Será errado separar o artista da sua obra?

O que têm em comum um dos melhores comediantes do mundo, um dos atores mais respeitados da atualidade e um produtor galardoado pelos seus imensos projetos? Muito simples: são umas verdadeiras bestas. Mas em que medida isso prejudica as obras que deixaram para trás?

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Nas últimas semanas, têm vindo a público dezenas de casos de assédio ou má conduta sexual que envolvem diversas figuras públicas. Tendo esta onda começado com o produtor Harvey Weinstein (ver aqui mais informações), desde então que a quantidade de acusações que seguiram este acontecimento não parou de crescer, chegando a mais de 30 casos (revelados até à data) e estando em constante atualização, quase diariamente.

Quem diria que Hollywood não é aquele paraíso utópico retratado pelo cinema, não é? E quem diz Hollywood, diz tudo o que engloba celebridades do mundo do espetáculo, bem como do mundo jornalístico e político. Na imagem, vemos três exemplos de homens de alto perfil que se encontram neste momento debaixo de fogo devido a acusações de assédio sexual: Kevin Spacey (na esquerda), Louis C.K. (no meio), e Harvey Weinstein (na direita).

Como disse anteriormente, a lista de denúncias de figuras públicas acusadas de abusos sexuais está a crescer dia após dia. É cada vez mais provável chegarmos ao site do jornal The New York Times (um dos grandes investigadores destes casos) e vermos uma nova acusação, quem sabe a um dos nossos ídolos e referências pessoais. No entanto é imperativo que continuem a cair as máscaras dos rostos dos malfeitores para que seja feita justiça. Sim, é um tópico delicado, mas como a comediante Sarah Silverman disse sobre o tema: “É como retirar um tumor. Pode ser confuso e complicado, pode até doer, mas é necessário e seremos todos muito mais saudáveis por fazê-lo“.

Felizmente, embora a um ritmo lento, está a começar a desmoronar um sistema construído na base de uma cultura misógina e sexista, que sempre protegeu várias personalidades do olho público, que se aproveitam do seu poder para fazerem o que querem, mesmo que isso prejudique o bem-estar de outros, (que muitas vezes, acabam por ser admiradores do seu trabalho) e ainda assim saírem ilesos, sem sofrerem as consequências necessárias. É refrescante ver que a mudança está a ser feita e que estas figuras estão a ser punidas devidamente.

No entanto, chegamos a um impasse paradoxal sobre aquilo que será eticamente correto ou errado fazer, enquanto espectador e consumidor de arte. Deveremos continuar a apreciar as obras destes indivíduos, mesmo após estes escândalos? Ou será mais lógico separarmos a arte do homem e compreendermos que são coisas diferentes? Sendo este um texto de opinião, vou tentar ser o mais honesto possível: estou mais inclinado para a segunda opção. Mas calma! Leiam primeiro antes de começarem a atirar pedras virtualmente.

Estes casos de abusos sexuais não são novidade no mundo do espetáculo. Já em anos anteriores, nomes como Mel Gibson, Woody Allen ou Bill Cosby, estiveram envolvidos em escândalos como estes. E também nestes acontecimentos, a discussão do “separar a arte do homem” começou a surgir, sem uma resposta concreta para aquilo que será moralmente correto ou errado. Recentemente, o comediante Jerry Seinfeld esteve no programa The Late Show with Stephen Colbert, em que durante a entrevista este tema veio à baila, pois Seinfeld também concorda que deveremos separar o artista da sua obra, dando o exemplo de um dos seus heróis cómicos, Bill Cosby (que esteve envolvido em graves escândalos sexuais, revelados em 2014).

Consigo identificar-me, de certa forma, com o caso de Jerry Seinfeld. Passo a explicar: Louis C.K. sempre foi um dos meus comediantes favoritos (senão mesmo o meu favorito) de todos os tempos. Sempre admirei o seu trabalho e a maneira brilhante com que desconstruía a sociedade para formar algumas das piadas mais geniais do mundo da comédia. Foi com grande desilusão que recebi as notícias de que um dos meus maiores ídolos se encontra envolvido em acusações de má conduta sexual.

Confesso que desde que estes escândalos foram revelados ainda não voltei a assistir os seus especiais de stand-up ou as suas séries. No entanto não foi por achar que não é eticamente correto, porque penso que devemos saber separar as coisas. Quanto ao próprio Louis C.K. (que recentemente já admitiu e pediu desculpa pelos seus atos) espero que faça uma introspeção de que aquilo que fez foi errado e que seja devidamente sancionado (devemos lembrar que já perdeu diversos contratos com canais de televisão, programas em que estava envolvido, entre outros). No entanto, quanto à sua arte (e a de outros acusados) não deve ser o alvo de julgamento, isto porque distancia-se profundamente do artista que a criou. Um exemplo em que isso faria sentido, seria julgar o livro “A Minha Luta” de Adolf Hitler, pois nesse caso a arte representa pormenorizadamente os ideais terríveis do seu criador. Aí sim, seria moralmente errado e profundamente doentio.

Analisemos outro caso: John Lasseter é outro dos nomes que aparece na lista de acusados de assédio sexual. Talvez não conheçam este homem pelo nome, mas certamente saberão dos projetos em que já esteve envolvido. John Lasseter é um produtor americano e é também o diretor criativo da Pixar, sendo ele um dos principais responsáveis por filmes como Toy Story, CarrosUma Vida de Inseto, entre muitas outras longas-metragens que marcaram a nossa infância. Posto isto, como podemos nós afirmar que não assistiremos nunca mais a alguns dos filmes mais formidáveis de sempre e que ainda hoje nos trazem um brilho nostálgico? Não, não estamos a compactuar com os atos do artista enquanto pessoa, apenas nos interessa a sua obra, por muito materialista que isso possa soar. Até porque seria injusto julgar um projeto que envolveu centenas de pessoas para ser realizado, apenas por uma delas ter cometido atos incorretos. E por isso sim, continuarei a assistir os filmes da Pixar que tanto me marcaram.

Referi estes exemplos, como poderia ter mencionado muitos outros das dezenas de casos que já foram revelados até à data, pois esta avalanche de acusações de abusos sexuais, por parte de figuras importantes, não pára de crescer. Para concluir, penso que o importante a reter deste pequeno ensaio (se me permitem intitulá-o como tal) é que, no fundo, concordo que o mais importante a termos em mente agora são as vítimas, porque essas sim, foram quem mais sofreram no meio destes tristes acontecimentos. No que diz respeito à arte destes indivíduos, deve ser separada do tipo de pessoa que a criou, uma vez que não faz sentido julgar algo que não retrata aquilo que são ou aquilo que pensam.

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Escrito por: Cláudio Nogueira

Editado por: Adriana Pedro

 

 

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