MKUltra: desde a Guerra Fria até à Netflix

Ao ler o título, o leitor pode sentir-se confuso. O que tem a ver um dos programas mais obscuros e sigilosos da segunda metade do século XX com uma das maiores plataformas de distribuição de séries e filmes da atualidade, a Netflix? A resposta prende-se com uma das séries que tem dado que falar em todo o mundo: Stranger ThingsSpoiler Alert, a história da série está diretamente relacionada com as várias experiências de controlo mental inerentes ao Programa MKUltra, também conhecido por Programa Monarch

MKULTRA

No topo da foto podemos ler: “Uma pessoa do sexo feminino branca e não identificada, com idade entre os 8 e os 10 anos. O sujeito esteve 6 meses em tratamento usando doses pesadas de LSD, choques elétricos e privação sensorial. Experiências sob o nome de código: MKULTRA, por volta dos anos 60. A memória do sujeito foi apagada e o seu cérebro agora é o de um recém-nascido.

De ambos os lados lê-se: “Conter toda a urina”.

Nos inícios dos anos 50, em pleno clima de Guerra Fria, o Departamento de Ciências da CIA encetava um programa ultra-secreto (até mesmo com desconhecimento do próprio Presidente Truman) com vista a testar novas drogas e procedimentos de tortura, com o objetivo de obter cooperação e confissões de maneira forçada através de táticas de controlo da mente. Atualmente, é do conhecimento público que muitas cobaias dessas experiências eram animais e até crianças, a quem eram administradas drogas alucinogénicas e psicoativas como o LSD. O famoso produtor de filmes Harvey Weinstein desenvolveu até vários estudos sobre o assunto e estabeleceu uma relação direta entre o MKUltra e dois psiquiatras que usavam os mesmos mecanismos de tortura para obter os mesmos resultados, sendo um Ewen Cameron e o outro William Sargant.

Harvey conseguiu até comprovar que Ewen e William faziam experiências recorrendo a cobaias civis e completamente inocentes, desprovidos de qualquer informação sobre o programa, como também a masoquistas que consentiam os testes de tortura efetuados neles mesmos. Existe mesmo um caso sobre um cientista americano chamado Frank Ollson que faleceu depois de lhe ter sido involuntariamente administrada uma dose letal de LSD. O controlo da memória também constituía um alvo fulcral no programa MKUltra, tendo sido, na maioria dos casos divulgados, administradas doses de drogas pesadas e alucinogénicas em agentes e espiões inimigos, com o objetivo de apagar todas as memórias do sujeito, para posteriormente implantar memórias falsas que corresponderiam aos resultados que William e Ewen pretendiam obter.

Os dois cientistas basearam-se inclusivamente nas teorias e experiências de Ivan Pavlov de que as pessoas detinham um sentimento de crença, ou seja, a forma como as pessoas adquirem parte da sua consciência está relacionada com tudo em que acreditam, destruindo esse sistema através de lavagens cerebrais e controlo da mente, bastante usado em matérias de religião e política.

Não eram só William e Ewen que efetuavam este tipos de experiências ilegais e clandestinas, desconhecidas mas financiadas pelo próprio governo dos Estados Unidos. Sidney Gottlieb encabeçava o projeto MKUltra sob a alçada da CIA, dirigida por Allen Dulles. A própria fundação Rockefeller, direcionada à pesquisa e ao desenvolvimento da saúde do povo americano, também foi usada como meio de disfarçar o envolvimento da CIA no programa.

Henry Murray, diretor da clínica psicológica da Universidade de Harvard, foi o responsável pelas experiências efetuadas na Faculdade de Artes e Ciências, em que foram usados cerca de 25 estudantes universitários sujeitos a stress extremo provocado por drogas e abusos físicos e psicológicos. Entre os alunos, encontrava-se Theodore Kaczynski, o prodigioso matemático que, aos 16 anos, já frequentava aquela faculdade e que, mais tarde, ficou conhecido por Unabomber. 

