O legado da Revolução Russa: 100 anos depois

A Revolução Russa de 1917 é uma das maiores experiências da História da Humanidade. A luta encetada pelos revolucionários, rumo à utopia comunista de Marx, deu à luz um novo tipo de conceção de relacionamento humano, tanto do ponto de vista das novas relações de poder estabelecidas, do modelo económico adoptado, como também das próprias relações sociais.

A Revolução socialista russa não parece ser um estranho objecto de estudo de áreas de conhecimento como a História, a Economia, as Relações Internacionais, a Ciência Política, a Sociologia, entre outras, que tentam contribuir para a compreensão de um fenómeno desta escala. O entendimento do acontecimento na íntegra e do legado que este deixou é de difícil tarefa, no entanto é possível a concretização de um esboço geral do seu significado.

Para compreender o porquê de uma Rússia caída na tentação da via revolucionária marxista, é necessário perceber o seu status quo pré-revolução: o Império Russo, mergulhado num regime autocrático do Czar, tentava com todas as forças resistir aos ventos de mudança. Ainda numa lógica feudalista, a esmagadora maioria da população vivia da terra, sendo que a servidão ainda era prática comum na segunda metade do século XIX neste país europeu.

Contra tudo e contra todos, a Rússia czarista silenciava qualquer tentativa de instauração de uma ordem liberal, esta que se espalhava a pouco e pouco por toda a Europa. É de lembrar que o Império Russo foi uma das potências europeias que lutou contra o propagar dos ideais subversivos da Revolução Francesa, tendo contribuído para a contra-revolução das potências absolutistas europeias (Prússia e Áustria). No entanto, o carácter obsoleto do regime e as condições de extrema pobreza em que vivia a generalidade da população criou revolta em determinados sectores da sociedade russa, uns de carácter mais extremo, como é o caso dos anarquistas e dos comunistas, e outros mais moderados, que procuravam a via mais reformista.

Mesmo com as tentativas de reforma do sistema político do czar Alexandre II no século XIX, a tensão social permaneceu. O assassinato deste czar culminou num reverter das reformas e um regresso à repressão e autoritarismo. A lenta industrialização em comparação com a Europa Ocidental, a derrota num conflito com o Japão em 1905 e a entrada posterior na Primeira Guerra Mundial afundou ainda mais o regime do czar Nicolau II. Todos estes factores fizeram crescer o descontentamento das camadas populares, que se viram descontentes com a participação na Grande Guerra e com as dificuldades acrescidas que esta causou.

Uma vez mais, o regime responde com mão de ferro, ignorando e abafando a revolta popular. O fatídico momento da queda do czarismo deu-se a Fevereiro de 1917: Nicolau II, perdendo toda a popularidade e a lealdade dos seus soldados, foi deposto pelos populares, dando origem à criação de um Governo Provisório, de carácter liberal. Só que este governo era da opinião de que a Rússia deveria continuar a investir na guerra contra a Alemanha, o que abalou a credibilidade do novo poder instaurado. É neste caos que surge a figura de Lenin, que, exilado na Suíça, regressa à Rússia para impulsionar a segunda fase da Revolução: a Revolução de Outubro de 1917.

A tomada do poder pela nova força, conhecida por ‘’bolchevique’’, teve uma forte resistência por parte dos membros do Governo Provisório e da camada da população que apoiava estes últimos, fazendo com que o país mergulhasse numa guerra civil, entre os bolcheviques, os revolucionários marxistas (Exército Vermelho) e os mencheviques, os moderados (Exército Branco), sendo que estes últimos nutriram de apoio de potências como a Inglaterra e França.

Depois de vários anos de conflito e com milhões de perecidos, a guerra civil chega ao fim com a vitória dos bolcheviques. Sob a liderança de Lenin, são tomadas as medidas para a reconstrução da Rússia e dos restantes territórios que iriam formar a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Estas medidas ficaram conhecidas como a ‘’Nova Política Económica’’, que procuravam estimular a iniciativa privada e uma rápida industrialização, aproximando-se de uma lógica capitalista: Lenin acreditava que o socialismo não deveria ser erguido sobre ruínas, aplicando à letra a sucessão dos estágios de produção da doutrina marxista (é de notar que o Império Russo, até à revolução, ainda se encontrava no estágio do feudalismo e nunca chegou a adoptar o estágio do capitalismo, segundo a perspectiva marxista).

Deste modo, deu-se um abrandamento na revolução, um sacrifício necessário para reconstruir o sonho dos revolucionários. Lenin morrera em 1924, não chegando a viver o sonho pelo qual batalhou longos anos. Sucedeu-lhe Josef Stalin, depois de uma grande disputa interna no Partido Comunista da União Soviética. Só a grande custo e contra a sua própria vontade é que Stalin prosseguiu com a Nova Política Económica, a qual iria reverter em 1928 com políticas de colectivização forçada, aposta na industrialização e em planos quinquenais, formando as bases de uma política económica planificada. As políticas de colectivização forçada das terras, no entanto, foram responsáveis pela morte de milhões de camponeses, pois a redistribuição dos produtos colectivizados era insuficiente para satisfazer as necessidades das populações, dando origem a um prolongado período de fome. Os que resistiam ao processo de nacionalização das propriedades e ao processo de colectivização eram sentenciados a trabalhos forçados ou mesmo executados.

