que parece eleger os jovens como o público alvo, falando de problemas que fazem parte do quotidiano de um adolescente como uma bebedeira na noite e a constante necessidade de trocar mensagens com outra rapariga, cujo interesse pelo protagonista da música não é recíproco.

Analisando muito rápida e sucintamente toda a discografia da banda, é visível que evidenciei grandes músicas e músicas menos conseguidas em quase todos os álbuns. Nada de diferente no AM. Isto para dizer que é normal que, num álbum onde constem 12, 13, 14 músicas, nem todas sejam boas, bem como para mostrar o meu ponto de vista em relação ao que se diz das bandas que subitamente mudam o seu estilo, que, por fazerem tal coisa, não significa que estejam a regredir ou que estejam a perder qualidade, muito menos que é mainstream porque passa na rádio ou toda a gente ouve. Por isso fica aqui a minha opinião de que o AM é, deveras, um grande álbum de música. Perdoem-me se com isso me torno um poser, mas não tem mal, afinal de contas os ouvidos são meus.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Escrito por: Bruno André

Editado por: Daniela Carvalho

 

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