Quentin Tarantino: Depois dos oito que não odiámos, o que esperar do nono?

Eis um nome que não deverá ser desconhecido da maioria: Quentin Jerome Tarantino. O lendário realizador, produtor e ator norte-americano, nascido em Knoxville, Tennessee, prepara-se para lançar a sua nona obra de arte, que desde cedo tem sido bastante comentada em todas as manchetes, muito por causa da separação do cineasta da The Weinstein Company, produtora encabeçada por Harvey Weinstein, que neste momento está envolvido num escândalo sexual que assolou toda a indústria de Hollywood. Desde o divórcio entre as duas partes que tem existido uma feroz competição entre as grandes produtoras mundiais para serem detentoras do espólio de Tarantino, tendo a escolha recaído sobre a Sony Pictures. O nono filme, que tem sido apelidado de #9, parece focar-se no ano de 1969 e nos acontecimentos que tornaram esse ano num marco histórico dos Estados Unidos, tais como os assassinatos de Charles Manson, a missão Apollo 11, o Festival de Woodstock e o primeiro ano de presidência de Richard Nixon. Através da filmografia de Quentin Tarantino, olhando para os oito filmes já realizados, o que nos reserva o “Projeto 1969”?

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Para contextualizar, decidi escolher e analisar por alto os “melhores quatro” dos oito filmes já realizados por Tarantino, sendo essas escolhas do foro pessoal. Recuemos então até 1992, ano de realização de “Reservoir Dogs”, primeiro filme destes “Oito magníficos” do realizador norte-americano. Antes de saltarmos para o enredo do filme é importante olhar para alguns aspetos técnicos do mesmo. Foi com “Reservoir Dogs” que Tarantino expôs aquela que seria a sua base técnica para os filmes que se seguiriam, incorporando elementos que se tornariam mais tarde na sua marca registada, como os crimes violentos, o exagero do sangue, as várias referências à cultura pop, a narrativa não-linear ou desfasada, a banda sonora super versátil e, claro, o abuso de palavrões e do “calão” nos diálogos. O elenco desta longa-metragem é composto por atores de nome como Tim Roth, Harvey Keitel, Steve Buscemi, Michael Madsen, Chris Penn, Lawrence Tierney e o próprio Quentin Tarantino.

O enredo conta a história de oito criminosos que planeiam levar a cabo um assalto a uma joalheria que, no entanto, corre mal, levando-os a suspeitar que a polícia já estaria à espera deles, advendo uma traição de algum dos membros do grupo de mafiosos. Para que não haja suspeitas em relação aos nomes dos assaltantes, cada um recebe um nome de código, sendo Harvey Keitel o Mr. White, Tim Roth o Mr. Orange, Michael Madsen o Mr. Blonde, Steve Buscemi o Mr. Pink, Edward Bunker o Mr. Blue e Quentin Tarantino como Mr. Brown, liderados por Joe Cabot (interpretado por Lawrence Tierney) e o seu filho “Cool Guy” (interpretado por Chris Penn). Um dos membros do grupo é, de facto, um polícia infiltrado que dedicou grande parte da sua carreira a tentar apanhar Joe Cabot, mas isso deixo para o leitor que eventualmente ainda não teve a feliz oportunidade de assistir ao filme. A história é contada de trás para a frente, como Tarantino já nos habituou, recorrendo várias vezes a flashbacks para explicar os acontecimentos que ocorrem durante o filme, para não nos sentirmos, em ocasião alguma, confusos.

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Cena do Impasse Mexicano: no chão ensanguentado (Mr. Orange); de fato (Mr. White); de casaco azul (Eddie “Cool Guy”); de casaco branco (Joe Cabot)

Depois de “Reservoir Dogs”, Quentin Tarantino esperou apenas dois anos para lançar uma das maiores obras-primas da sétima arte: “Pulp Fiction”. A título individual, este é capaz de ser um dos melhores filmes de sempre. Mais uma vez, o elenco escolhido por Tarantino é de luxo, contando com nomes como Samuel L. Jackson, Tim Roth, John Travolta, Bruce Willis, Uma Thurman, Harvey Keitel, novamente Tarantino e até a portuguesa Maria de Medeiros.

Mais uma vez, o enredo não é linear e a história volta a conter mafiosos, assassinos contratados, corrupção e muito sangue. Após a cena inicial do assalto a um café interpretado por Tim Roth e Amanda Plummer, a cena é cortada e seguem-se os créditos iniciais com a música “Misirlou” de Dick Dale como fundo, fazendo valer mais uma vez a grande versatilidade na banda sonora escolhida pelo realizador. De seguida, a história retrocede para uma das mais épicas cenas do cinema em que Jules Winnsfield (Samuel L. Jackson) e Vincent Vega (John Travolta) interpretam o papel de assassinos contratados por um mafioso de seu nome Marsellus Wallace, e que se dirigem ao apartamento de Brett (sócio de Marsellus) para ajustar contas depois deste contrariar os interesses de Marsellus.