A Ucrânia e a sua população foram as principais lesadas por esta política intencional de Stalin, sendo que actualmente é considerado como um acto de genocídio contra o povo ucraniano, ficando este negro acontecimento conhecido como ‘’Holodomor’’, com mortes ascendendo a milhões. Acrescentando ainda às purgas políticas realizadas por Stalin a forte repressão, o culto de personalidade, a recolocação forçada de populações, para além das já mencionadas fomes generalizadas, criaram-se as bases para um dos regimes totalitários mais ferozes do século XX.

Mas estes aspectos negativos do regime não foram impedimento para a URSS ascender a posição de superpotência, reforçada sobretudo após o papel dos soviéticos na Grande Guerra Patriótica, na qual a União Soviética derrotou as forças da Alemanha Nazi. O longo período de Guerra Fria que se seguiu no pós-Segunda Guerra Mundial foi crucial para a caracterização da URSS e a forma como esta lidava com o conflito bipolar. A corrida às armas, as apostas na tecnologia espacial e o financiamento de regimes socialistas aliados desgastaram o modelo económico soviético, tornando-se incapaz de competir com os EUA. As reformas de glasnost e perestroika tomadas pelo que viria a ser o último secretário-geral do Partido Comunista da URSS, Mikhail Gorbatchov, foram o golpe de misericórdia que ditaram o fim do modelo soviético em 1991. O bloco do leste e especialmente a Rússia entraram num período de instabilidades e incertezas. Caiu em desgraça o sonho revolucionário.

Atualmente, a adaptação ao status quo atual é uma tarefa difícil para as sociedades ex-socialistas do Leste europeu. O sistema de economia de mercado e de democracia liberal ainda encontra resistência e algum ceticismo nas antigas repúblicas populares. As vontades vão baloiçando ora em direcção ao sentimento nostálgico em relação ao mundo socialista do passado, ora em direcção ao orgulho nacional.

Mas o sincretismo das duas vontades é verificável na era de Putin e na Rússia pós-soviética: o espírito do passado soviético continua vivo no hino adoptado pela Federação Russa (a mesma melodia do hino soviético) e um brasão de armas representando a águia bicéfala, que celebra a nação e o passado imperial. A pouco e pouco, a Rússia parece recuperar o fôlego e a redesenhar a sua posição no mundo actual. A participação no conflito sírio, a intervenção militar na Ucrânia, a diplomacia relativamente saudável estabelecida com as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central são alguns dos factores que apontam para o papel cada vez mais activo da Rússia na cena internacional.

Todas estas decisões actuais não são por acaso e estão condicionadas pela vivências e necessidades do passado russo. E 100 anos após a Revolução socialista, o espírito de vanguarda revolucionária mundial e o sentimento messiânico continua presente na mente dos estadistas russos: este é o legado da Revolução de Outubro.

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Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados. 

Escrito por: Andriy Voyevoda

Editado por: Inês Queiroz

2 pensamentos sobre “O legado da Revolução Russa: 100 anos depois

  1. É incrível como no teu texto não há uma única citação… quanto à quantificação das mortes é de desejar pelo menos um número, é que milhões de mortos aqui e milhões ali fico meio perdido. Depois essa tese roubada do José Milhazes de que as posições do Putin se devem ao passado Soviético é rebuscada e não está justificada o suficiente no teu texto.

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    • O meu texto não é suposto ser uma tese de mestrado na qual estou ”obrigado” a usar citações a ”torto e a direito”, isto é suposto ser um artigo de opinião. Assim sendo, a inexistência de citações deve-se a tal. No que diz respeito à quantificação de mortes, mais uma vez servir-me-ei da mesma justificação: o carácter geral que dá origem a este artigo de opinião não se equipara a uma tese de mestrado/doutoramento ou a um outro trabalho de investigação, portanto não percebo qual é o espanto. Bem, em relação àquilo que te referes como ”tese roubada do José Milhazes”, sugiro que revejas a tua posição, pois o José Milhazes não é o único académico a adoptar tal óptica. Ao longo do meu percurso académico, foi-me transmitida uma perspectiva coincidente com a que é aqui apresentada. Mas se calhar os anos de estudo de professores universitários que me transmitiram tal ideia não deve passar de propaganda burguesa… E já que te queixas da falta de citações e bibliografia da minha parte, posso sugerir-te o livro ”A Nova Rússia”, de Helena Cristina Rego, que trata precisamente do período histórico da queda da URSS e os novos desafios com que a Rússia teve de se confrontar. Apesar de já terem passado quase duas décadas desde a sua publicação, continua a ser uma boa fonte de informação. Agradeço a crítica feita e espero ter esclarecido as tuas dúvidas.

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