Dois Dedos de Música com Wet Bed Gang

O desacordo foi até ao Nirvana Studios, em Barcarena, para falar com o grupo que está a dar que falar no panorama do hip-hop português, os Wet Bed Gang (WBG). Compostos por Gson, Zara G, Kroa e Zizzy, os WBG mostraram um crescimento exponencial desde o ano passado para cá e prometem não mais parar.

Focados em homenagear o seu falecido fundador, João Rossi, o principal impulsionador do movimento, os Wet Bed Gang lançaram a sua primeira EP no ano de 2017, de nome “Filhos do Rossi“. O projeto de estreia do grupo, oriundo de Vialonga, teve grande impacto na comunidade, nomeadamente as músicas “Não Sinto“, “Kill’em All” (com a participação de Jimmy P) e a faixa bónus “Não tens visto“, tema que deu a conhecer os WBG ao mundo. Para vos dar a conhecer melhor a história desta crew, viemos conversar com eles.

A entrevista deu-se a meio de um ensaio no Nirvana Studios, em Barcarena, Oeiras, na sala “Le Baron Rouge“. Após uma pausa no ensaio, demos por iniciada a entrevista ao perguntar de onde tinham surgido, de facto, os Wet Bed Gang, ao que Kroa respondeu que o grupo havia sido fundado por um amigo já falecido, de nome João Rossi, e que a ideia deles em levar o projeto para a frente era uma maneira de o homenagear, pois sentiam a necessidade de “fazer mesmo isso acontecer”.

Os WBG surgiram a partir de dois grupos distintos (mas não rivais), em Vialonga, tendo partido de Rossi a ideia de juntar num só grupo todas as ideias, uma vez que não fazia sentido lançar uma música de ambos os grupos com “featuring” se estavam sempre todos juntos. De seguida, quisemos saber quais as influências de cada um dos membros dos WBG para começarem a fazer música, ao que, de forma simpática, mas não obstante a sua veracidade, responderam que se tinham influenciado uns aos outros. Em termos de referências musicais, J.Cole, Kendrick Lamar e Travis Scott foram as respostas mais comuns entre os quatro rappers.

Chegámos posteriormente a uma parte mais sensível da entrevista, em que procurámos perceber em que medida é que eles se consideravam “herdeiros” de João Rossi, ou seja, quais as características dele que os WBG pretendem mostrar nas músicas e na sua mensagem. Desta vez, foi Zizzy o porta-voz do grupo, dizendo principalmente “Alegria de viver, YOLO e boas vibes” pois Rossi era considerada uma “pessoa de rir e não de chorar” que não se preocupava com matérias fúteis da vida e simplesmente queria viver a sua vida de modo divertido.

De seguida, o “bebé” do grupo e último a integrar a crew, Zara G, tomou a palavra para responder à pergunta sobre quem os levou mesmo a avançar com a música desde o início. Respondeu que “a vontade apareceu a partir dos mais velhos” nomeadamente do irmão, que tinha um estúdio em sua casa, denominado “A Caverna”, onde grande parte do bairro ia gravar músicas, incluindo Phoenix RDC, Gson e Kroa. Curiosamente, Zizzy revelou-nos que o seu sonho nunca tinha sido fazer música, mas que adorava “fazer freestyles na rua”. “Numa noite fiz um freestyle que o Kroa curtiu e ya, ficou” disse, entre risos gerais. Face a esta pergunta, Gson disse-nos que sentia a necessidade de “dizer alguma coisa” e revelou-nos ainda que, se não fosse o hip-hop, provavelmente estaria a fazer boxe ou “uma arte marcial qualquer”.
É sabido que Gson e Zara G são os nomes mais mediáticos dos Wet Bed Gang, artistas que já fizeram colaborações com grandes nomes do rap português, nomeadamente Slow J, Papillon, Bispo, Here’s Johnny e Lhast, da parte de Gson e Giovanni e Mishlawi, da parte de Zara G. Face a esta emancipação dos dois rappers, quisemos saber se o conceito de WBG era não-mutável ou se, mais tarde, cada um dos membros do grupo pretendia seguir uma carreira a solo, ao que Zizzy, ex-estudante ISCSPiano (de Gestão de Recursos Humanos), respondeu que “cada um tem a sua cena até porque há coisas que queres dizer que não consegues expressar tão bem em sons de grupo” e que cada um tinha “a sua própria mensagem”. Kroa completou dizendo que, apesar de conciliarem carreiras a solo, os Wet Bed Gang iriam manter-se “para sempre”. A seguir a esta pergunta, Gson revelou em primeira mão ao Desacordo que Zara G, membro mais novo do grupo, estaria prestes a lançar um projeto só dele, o que apelou a nossa atenção porque, segundo ele, “está para breve”.

Para os ouvintes de Hip-Hop português não é novidade que, ultimamente, o clima tem estado tempestuoso entre vários nomes deste ramo musical, nomeadamente Valete e Prodígio. Como rappers que são, o Desacordo procurou perceber qual a posição dos WBG em relação à conjuntura “hip-hop’iana” portuguesa. Kroa respondeu-nos que, ao que parece, o hip-hop hoje como que tem “parâmetros”, sendo os WBG completamente contra as parametrizações no mundo da música, justificando até num verso da música “Kill’em All” (Saf**a o rap tuga/ O rap tuga que se adapte a nós). “Nós vamos sempre fazer o que quisermos e contra os parâmetros, por isso, o rap tuga é que tem que se adaptar aos WBG”. Gson acrescentou dizendo “vamos continuar a fazer a nossa cena, quem curtir curte, quem não curtir não curte” e explicou que o hip-hop português está cheio de “opinion makers” que influenciam os “putos novos que vêm aí”. Zizzy completou ainda dizendo que “mandou essa dica” simplesmente para mostrar que não queria saber de ninguém e que, se lhe apetecer “pôr um beat de kuduro no fim de um trap” ou “cantar sobre guitarras como o “Já Passa“”, o vai fazer, bem como “sons de Kizomba” pois não lhe interessam os “opinion makers”. 

A resposta mais surpreendente da tarde foi à pergunta “Depois de Slow J, Mishlawi, Papillon ou Jimmy P, com quem mais gostariam de fazer colaborações?”. Engane-se o leitor se pensava que os WBG apenas querem rap nas suas músicas, pois Zizzy respondeu-nos com Caetano Veloso e Zara G com Matias Damásio e Seu Jorge. J. Cole e Kendrick Lamar também foram outras respostas obtidas, desta vez dentro do mesmo género dos WBG.

Em resposta ao desacordo sobre novos projetos, Zizzy disse-nos, em tom de brincadeira, que a “EP já morreu” prometendo então coisas novas para breve, como por exemplo o trabalho a solo de Zara G.

Poderão ver ao vivo os Wet Bed Gang no Algarve (com data e local ainda sem ser divulgados) e ainda no festival MEO Sudoeste, no dia 4 de agosto.

A escolha do redator:

Escolho a música “Kill’em All“, devido às entradas fortíssimas de Gson e Zizzy, ao flow trapiano” de Zara G e à (boa) arrogância de Kroa na música. O toque de Jimmy P confere à música uma melodia de audição fácil, principalmente no refrão.

Escrito por: Bruno André

Editado por: Daniela Carvalho

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