A história em si tem várias vertentes e sub-histórias, tais como a de Butch Coolidge (Bruce Willis), um pugilista pago por Marsellus para perder um combate no quinto round, o que não se verifica, tendo Butch que fugir de Marsellus e dos seus contratados. A história de Mia Wallace (Uma Thurman), esposa de Marsellus, com Vincent Vega, cujo trabalho incumbido por Marsellus era fazer companhia à sua esposa enquanto ele se encontrava fora em negócios, também prende qualquer pessoa que esteja a assistir ao filme, principalmente na cena de twist (dança) no restaurante ao som de “You never can tell” de Chuck Berry. Mais para o final do filme, a cena retorna ao assalto do início, ao restaurante onde Tim Roth se encontrava com Amanda Plummer prontos para o assaltar. A curiosidade é que nesse mesmo restaurante também se encontram Jules e Vincent, já depois do sucedido em todo o filme, e o desfecho fica para quem quiser ver o filme.

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Vincent Vega (John Travolta) à esquerda; Jules Winnsfield (Samuel L. Jackson) à direita

Prosseguindo para o filme seguinte, seguindo uma certa ordem cronológica, é neste próximo que Tarantino pretende caricaturar um dos momentos mais tristes da história: a II Guerra Mundial. Mas Tarantino fá-lo de maneira irrepreensível em “Inglorious Basterds”, realizado já em 2009 e que conta com estrelas como Brad Pitt, Christopher Waltz, Michael Fassbender, Diane Kruger e Eli Roth.

Desta feita, a história inicia-se em 1941 com o coronel das SS Hans Landa (Christopher Waltz) a interrogar um francês, um homem de família, em casa do mesmo, com o intuito de encontrar uma família judaica que estaria em fuga na altura: os Dreyfus. Hans Landa percebe que tal família se encontra de baixo do soalho da casa e ordena aos seus soldados que disparem na direção deles. A família acaba por ser assassinada à excepção de Shosanna Dreyfus (Melánie Laurent) que consegue escapar. Já em 1944, o tenente americano Aldo Raine (Brad Pitt) é encarregue de liderar um grupo de oito homens judeus-americanos fortemente armados que se irão posicionar na retaguarda dos alemães de maneira a assustá-los, tendo recebido ordens para não fazerem prisioneiros.

Enquanto isso, Shosanna mudou o seu nome para Emmanuelle Mimieux e é gestora de um cinema parisiense na França ocupada pelos Nazis. A chave para a ligação entre os “Bastardos” e a história de Shosanna prende-se com um soldado alemão, Friedrick Zoller, heroificado num filme de propaganda nazi que o próprio, movido por uma paixão por “Emmanuelle”, faz questão de usar o seu cinema para dar lugar à estreia de “Stolz der Nation” (O Orgulho da Nação). É curioso que esta pequena película que se insere no filme “Inglorious Basterds” foi mesmo preparada e realizada por Eli Roth para que fosse ainda mais realista. Zoller consegue mesmo convencer Joseph Goebbels a mudar o local da estreia do filme para o cinema de Shosanna e esta, ao perceber que na sua sala irá estar reunida grande parte dos oficiais do regime nazi, inclusivamente Adolf Hitler, prepara um plano de vingança que consistia em deitar fogo a todo o cinema. Os Bastardos tomam conhecimento do plano de Shosanna e aliam-se a Bridget von Hammersmark, uma atriz alemã que trabalha como agente infiltrada, comparecendo na estreia o tenente Aldo Raine e mais dois dos Bastardos fazendo o papel de acompanhantes italianos da atriz. Eventualmente, o plano de Shosanna resulta, mas com várias nuances à mistura que também deixarei para o leitor se deliciar.

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Cena antes da estreia: Bridget von Hammersmark, Tnt. Aldo Raine (Brad Pitt), Donny Donowitz (Eli Roth) e Omar Ulmer (Omar Doom) em conversa com o Coronel Hans Landa

Por fim, olhemos para “The Hateful Eight”, a última longa-metragem produzida por Tarantino, já no ano de 2015. Mais uma vez, o elenco deste filme é bastante eclético, contando mais uma vez com Samuel L. Jackson, Tim Roth, Kurt Russel, Jennifer Jason Leigh, Michael Madsen, Bruce Dern e Channing Tatum.

Desta feita, a história passa-se no pós-guerra civil americana, em que o Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), um caçador de recompensas, se dirige à cidade de Red Rock com três cadáveres, quando é interpelado por uma diligência (carroça antiga) onde se encontra outro caçador de recompensas, John Ruth (Kurt Russell), algemado à sua prisioneira Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), que também tem o destino de ser entregue ás autoridades de Red Rock. Marquis acaba por pedir boleia visto que ambos se deslocam para o mesmo sítio e com os mesmo objetivos: receber as respetivas recompensas pela captura dos fora-da-lei. Mais à frente no caminho, a diligência encontra no meio da neve cerrada Chris Mannix (Walton Goggins), um ex-confederado que perdeu a guerra e que diz ser o próximo Xerife de Red Rock, sendo que seria ele a pagar as recompensas de Marquis e John Ruth.

