Uma espécie de “Anita vai ao SBSR”

A minha primeira experiência no Super Bock Super Rock teve como primeiro desafio (como qualquer outro evento que atraia multidões), a procura de estacionamento. Aqui, há dois fatores de extrema importância a ter em conta: a paciência e o dinheiro disponível. Inocente, deixei o carro no parque de estacionamento do Centro Vasco da Gama. A paciência é uma virtude, e todos temos momentos menos virtuosos. A quem visitar o festival nos dois dias que restam, recomendo paciência na hora de estacionar, a não ser que estejam dispostos a deixar uma quantia generosa para pagar o parque.

Seguia-se, então, a entrada no recinto. Praguejei a quantidade de pessoas que parecia estar amontoada para entrar. No entanto, ao chegar às filas, entendi tratar-se de uma ilusão, já que a maior parte das pessoas que vi, já estavam dentro do recinto. Questionei-me sobre o porquê de haver duas filas. Uma diferenciação entre portadores de passe e portadores de bilhete diário? Uma separação entre géneros, de modo a facilitar a revista dos festivaleiros? Quando questionei o primeiro segurança que vi, obtive a resposta: “Bem, sabe, duas filas é mais fácil que uma!”. Alegrou-me a boa disposição do segurança, que proferiu aquela frase com postura de quem estava a fazer stand-up comedy. É de louvar a organização neste aspeto, tendo em conta que a entrada é rápida e a troca de passe por pulseira, também.

E agora? Que se seguia na minha aventura pelo Parque das Nações? Como a maioria dos jovens da minha faixa etária, sou um entusiasta da cerveja, e foi nas bancadas de venda da mesma que me foquei. Aqui, foi-me apresentada uma novidade (pelo menos, para mim), o copo reutilizável. Resumidamente, ao adquirir uma bebida de copo, o cliente paga mais 2€ por um copo que pode reutilizar ao longo do festival, sendo que também lhe é entregue uma ficha. Quando não quiser utilizar mais o copo, o festivaleiro tem duas opções: ficar com o copo de recordação, ou devolver o copo, juntamente com a ficha, e receber de volta os seus 2€. Fica ao critério de cada um. Esta iniciativa é bastante boa do ponto de vista ecológico, já que, quando acaba o dia de festival, o chão não está forrado a copos de plástico alheios.

Depois de beber as minhas cervejas, dirigi-me ao Palco EDP para dar uma vista de olhos nos concertos, antes de ir marcar o meu lugar no Palco Super Bock, para garantir uma boa visibilidade. Pelo caminho, cruzo-me com algo fantástico. Gelados de borla. Soleros, mais precisamente. Para quem se quiser refrescar, há senhores montados em bicicletas com congeladores, a distribuir Soleros pelo festival. Peguei no meu Solero de morango, e assim que virei costas, ouvi: “De graça?! Pessoal, é de graça!”. Virei-me, e a senhora que disse isto estava a tirar dois gelados para si. Nem estaríamos em Portugal se algo de borla não nos fascinasse desta maneira. Nem me estranhava que a senhora não quisesse dois gelados, mas, bolas… É de graça!

Depois de ouvir um pouco de The Orwells, que se revelaram agitados demais para o meu estado de espírito na altura, decidi que era hora de me aventurar pelo Palco Super Bock, mas tinha de me alimentar primeiro. Pizza parecia-me uma boa opção, até ver que a fila que lá estava só me permitia acabar a refeição duas horas depois. Passei por mais roulotes, até que encontrei algo que me parecia a decisão final. Seis euros por um hamburguer era caro, mas dado os preços que se praticam nos festivais, não era escandaloso… Até dizerem que uma fatia de queijo (e afins) extra, envolvia um acréscimo de 50 cêntimos. Já me bastava o parque de estacionamento (cujo tempo de utilização continuava a subir) para me assaltar a carteira. Decidi então ir à Pans do Vasco da Gama. Não foi a decisão mais festivaleira, reconheço, mas não tenho de pagar 2€(!) extra por batatas fritas.

Chegava então a altura de me plantar na plateia do Palco Super Bock à espera de uma das minhas bandas favoritas, Red Hot Chili Peppers. Há algo linear nos palcos de festivais em que vai atuar uma banda (ou um artista) que, só por si, esgota o dia do festival: por muito bem que atuem os artistas anteriores, o público desespera por que acabem. E foi um bocado isso que se passou.