Mas onde entra Stranger Things nesta história toda? Ora, a série passa-se na cidade pacata de Hawkins, no Indiana, em que o “pequeno segredo” guardado atrás das vedações do Laboratório Nacional de Hawkins é exatamente mais uma instituição destinada aos testes de controlo mental levados a cabo pela CIA, encabeçada pelo Dr. Martin Brenner e que tiveram início em 1953. Um dos pacientes, uma jovem universitária de seu nome Terry Ives, havia sido raptada enquanto estava grávida e posteriormente sujeita ao abuso de drogas e químicos, em especial o LSD. O constante abuso de drogas psicadélicas de Terry conduziu a uma condição especial na sua filha Jane, que nasceu com capacidades mentais especiais como telepatia e telecinesia. Depois do seu nascimento, Jane foi retirada à sua mãe e o seu nascimento foi encoberto, não existindo quaisquer provas que ela existiu.

Jane ficou então entregue aos cientistas do Laboratório Nacional de Hawkins, que lhe mudaram o nome para “Eleven” (ou “Onze”) e a sujeitaram a mais testes e experiências com vista a treinar as suas habilidades, movendo ou destruindo objetos e, eventualmente, foi até obrigada a matar um gato com a própria mente. Por fim, colocaram-na num tanque de privação sensorial que a permitiu espiar um comunista, até que Eleven se deparou com uma criatura, um verdadeiro monstro. Curioso sobre a sua natureza, Dr. Brenner fez com que Eleven contactasse o monstro pela segunda vez, o que resultou numa espécie de abertura de um portal dimensional que ligava a nossa dimensão à dimensão da tal criatura, o chamado Upside Down, permitindo ao “monstro” ter acesso à nossa dimensão. Entre todo o caos causado por tal acontecimento, Eleven conseguiu escapar e os envolvidos tiveram de reunir esforços para não só reencontrar a rapariga, garantindo a confidencialidade do programa, mas também para impedir que a existência da criatura se tornasse do conhecimento público.

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A linha que separa a realidade da ficção é ténue. Podemos olhar para esta história apenas como uma história de ficção usada para entretenimento, porque, afinal de contas, é tudo o que ela é, ou podemos olhar para as pequenas semelhanças existentes na série comparadas aos eventos da vida real.

Apesar da cidade de Hawkins, na série, pertencer ao estado do Indiana, não deixa de ser curioso que um conhecido local real onde eram feitas experiências de controlo da mente, Camp Hero em Montauk, Nova Iorque, fica a não mais que 110km de distância de uma cidade, também verdadeira, de seu nome Hawkins. Isto pode ser apenas uma coincidência engraçada, no entanto, as semelhanças entre Montauk e toda a envolvência de Stranger Things em Hawkins não podem ser ignoradas.

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Foto: Camp Hero em Montauk, Long Island, Nova Iorque

Em julho de 2008, numa praia de Montauk, deu à costa uma carcaça de uma criatura que, até hoje, ninguém conseguiu identificar. Simplesmente nenhum ser-vivo conhecido pelo homem havia sido relacionado com o cadáver que deu à costa em Nova Iorque, perto de instalações onde eram efetuadas experiências com animais, e até mesmo crianças. O elevado número de raptos de crianças em Montauk era desconcertante para a população, que exigia respostas. Essas instalações eram Camp Hero, onde existia um edifício da II Guerra Mundial, que supostamente estaria abandonado, mas que no entanto, em teoria, continha uma rede de túneis subterrâneos e várias salas para onde seriam levadas as crianças e transformadas depois em armas militares através da limpeza da memória, telepatia e telecinesia, bastante semelhante à história de Eleven. 

Contudo, a teoria de que por baixo de Camp Hero existe uma rede de túneis subterrâneos para onde são levadas crianças, que mais tarde são administradas com drogas psicadélicas que, por vezes, as podem confundir acerca da realidade em que estão, e que daí surgir uma criatura não-identificada, qual Stranger Things, não é consensual, muito menos oficial. Chris Gaetano, outrora sujeito a testes com essas drogas, conta hoje num programa do National Geographic que o que Stranger Things está a fazer, para além do entretenimento, é acender a luz em relação ao programa MKUltra, dando relevo à importância da investigação sobre o assunto.

Relacionar a série com o que se passou um pouco por todos os Estados Unidos, mas em especial em Montauk, não é descabido, de todo. É óbvio que se trata de uma série ficcional, mas será que por trás de todos os acontecimentos paranormais e metafísicos, não existirá um pouco de lógica e razão, bem como uma espécie de tentativa de consciencialização direcionada à população, para olhar para o que se passou, e que talvez ainda se passe em Montauk, principalmente?

Escrito por: Bruno André

Editado por: Daniela Carvalho

 

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