Uma Viagem pelas Relações Internacionais

O desacordo esteve presente na iniciativa do Núcleo de Estudantes de Relações Internacionais, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, que contou com várias conferências na passada quinta-feira, dia 26 de outubro.

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Inês Colaço, presidente do NERI, e a Professora Alice Trindade, Vice-Presidente do ISCSP, abriram a sessão de conferências, particularmente dedicada aos alunos do primeiro ano da licenciatura em RI, com um apelo ao espírito crítico e à exploração autónoma da paixão pelas relações internacionais.

De seguida foi apresentado um painel repleto de antigos alunos – Marta Moreira, Amish Laxmidas e David Costa – e o Professor Associado Nuno Canas Mendes que, substancialmente, relataram a sua experiência enquanto alunos de licenciatura e os seus projetos futuros relacionados com a área internacional. Os intervenientes aconselharam os ainda estudantes a prosseguir, desde cedo, caminhos ligados ao ramo internacional, desde conferências, a voluntariado em ONG’s ou noutro tipo de organizações. Por fim, realçaram a evolução das Relações Internacionais enquanto curso numa sessão explicativa da licenciatura.


“Para onde caminha a União Europeia?” foi o tema em debate na segunda conferência, em que a Professora Auxiliar Andreia Soares e Castro começou por apresentar o seu parecer quanto ao futuro da UE no qual destacou a importância do conhecimento do passado e do presente para a tomada de decisões futuras relembrando, ainda, “que a UE foi criada voluntariamente por Estados soberanos para a manutenção da paz”. Deu ainda destaque aos “novos desafios”, nomeadamente, o Brexit, a luta contra o terrorismo, a crise de refugiados, assim como ao regresso dos nacionalismos e a necessidade de resposta a questões sociais dos cidadãos.

Aproveitando a plateia que tinha em frente, impeliu os alunos para a importância do acompanhamento ativo em programas europeus de juventude e nos debates quanto ao futuro desta União, afirmando que os Estados se encontram divididos entre “aqueles que querem avançar e têm condições; os que não querem avançar e têm condições; e, finalmente, os que não conseguem avançar por não terem condições”.

Já a Professora Associada Carla Costa partilhou a sua perspetiva acerca da situação atual da União Europeia, marcada por uma tendência mais economicista do projecto.

Olhando para a ciência económica numa óptica interdisciplinar, Carla Costa vê a economia como um instrumento para a manutenção da paz, sendo que foi precisamente a economia o impulso que permitiu aos seis Estados fundadores das Comunidades Europeias juntarem forças, partilhando entre si um mesmo espaço geográfico europeu. “Com a sucessiva entrada de novos países para a União Europeia, o desvio do centro de decisão foi alterado: com a queda do Bloco do leste e da URSS, a entrada dos países do leste europeu para o projecto europeu fez com que se assistisse a um aumento de distância no que diz respeito às trocas comerciais dentro do espaço comum europeu, tornando mais caros os custos de transporte”.

Para além deste factor, assistiu-se também, segundo a Professora, “a uma clara diferença de rendimentos, espelho da diferença entre economias mais desenvolvidas e menos desenvolvidas.” Desta forma, assiste-se a uma ”Europa de diferentes velocidades”. A falta de uma verdadeira união económica, apesar da existência de um mercado interno e de uma união monetária, foi também destacada por Carla Costa.

De acordo com a Professora, a solução para convergir as diferentes necessidades entre os países e trabalhar as disparidades, passa pela criação de um orçamento da Zona Euro com um Ministro das Finanças, uma união bancária, a integração do mercado de capitais e uma união fiscal, reforçando a necessidade de um maior aprofundamento do projecto europeu.


”Que aspectos conjunturais afectam a estrutura nacional?” foi o último tema da manhã deste evento, sendo o orador convidado o Professor Auxiliar Marcos Farias Ferreira.

O Professor começou por abordar a importância da distinção entre pequenas e grandes transformações na conjuntura internacional, assinalando que a dificuldade do estudo das Relações Internacionais surge precisamente em fazer essa diferenciação.

Seguindo uma ótica de análise marxista dos acontecimentos internacionais, o professor identificou as estruturas que compõem a conjuntura internacional como sendo instáveis, tendo em si mesmas a semente da sua destruição, como por exemplo o capitalismo.

Apesar da lógica marxista, Marcos Farias Ferreira apontou para a possibilidade de o fim do capitalismo poder não significar necessariamente o início da utopia comunista, tal como foi ditado por Karl Marx. “A possibilidade do caos num mundo do pós-capitalismo é um cenário possível , notando que esse caos e fim da civilização poderá ter início num colapso ambiental ou num colapso tecnológico.” Esta possibilidade poderá ditar um novo ciclo no que diz respeito às relações humanas, tornando-as mais localizadas. Para precaver os impactos da possibilidade de um futuro nestes moldes, Marcos Farias Ferreira destacou a importância da análise de autores que coagitam sobre estes temas, acreditando no papel transformador do conhecimento e das universidades para evitar um futuro distópico.


Posteriormente foi apresentado pela Professora Maria Francisca Saraiva, licenciada e mestre em Relações Internacionais, docente no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas no curso de Relações Internacionais, um discurso sobre os atuais problemas que a Europa e as outras potências internacionais atravessam na sua relação com a crise dos refugiados.