Os viajantes apercebem-se que está para chegar um nevão e decidem abrigar-se no Albergue de Minnie, onde são recebidos por Bob, “o Mexicano”, que lhes diz que Minnie foi visitar a sua mãe, deixando-lhe o albergue por conta dele. No mesmo albergue estão hospedados Oswaldo Mobray (Tim Roth), o carrasco de Red Rock, Joe Gage (Michael Madsen), um cowboy que está em viagem para ir passar o natal com a sua mãe e ainda Sanford Smithers (Bruce Dern), um antigo general confederado. Movido por uma raiva interior contra Smither por ter morto inúmeros negros na Guerra Civil, Marquis provoca-o até que o antigo soldado decide pegar na arma, sendo desde logo impedido de fazer alguma coisa com ela por Marquis, que prontamente lhe deu um tiro resguardado pelo direito à legítima defesa. Enquanto estão todos ainda atormentados pela morte de Smithers, Domergue repara que alguém colocou veneno no café, acabando por matar John Ruth e o condutor da diligência, O.B.. No meio da confusão, Marquis encosta todos à parede para perceber quem envenenou o café, até que do nada é atingido nos testículos por uma bala disparada de baixo do chão e Mobray atira em Mannix.

É aqui que entra mais uma vez a narrativa não-linear de Tarantino. A cena seguinte explica a história dos indivíduos que estavam no albergue antes da chegada de Marquis, John Ruth e Chris Mannix. Bob, Joe Gage, Mobray e um quarto homem, Jody (Channing Tatum) chegam ao albergue de Minnie e matam todos menos Smithers. Jody conta a Smithers que o plano deles é fazer uma emboscada a John Ruth e libertar a sua irmã, Dayse Domergue. Assim que Marquis, Chris e John Ruth chegam ao albergue, Jody esconde-se debaixo de um alçapão. A cena final do filme envolve um tiroteio entre Chris Mannix juntamente com Marquis Warren contra Daisy, Jody, Gage e Mobray e acaba de maneira que só Tarantino consegue mostrar. Sem dúvida um grande filme também.

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Chegamos então àquele que é o propósito deste artigo: o nono filme de Quentin Tarantino. Através do que já foi revelado pelo mesmo, o elenco poderá contar com estrelas como Brad Pitt, Margot Robbie, Jennifer Lawrence, Leonardo DiCaprio, Tom Cruise e, claro está, Samuel L. Jackson. Parece um exagero de grandes atores desde logo. A produção ficará a cargo de David Heyman, lendário produtor da saga Harry Potter. Os temas em que o filme se irá focar parecem ser bastante interessantes, desde os assassinatos de Charles Manson até à chegada de Neil Armstrong à lua, passando pela revolução que foi o Festival de Woodstock e pela presidência de Richard Nixon.

Será bastante interessante ver como Tarantino irá transpôr para o grande ecrã os acontecimentos de 1969, quando um grupo liderado por Charles Maddox, mais conhecido por Charles Manson, assassinou a famosa atriz Sharon Tate (grávida de 8 meses) na casa de Roman Polanski, realizador polaco cuja obra mais conhecida é “o Pianista”, e também Rosemary e Leno LaBianca, no dia seguinte. Para além dos assassinatos, Manson deixou mensagens escritas com o sangue das vítimas na parede, como “Rise”, “Death to Pigs” ou “Helter Skelter”. Ao mesmo tempo que retrata estas façanhas do assassino norte-americano, Tarantino procurará explorar também o boom hippie dos anos 70, iniciado em 1969 com a sua imagem no mítico Festival de Woodstock. Este mesmo festival, que se realizou entre 15 e 18 de agosto de 1969, supostamente iria receber cerca de 200 mil visitantes mas a adesão foi tanta que o número ultrapassou o meio milhão, fazendo com que grande parte das pessoas derrubassem as barreiras da entrada, tornando o Woodstock num festival gratuito. A harmonia e a boa disposição de espírito contrastava com o abuso de drogas, com o racionamento da comida e com a falta de saneamento para tamanha população. Houve polémica até na escolha do cartaz, onde se encontravam Jimi Hendrix, The Who, Janis Joplin, Santana, entre muitos outros, mas onde também os Beatles, os Led Zepellin, os Doors e Bob Dylan tinham recusado marcar presença, alguns devido ao descontentamento com o próprio festival. Ainda temos os temas de Richard Nixon e o seu primeiro ano de presidência, que ficou marcado pela abertura dos Estados Unidos às relações políticas externas, principalmente com a China de Mao Tsé-Tung, dentro do panorama do conflito sino-soviético, bem como a ida do homem à lua, protagonizado por Neil Armstrong, que representou uma clara superioridade em relação à União Soviética.

Resta-nos esperar até 9 de agosto de 2019, data de estreia mundial do nono filme de Quentin Tarantino, para saber como vão ser intercaladas as diversas histórias dos acontecimentos ocorridos em 1969, que tornaram esse ano icónico na história norte-americana.

Escrito por: Bruno André

Editado por: Inês Queiroz

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