Último dia da Web Summit foi o mais sincero e humano

Começámos o último da Web Summit a ouvir como a profissão de modelo evoluiu com o crescimento das redes sociais, vindo de alguém que já trabalha nesta indústria há 10 anos. Sara Sampaio no palco secundário Modum explicou à audiência como todas estas plataformas digitais mudaram a indústria da moda, tornando os modelos mais humanos, em pessoas que para além de caras bonitas têm uma voz e se conseguem defender. O anjo português da Victoria’s Secret falou da (má) experiência com a revista francesa Lui e como usou as suas redes sociais para se defender e acusar a publicação. Terminou defendendo a ideia de que todos os afetados por situações têm que começar a interceder por si mesmo, porque, como explicou, vale a pena se ajudar uma pessoa que seja a não ter que passar pelo mesmo.

Voltamos para o palco central para ouvir dois trabalhadores das redes sociais. Jenna Marbles e Alfie Deyes, youtubers de profissão, explicaram como tem sido maravilhoso assistir ao crescimento de todas estas plataformas que lhes permitem ter o emprego mais fantástico do mundo – serem eles mesmos. No entanto, não esconderam que existem implicações negativas, pois os seus seguidores, de os conhecerem tão bem porque eles filmam e partilham tudo, esquecem-se que eles não os conhecem.

Enquanto, Caitlyn Jenner se preparava para entrar no palco central e explicar à audiência o T da sigla LGBT, no palco secundário Music Notes,  Wyclef Jean, Nelson Freitas e os D.A.M.A deixaram o público de boca aberta com a criação de um remix completamente de improviso e com direito a simulação de videoclip e gravação do mesmo.

No palco central, Caitlyn Jenner não falou de música, mas sim de como é ser transsexual, o que isso significa. Explicou que todos nós temos problemas, coisas chatas com as quais temos que lidar, e para os transsexuais é a chatice de terem nascido com o sexo errado, explicou que é um problema que não lhes sai da cabeça, até se resolverem e se assumirem. Defendeu que a primeira coisa a fazer é ter a certeza, mesmo no mais fundo pedaço do coração que mudar é a decisão certa e depois falar com a família. Caytlin não conseguiu deixar de partilhar com o público a alegria que é poder sair à rua livremente, sendo quem realmente sempre quis ser. E terminou com algo que devemos, na sua opinião, ter em mente para vencer na vida: “Apostar, apostem nas melhores escolhas na vida e não tenham medo de correr riscos. Trair, traiam aqueles que vos querem mal e rodeiem-se de quem vos quer bem, assim serão campeões. Repousar, repousem nos braços de quem vos ama. Roubar, roubem todos os momentos de felicidade.”.

Depois de sair do palco central, Caytlin tirou os saltos, calçou um par de sapatilhas confortáveis que lhe permitiram estar o mais rapidamente no palco Q+A, voltando a trocar para os sapatos de salto, troca que não escapou aos olhares mais tempos e deixou escapar alguns risos de compreensão de uma plateia maioritariamente feminina, aí respondeu, em 25 minutos, a todas as perguntas que conseguiu de uma multidão que a esperava pacientemente. Falou de como é importante que o governo português permita que a partir dos 16 anos os jovens possam mudar de sexo, do quão afortunada tem sido a sua jornada, pois permite-lhe ter acesso a certos confortos, como sapatos feitos à medida, mas não escondeu que o processo não é fácil. Caytlin mostrou-se uma mulher orgulhosa, por ser mulher, dizendo que se o sexo feminino soubesse o poder que tem o mundo seria incrível. A sessão de perguntas e respostas fechou com uma, também, mulher transsexual a questioná-la sobre o porquê de ter votado em Donald Trump, um presidente que não se tem mostrado muito a favor de lutar pelos direitos da comunidade LGBT, defendeu-se explicando que sempre cresceu num ambiente republicano e que votaria no candidato desse partido, independentemente de quem fosse. Terminou com uma nota de esperança, dizendo que se tudo o que Trump fizer for não fazer nada, é ótimo.