“A Europa fechou as portas a Leste e agora vai ter de tomar alguma medida a sul, pois este não é um fenómeno que esteja a acontecer apenas em países em guerra como a Síria e o Iraque no Médio Oriente , mas também na África Negra”, referiu a Professora. Segundo Maria Francisca Saraiva, existem vários tipos de migrantes: os económicos e refugiados. Os económicos, que devido ao panorama político e social que está a decorrer nos seus países de origem, não conseguem ver os seus sonhos e objetivos realizados e que deste modo, optam por sair do país. Relativamente aos refugiados, são pessoas que, desesperadas, acabam por decidir abandonar o país, pela falta de sustento básico e segurança.

A Professora afirmou ainda que “alguns países europeus e os Estados Unidos da América não querem as Nações Unidas (ONU) no centro do sistema e acabam por apresentar sistemas fragmentados. Uma situação que se deve à perda de soberania”. “Durante muito tempo, Khadafi foi financiado pela União Europeia para suster os fluxos migratórios. Neste momento, a Europa encontra-se a negociar com o Mali, Nigéria e Etiópia para que as pessoas não abandonem o seu território” revelou a Professora.

Um dos fundos das Nações Unidas, a fundação ACNUR, responsável maioritariamente pelo apoio e protecção dos refugiados,” está a tornar-se alvo de conflitos políticos uma vez que nem todos os países concordam com a forma como a situação dos refugiados está a ser tratada”. Este problema é ainda agravado pela falta de contribuições voluntárias que a ACNUR tanto precisa e depende. Os Estados Unidos da América são atualmente o maior financiador deste sistema, seguindo-se a Europa e o Japão.

Durante a sua intervenção deixou ainda o alerta de que “o direito internacional dos refugiados está cada vez mais a ser violado pelos estados e países como o Mali, Nigéria, Senegal e Etiópia”.

Relativamente ao acordo União Europeia – Turquia, esta tendência de “travagem” dos refugiados está a ser violado, uma vez que as fronteiras estão cada vez mais “fechadas”, obrigando muitas vezes os refugiados a percorrem longas distâncias para o país destino, acabando por lhes ser negado acesso e ainda ordem de regresso ao país de origem. Assim, a ACNUR vê-se encurralada pois afirma querer suspender temporariamente este acordo, denunciando problemas sérios a vários níveis (saúde e alimentação). O grande problema reside, na ótica da docente, “no facto de a ACNUR não ter capacidade financeira para impor-se face às grandes potências”.

Após a apresentação da Professora Maria, foi a vez do discurso de Ana Farias Fonseca, licenciada em Relações Internacionais e Ciência Política sobre a Amnistia Internacional. A ativista e assistente de campanhas na Amnistia trabalhou com refugiados, como activista na campanha “Eu Acolho”, que se está a prolongar por mais de dois anos. Segundo a professora, a situação dos refugiados “é a maior desde a Segunda Guerra Mundial” , revelando que, “84% dos refugiados estão a viver em países em desenvolvimento”.

Segundo os seus dados, perto de dois milhões de refugiados precisarão de realojamento e somente 100 mil lugares são abertos durante o ano. Estes dados foram recolhidos pela Amnistia e garantem que equipas especializadas são postas no terreno.
A reação no caso de Portugal é “surpreendentemente positiva”. A resposta por parte das pessoas é favorável, no entanto existe vontade mas não existem infraestruturas suficientes para uma resposta credível”, acrescentou. Portugal compromete-se com números que “claramente não aguenta mas ainda assim estamos presentes nesta causa.”

Por fim, foi-nos apresentado Saad Howaiw. Nasceu na Líbia, onde se formou em Engenharia Civil. Conseguiu arranjar contrato de trabalho por dois anos, chegando até a construir a sua própria casa. Foi obrigado a deixar o seu país após a chegada do Estado Islâmico à sua cidade natal.
Escolheu vir para Portugal, fazer Mestrado em Engenharia Civil e tentar começar uma vida cá. Era a família que o sustentava, enviando-lhe dinheiro. O problema sério que surgiu foi a diferença de valor monetário entre o seu país e Portugal, que tornavam as despesas insuportáveis acabando por não ter alternativa senão deixar a faculdade. No entanto, afirma que se orgulha do espírito português, da sua simpatia e acolhimento.

No final da conferência, houve ainda o workshop “Public Speaking”, apresentado por David Mourão, colaborador na Universidade do Porto num projecto de empreendedorismo inovador, como veículo de ajuda aos alunos do ISCSP na forma como podem e devem abordar as suas apresentações orais, com o objectivo final de se sentirem mais confortáveis como oradores.

David Mourão transmitiu vários conhecimentos adquiridos com a sua longa experiência, realizando um exercício com os alunos de forma a corrigir e avaliar um pouco a maneira como encaram uma apresentação oral.

Um dia cheio de conhecimento, proporcionado pelo NERI , com uma viagem integral por alguns dos grandes assuntos das Relações Internacionais.

Escrito por: Elisa Vaz, Andriy Voyevoda, Pedro Santos e Inês Machado

Editado por: Adriana Pedro e Filipe Lima

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