Primeiro, atuaram The New Power Generation ft. Bilal. Não vou mentir, não fazia ideia do que me esperava. Não sou um erudito da música, tenho os meus conhecimentos, mas não são aprofundados a este ponto. No entanto, não me agrada estar à deriva num concerto, então fiz uma rápida pesquisa no Google sobre o que se apresentava à minha frente. Ao que parece, The New Power Generation, ganhou notoriedade a acompanhar Prince. Ao aprofundar um pouco a pesquisa, cheguei à conclusão que a banda tem variados trabalhos, com muitos artistas diferentes. Desisti de tentar compreender tudo o que tinha a ver com os integrantes da banda, e simplesmente aproveitar o espetáculo. Dou por mim a ver Ana Moura entrar no palco e interpretar Prince, no meio de muitas outras canções interpretadas por Bilal. O público apresentou-se um bocado “murcho”, sendo que houve uma maior interação da plateia na última música tocada: “Purple Rain”, provavelmente o maior hit da carreira de Prince.

Seguiram-se Capitão Fausto. Capitão Fausto já entra na minha órbita de conhecimento de bandas contemporâneas, o que me entusiasmou mais. Apesar disso, juntamente com Capitão Fausto, entrou “em jogo” algo mais desagradável: a desidratação de quem não ingeria água há uma quantidade perigosa de horas. Enquanto a banda liderada por Tomás Wallenstein percorria a sua discografia, focando-se no seu álbum mais recente “Capitão Fausto Têm Os Dias Contados”, o meu corpo implorava por água, que eu lhe negava por ser óbvio que se saísse do sítio onde estava, ia ter de ver RHCP de um dos balcões lá em cima. Não faltou nada a Capitão Fausto, até confusão na plateia houve. Mas, quando acabou o concerto, ainda faltava demasiado tempo para Red Hot Chili Peppers. Temi o pior. Debati comigo mesmo e com quem me acompanhou ao festival sobre se valia a pena abandonar a arena para me hidratar. Como pessoas responsáveis que somos, decidimos que não, e que valia a pena arriscar um colapso por falta de água, a não ver RHCP lá à frente.

Quando Flea entrou com um outfit que fazia lembrar uma fusão dos quatro Teletubbies, todas as minhas preocupações sobre hidratação desapareceram. Os Red Hot Chili Peppers iniciaram o concerto com “Can’t Stop“, “Snow (Hey Oh)” e “Dark Necessities“, num misto de clássicos da banda e o maior single do novo álbum: “The Getaway“. E assim continuaram, com umas jams pelo meio, para delírio dos fãs. É de notar, no entanto, a ausência de demasiadas músicas consideradas definidoras da banda, entre elas, “Under The Bridge“, “Scar Tissue“, ou “Otherside“. Compreende-se que é um concerto de festival e não têm o tempo que teriam num concerto próprio da banda, mas era notória a ligeira desilusão com a ausência de alguns clássicos. Apesar disto, a banda norte-americana fez a noite dos milhares de fãs que ansiavam vê-los ao vivo, 11 anos depois da última passagem por terras lusas. O concerto acabou com “Give It Away“, que provavelmente é a música mais conhecida da banda, e pôs fim a um dos concertos mais aguardados do verão. Guardam-se agora as camisolas com o logótipo da banda, que nas palavras do baterista, Chad Smith, “nos vai voltar a ver brevemente”, na expetativa de as voltar a tirar do armário, quiçá, para um concerto em nome próprio.

Acabado o concerto, voltou à minha cabeça uma preocupação esquecida por hora e meia. Ainda não tinha bebido água. Passaram, aproximadamente, 10 minutos até que conseguisse sair do pavilhão lotado e voltasse a respirar ar fresco. As filas eram enormes, o pânico instalou-se na minha cabeça, até que encontrei uma roulote estranhamente vazia. Foi aí que me dirigi para comprar duas pequenas garrafas de água pela módica quantia de 3€.

E assim terminou a minha jornada pelo primeiro dia de Super Bock Super Rock. Saí de lá satisfeito, realizado por ter visto uma das bandas que mais me marcou ao longo da minha vida, e mais leve, porque a carteira voltou com um quarto do peso com que chegou a Lisboa. Saído do recinto, ocorreu-me que o preço do parque de estacionamento continuava a aumentar exponencialmente. O passo apressou, para encontrar um Centro Comercial fechado. O pânico instalou-se novamente. A ideia de passar a noite ao relento com uma conta de estacionamento a aumentar com o passar das horas, passou a ser uma hipótese aterradora. Felizmente, achei uma entrada para o parque. Era a hora da verdade, finalmente iria saber qual a quantia que iria despender. Lágrimas percorreram o meu rosto, quando vi que se estava a dar a estocada final na minha carteira. Saí do parque com menos 10€, mas saí feliz. Recomendo vivamente o festival, é, sem sombra de dúvidas, muito bem organizado! Vão encontrar filas, mas nada do outro mundo e, caso tenham dúvidas ou questões, o Staff mostrou-se bastante acessível a fornecer as respostas.

Sobram agora mais dois dias de Super Bock Super Rock, que vou tentar aproveitar de igual forma, mas estacionando o carro noutro local…

Este artigo de opinião é da pura responsabilidade do autor, não representando as posições do desacordo ou dos seus afiliados.

Escrito por: Pedro Chula

Editado por: Daniela Carvalho

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