Ainda durante esta sessão de perguntas e respostas, começou no palco principal a conversa moderada por Matthew Garrahan, do Financial Times, que contou com a presença de Rosario Dawson e Sara Sampaio. Mais uma vez o poder que as redes sociais dão às pessoas, o facto de estas já não estarem dependentes de terceiros para se fazerem ouvir foi um tema recorrente, sem nunca deixarem de lado o facto de tal trazer consigo sérias responsabilidades. Sara Sampaio confidenciou que quando fez a publicação em que explica o que aconteceu com a revista francesa Lui, consultou advogados, para saber o que podia ou não escrever, e pediu ajuda para a escrever, porque o inglês não é a sua língua materna e não queria correr o risco de ser mal interpretada. A conversa terminou com o pedido de tornar-mos a tecnologia mais humana, uma vez que já não conseguimos fugir dela.

“Pode a tecnologia salvar a indústria da música?”, foi o mote para a discussão que juntou Wyclef Jean e Martin Garrix, ou baby face como o primeiro carinhosamente o apelidou, juntamente com Hans-Holger Albrecht e Beaumont-Thomas. Wyclef entre se mostrar entusiasmado por viver num tempo em que tudo é tão rápido, onde é possível lançar músicas novas muito frequentemente, arranjou espaço para fazer o pino mostrando que não está de todo velho ou ultrapassado. Martin Garrix não podia estar mais de acordo, e explicou que com as estatísticas das páginas é possível entender o que o público gosta e produzir para o público. Ficou claro que a combinação entre talento e todos os dados que a internet premite recolher é muito poderosa e deve ser explorada.

Antes de Al Gore entrar no palco principal, foi anunciada a start-up vencedora da edição da Web Summit deste ano, um julgamento que contou com o voto do público. Lifeina é uma empresa com uma ideia simples que pode salvar vidas – um frigorífico portátil que permite transportar os medicamentos à temperatura certa.

Entrou, então, Al Gore com três perguntas acerca do futuro do planeta: temos de mudar (o nosso comportamento)? podemos mudar? vamos mudar?. Mostrou-se otimista, dizendo que a resposta é afirmativa para todas, mas não deixou de alertar a audiência para certos factos mais preocupantes, como o de o céu ser uma armadura fina que, devido à sua aparência infinita, nos esquecemos que é frágil e todos os dias é sobrecarregada com quantidades de poluição alarmantes. Apesar de no início ter dito que não iria falar de política, não conseguiu evitar rezar, muito rapidamente, por um presidente novo para os Estados Unidos, enquanto se mostrava entusiasmado pelo acordo de Paris. Explicou que apesar de Donald Trump se ter recusado, os EUA não o fizeram, e diversos estados e donos de grandes empresas o irão cumprir.

Deixou o palco, para deixar entrar o nosso presidente da república, Marcelo Rebelo de Sousa, que cumprimentou Paddy Cosgrave com três pancadas nas costas audiveis e emocionadas. O discurso de encerramento desta edição da Web Summit foi feito em cinco palavras: gratidão, orgulho, parabéns, preocupação e esperança. Marcelo agradeceu a Paddy Cosgrave e à sua equipa; confesou-se orgulhoso de Portugal e dos portugueses; deu os parabéns aos responsáveis por esta revolução tecnológica que vivemos; mas mostrou-se, também, preocupado com os políticos que tomam as grandes e importantes decisões para o nosso planeta; e terminou com palavras de esperança em voltar a receber a Web Summit no próximo ano, pois acredita que Lisboa merece.

“See you all next year”, foi assim que Marcelo Rebelo de Sousa encerrou o seu discurso, que foi aplaudido pelo público de pé, e a segunda edição da Web Summit na capital portuguesa.

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Escrito por: Inês Paulos

Fotografias por: Ricardo Marquês e Stephen McCarthy/Web Summit

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